História da américa - Uniasselvi

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2011 HISTÓRIA DA AMÉRICA Prof. Manoel José Fonseca Rocha Prof. Anderson Nereu Galcowski

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2011

História da américa

Prof. Manoel José Fonseca RochaProf. Anderson Nereu Galcowski

Copyright © UNIASSELVI 2011

Elaboração:

Prof. Manoel José Fonseca Rocha

Prof. Anderson Nereu Galcowski

Revisão, Diagramação e Produção:

Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI

Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri

UNIASSELVI – Indaial.

Impresso por:

980R672h Rocha, Manoel José Fonseca História da América / Manoel José Fonseca Rocha; Anderson Nereu Galcowski. Indaial : UNIASSELVI, 2011. 192 p. : il.

Inclui bibliografia. ISBN 978-85-7830-391-4

1. História da América; I. Centro Universitário Leonardo da Vinci. Ensino a Distância. II. Título.

III

apresentaçãoPrezado(a) acadêmico(a)!

Você está começando o estudo da disciplina de História da América.

A partir desse momento, convidamos você a conhecer um pouco sobre a história do continente em que vivemos, dos seus primórdios até nossos dias. O conteúdo presente nesse caderno, e que você irá estudar, foi elaborado com uma linguagem simples, objetiva e dialógica. Você irá perceber que nossa preocupação será levá-lo a pensar e dialogar com os textos apresentados.

Para melhor atingir os objetivos propostos, dividimos o caderno em três unidades, as quais estão subdivididas em quatro tópicos.

A primeira unidade traz o processo que levou à colonização da América. Nesse sentido, caracterizaremos os motivos que levaram o europeu a colonizar o continente, bem como as civilizações que aqui viviam e, consequentemente, as populações que para cá vieram. Por fim, descreveremos os diversos tipos de colonização adotados pelo colonizador europeu. Nossa intenção, nessa unidade, será fornecer condições para que você possa compreender e refletir sobre o processo que levou à colonização da América.

Na segunda unidade, nosso objetivo é apresentar a independência das colônias americanas, como sendo resultado de um processo norteado por interesses internos e externos. Nesse sentido, apresentaremos o processo que levou à independência da América inglesa e da América espanhola, procurando, sempre que for possível, estabelecer uma reflexão com o processo de independência do Brasil. Ainda nessa unidade, descreveremos e refletiremos sobre uma das guerras mais marcantes da história da América - a Guerra do Paraguai.

Na terceira unidade, será apresentada a História mais recente da América. Aqui descreveremos e refletiremos sobre a Revolução Cubana, as Ditaduras da América Latina e sobre os Blocos Econômicos, que nortearam a economia americana nos séculos XX e XXI.

Sempre que você precisar esclarecer dúvidas sobre os conteúdos ou sobre atividades presentes no seu caderno, entre em contato conosco! Não se esqueça de fazer as atividades, elas são importantes para o seu aprendizado.

Um grande abraço.

Prof. Manoel José Fonseca RochaProf. Anderson Nereu Galcowski

IV

Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há novidades em nosso material.

Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura.

O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo.

Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente, apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto em questão.

Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa continuar seus estudos com um material de qualidade.

Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes – ENADE. Bons estudos!

NOTA

Olá acadêmico! Para melhorar a qualidade dos materiais ofertados a você e dinamizar ainda mais os seus estudos, a Uniasselvi disponibiliza materiais que possuem o código QR Code, que é um código que permite que você acesse um conteúdo interativo relacionado ao tema que você está estudando. Para utilizar essa ferramenta, acesse as lojas de aplicativos e baixe um leitor de QR Code. Depois, é só aproveitar mais essa facilidade para aprimorar seus estudos!

UNI

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UNIDADE 1 – A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS ........................ 1

TÓPICO 1 – A CRISE DO SISTEMA FEUDAL E O ACHAMENTO DE NOVAS TERRAS .... 31 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 32 O FEUDALISMO .................................................................................................................................. 33 A CRISE DO FEUDALISMO .............................................................................................................. 84 A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: UMA SAÍDA PARA A CRISE EUROPEIA .................... 105 A EUROPA ENTRE OS SÉCULOS XI-XIII ...................................................................................... 116 A AMÉRICA COMO UMA ALTERNATIVA VIÁVEL .................................................................. 14RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 15AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 16

TÓPICO 2 – A AMÉRICA ANTES DOS EUROPEUS ...................................................................... 171 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 172 OS PRIMÓRDIOS DA MESOAMÉRICA ....................................................................................... 17LEITURA COMPLEMENTAR 1 ............................................................................................................ 233 SOCIEDADES ANDINAS .................................................................................................................. 24LEITURA COMPLEMENTAR 2 ............................................................................................................ 294 OS NATIVOS DO BRASIL EM 1500 ................................................................................................ 31

4.1 O COTIDIANO E SOBREVIVÊNCIA DOS NATIVOS ............................................................... 32RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 36AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 37

TÓPICO 3 – AMÉRICA PORTUGUESA ............................................................................................. 391 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 392 AS PRIMEIRAS IMPRESSÕES.......................................................................................................... 393 A CARTA DE PERO VAZ DE CAMINHA ....................................................................................... 414 OS MÉTODOS UTILIZADOS PARA A CONQUISTA ................................................................ 45RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................ 48AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 49

TÓPICO 4 – AMÉRICA ESPANHOLA ................................................................................................ 511 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 512 A CONQUISTA DO NOVO MUNDO ............................................................................................. 513 ORGANIZAÇÃO POLÍTICA METROPOLITANA ....................................................................... 524 ESTRUTURA SOCIAL E ECONÔMICA NA AMÉRICA ESPANHOLA .................................. 53

4.1 CLASSES SOCIAIS E MÉTODOS DE TRABALHO NA COLÔNIA ........................................ 545 A CRISE COLONIAL ESPANHOLA ................................................................................................ 55RESUMO DO TÓPICO 4........................................................................................................................ 58AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 59

TÓPICO 5 – AMÉRICA INGLESA ....................................................................................................... 611 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 612 INGLESES NA AMÉRICA DO NORTE ........................................................................................... 61

sumário

VIII

3 A ESTRUTURA COLONIAL .............................................................................................................. 634 DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO ............................................................................................ 65RESUMO DO TÓPICO 5........................................................................................................................ 66AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 67

TÓPICO 6 – A AMÉRICA FRANCESA ............................................................................................... 691 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 692 A PRESENÇA FRANCESA NO BRASIL .......................................................................................... 693 OS FRANCESES NA AMÉRICA DO NORTE ................................................................................ 70RESUMO DO TÓPICO 6........................................................................................................................ 71AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 72

UNIDADE 2 – DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI ...................................................................................... 73

TÓPICO 1 – O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA INGLESA ......................... 751 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 752 AS INFLUÊNCIAS EXTERNAS ......................................................................................................... 753 AS ETAPAS DA INDEPENDÊNCIA ................................................................................................. 77

3.1 AS LEIS INTOLERÁVEIS .............................................................................................................. 773.2 O PRIMEIRO CONGRESSO CONTINENTAL DA FILADÉLFIA ............................................ 783.3 O SEGUNDO CONGRESSO CONTINENTAL DA FILADÉLFIA ........................................... 79

LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 82RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 87AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 88

TÓPICO 2 – O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA ESPANHOLA .................. 891 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 892 AS INFLUÊNCIAS EXTERNAS ......................................................................................................... 893 A INDEPENDÊNCIA GRADUAL E A FRAGMENTAÇÃO POLÍTICA ................................... 91

3.1 JOSÉ DE SAN MARTÍN ................................................................................................................. 923.2 SIMON BOLÍVAR ............................................................................................................................ 93

4 A NECESSIDADE DE CONSOLIDAR A INDEPENDÊNCIA .................................................... 95LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 97RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................................101AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................102

TÓPICO 3 – OS ESTADOS UNIDOS: “OS GUARDIÃES DA AMÉRICA” ..............................1031 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................1032 A DOUTRINA MONROE .................................................................................................................103LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................1063 O BIG STICK ........................................................................................................................................108RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................110AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................111

TÓPICO 4 – GUERRA DO PARAGUAI ............................................................................................1131 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................1132 AS CAUSAS DA GUERRA: ANTECEDENTES HISTÓRICOS ................................................113

2.1 O PARAGUAI DEPOIS DA GUERRA ........................................................................................119LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................121RESUMO DO TÓPICO 4......................................................................................................................125AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................126

IX

UNIDADE 3 – A AMÉRICA NO SÉCULO XX .................................................................................127

TÓPICO 1 – A ARGENTINA E O PERONISMO ............................................................................1291 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................1292 ARGENTINA E BRASIL: UMA BREVE COMPARAÇÃO .........................................................1293 A ASCENSÃO DO PERONISMO ...................................................................................................132

3.1 A DÉCADA INFAME ....................................................................................................................1333.2 OS DOIS MANDATOS DE PERÓN ............................................................................................134

4 A ARGENTINA LOGO APÓS PERÓN ..........................................................................................136RESUMO DO TÓPICO 1......................................................................................................................138AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................139

TÓPICO 2 – A REVOLUÇÃO CUBANA ...........................................................................................1411 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................1412 O QUADRO SOCIOECONÔMICO DE CUBA ANTES DA REVOLUÇÃO ..........................1413 CUBA NO PERÍODO REVOLUCIONÁRIO .................................................................................144

3.1 A SIERRA MAESTRA E FIDEL ...................................................................................................1453.2 CUBA APÓS A REVOLUÇÃO.....................................................................................................148

4 CUBA HOJE: UM BREVE RETRATO .............................................................................................151LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................154RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................................158AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................159

TÓPICO 3 – AS DITADURAS DA AMÉRICA LATINA................................................................1611 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................1612 CARACTERÍSTICAS .........................................................................................................................161

2.1 A ARGENTINA DE GALTIERI A ALFONSÍN ..........................................................................1622.2 O CHILE DE PINOCHET .............................................................................................................164

LEITURA COMPLEMENTAR 1 ..........................................................................................................1692.3 O PARAGUAI DE STROESSNER ................................................................................................171

LEITURA COMPLEMENTAR 2 ..........................................................................................................173RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................176AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................177

TÓPICO 4 – OS BLOCOS ECONÔMICOS AMERICANOS ........................................................1791 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................1792 BLOCOS ECONÔMICOS .................................................................................................................180

2.1 O NASCIMENTO ..........................................................................................................................1802.2 OBJETIVOS .....................................................................................................................................180

3 O MERCOSUL .....................................................................................................................................1823.1 O NASCIMENTO ..........................................................................................................................1823.2 OBJETIVOS .....................................................................................................................................183

4 OUTROS BLOCOS ECONÔMICOS ..............................................................................................183LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................185RESUMO DO TÓPICO 4......................................................................................................................187AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................188REFERÊNCIAS .......................................................................................................................................189

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UNIDADE 1

A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM

PLANO DE ESTUDOS

A partir desta unidade, você será capaz de:

• identificar as razões que levaram à colonização do continente americano;

• compreender a estrutura colonial portuguesa, espanhola, inglesa, francesa e holandesa;

• refletir, a partir do contexto colonial, sobre a situação atual do nativo americano;

• conhecer e comparar as diferenças existentes entre o processo de coloniza-ção inglesa, espanhola, francesa, holandesa e portuguesa e refletir sobre suas influências na realidade atual.

Esta unidade está dividida em seis tópicos. Em cada um deles, você encontrará atividades que contribuirão para a apropriação dos conteúdos.

TÓPICO 1 – A CRISE DO SISTEMA FEUDAL E O ACHAMENTO DE NOVAS TERRAS

TÓPICO 2 – A AMÉRICA ANTES DOS EUROPEUS

TÓPICO 3 – AMÉRICA PORTUGUESA

TÓPICO 4 – AMÉRICA ESPANHOLA

TÓPICO 5 – AMÉRICA INGLESA

TÓPICO 6 – A AMÉRICA FRANCESA

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TÓPICO 1UNIDADE 1

A CRISE DO SISTEMA FEUDAL E

O ACHAMENTO DE

NOVAS TERRAS

1 INTRODUÇÃOA colonização da América está atrelada às transformações econômicas e

políticas ocorridas na Europa a partir do século XII. Neste sentido, consideramos relevante analisar, mesmo que brevemente, tais transformações.

Esta análise deve proporcionar uma aproximação entre você, acadêmico (a), e os fundamentos culturais recorrentes na Europa neste período.

Assim, consideramos elementar iniciar esta reflexão a partir das principais características do feudalismo e, sobretudo, os motivos que ocasionaram a ruína desse sistema. Nessas primeiras páginas, estudaremos sobre a constituição do feudalismo, sua concepção e seus agentes predominantes. Em seguida, será observado o período caracterizado pela crise do sistema feudal e suas consequências que culminaram na “necessidade” da exploração de novos territórios a fim de satisfazer as necessidades da economia europeia.

Portanto, através desta unidade, objetivamos compreender os motivos que ocasionaram a vinda dos europeus para a América.

2 O FEUDALISMOConsiderando a crise do sistema feudal, fator preponderante para o

processo de expansão marítima e imperialista europeia no final da Idade Média, nos parece coerente iniciar nossa leitura relembrando e até mesmo aprofundando nossa reflexão acerca das principais características pertinentes ao feudalismo.

UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

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FIGURA 1 – EXEMPLO DE FEUDO

FONTE: Disponível em: <http://www.professoraclara.com/imagens/feudal/feudo-des.JPG>. Acesso em: 27 out. 2010.

O sistema feudal emerge a partir do século X atingindo seu apogeu entre fins do século XII e início do século XIII.

Assim,

Pelo século XIII, o feudalismo europeu já havia produzido uma civilização unificada e desenvolvida, que registrava um enorme avanço em relação às comunidades rudimentares e fragmentadas da Idade Média. Eram muitos os índices deste avanço. O primeiro e mais fundamental deles foi o grande salto para frente que produziu o excedente agrícola no feudalismo. Isto porque as novas relações de produção rural haviam permitido um impressionante aumento na produtividade agrícola. As inovações técnicas que eram os instrumentos materiais deste aumento foram basicamente o arado de ferro para lavrar, os arreios firmes para tração equina, o moinho de água para a força mecânica, o adubo calcário para a melhoria do solo e o sistema de três campos para a rotação de semeaduras. (ANDERSON, 2004, p. 177-178).

TÓPICO 1 A CRISE DO SISTEMA FEUDAL E O ACHAMENTO DE NOVAS TERRAS

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FIGURA 2 – DIAGRAMA DE UM FEUDO

FONTE: Burns, 1993

E sobre isto Perry Anderson nos alerta para que de fato não foi o “simples” advento de novas tecnologias voltadas à produção agrícola que estimularam esse emergente sistema social. Somente após a consolidação do sistema feudal, ou seja, as configurações das relações sociais de produção é que esses elementos associados foram amplamente implementados.

UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

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Em suma, este autor defende a tese de que a simples invenção desses implementos não foi suficiente para alavancar a constituição de um novo modelo social, pelo contrário, ganhou significado a partir da consolidação das relações sociais que caracterizaram o feudalismo como as concessões de posse da terra, dependência entre servos e senhores entre outras.

Ao longo da conhecida Idade Média Ocidental, o feudalismo apresentou-se como o resultado do processo de aculturação entre as sociedades romana e bárbara, fato resultante da invasão desses ao território ocupado por aquela. Sua estrutura baseava-se em alguns pilares dentre os quais: o social, o político, o econômico e o religioso.

NOTA

Segundo o Dicionário Aurélio, aculturação é o “processo decorrente do contato mais ou menos direto e contínuo entre dois ou mais grupos sociais, pelo qual cada um desses grupos assimila, adota ou rejeita elementos da cultura do outro, seja de modo recíproco ou unilateral, e podendo implicar, eventualmente, subordinação política”.

FIGURA 3 – SÍNTESE DA SOCIEDADE FEUDAL

Clero

Nobreza

Camponeses e Servos

FONTE: Disponível em: <http://www.asdicas.com.br/wp-content/uploads/2010/03/feudalismo.png>. Acesso em: 27 out. 2010.

TÓPICO 1 A CRISE DO SISTEMA FEUDAL E O ACHAMENTO DE NOVAS TERRAS

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A seguir caracterizamos de maneira sucinta quatro desses pilares:

● Social: as relações de poder manifestavam-se através da posse da terra. O poder em questão estava vinculado ao fato de ter ou não a posse desta. Aqueles que dependiam de um senhor - proprietário de terras – encontravam-se em uma situação de submissão.

● Político: representa um período em que o poder político estava descentralizado com relação ao rei. Os reis, em virtude das práticas de susserania e vassalagem, perderam parte considerável do poder político, agora nas mãos dos senhores, figura mais próxima e presente no cotidiano da vila.

● Econômico: caracterizava-se pela autossuficiência econômica e pela ausência quase total do comércio e de intercâmbios monetários. A produção era predominantemente agropastoril, voltada para a subsistência, e as trocas eram feitas com produtos, não com dinheiro.

● Religioso: a Igreja se tornou proprietária de uma grande quantidade de feudos, e consequentemente, exerceu forte poder político e econômico na sociedade, exercendo inclusive controle sobre a produção científica e cultural da época.

Estes quatro pilares, somados, foram fundamentais para que o feudalismo mantivesse suas sólidas estruturas por basicamente mil anos. A sociedade concentrava-se no âmbito rural e era no feudo que gravitava a vida social do homem medieval. Num único feudo existiam campos cultiváveis, a capela (para os habitantes dos feudos rezarem), os bosques (para os senhores feudais promoverem suas caçadas), as vilas (onde camponeses moravam).

Aqui, o senhor feudal era realmente, nas palavras de Marx, ‘o manipulador e controlador do processo de produção e de todo o processo da vida social’ – ou seja, uma necessidade funcional do avanço agrícola. Naturalmente, este avanço era obtido ao mesmo tempo para benefício do proprietário do moinho e à custa do vilão. Outras banalités tinham caráter mais puramente confiscatório, mas a maioria era derivada do uso coercitivo dos meios de produção superiores controlados pela nobreza. As banalités foram profundamente odiadas durante toda a Idade Média e eram sempre um dos primeiros objetivos de ataques populares durante os levantes camponeses. O papel direto do senhor na administração e supervisão do processo de produção naturalmente declinava, enquanto o próprio excedente aumentava: desde cedo bailios e intendentes administravam grandes propriedades para uma nobreza mais elevada que se havia tornado economicamente parasitária.

UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

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NOTA

Significado de bailio: s. m. Nome dado em diversos países a magistrados com várias atribuições e hierarquias. Comendador, nas antigas ordens militares. FONTE: Disponível em:< http://www.dicionarioweb.com.br/bailio.html>.

[...] “O camponês típico devia proporcionar rendas em trabalho na propriedade senhorial – muitas vezes até três dias por semana – e muitas obrigações adicionais; no entanto, ele estava livre para tentar aumentar a produção em sua própria faixa de terra no resto da semana”. (ANDERSON, 2004, p. 179).

3 A CRISE DO FEUDALISMOÉ comum encontrarmos sites e até mesmo livros didáticos descreverem de

maneira pragmática as causas do esfacelamento do sistema feudal, porém vários debates historiográficos já denunciaram as dificuldades de padronização desses conceitos. Durante o período medieval, o sul da Europa ocidental apresentou traços peculiares que diferenciavam essa região das áreas mais centrais e daquelas situadas ao norte.

Neste sentido, concordamos com Hilário Franco Júnior (2006, p. 46), quando afirma que “Importa-nos mais buscar o entendimento da essência da crise. Sem dúvida, podemos afirmar que após uma fase A de crescimento econômico (1200-1316), a Europa ocidental entrou numa fase B depressiva, que se estenderia até fins do século XV no Sul e princípios do XVI no Centro e no Norte”.

Evidentemente que as limitações técnicas relativas à produção agrícola, os baixos índices de reeinvestimentos pelos senhores de terra, o crescimento populacional colaboraram para que “entre meados do século XIV a fins do século XV, [Portugal conhecesse] 21 crises de subsistência. Ademais, verificaram-se pelo menos cinco períodos de fome generalizada em quase todo o Ocidente, cada um deles de anos” (FRANCO JÚNIOR, 2006, p. 47), denunciando assim a precariedade e vulnerabilidade do setor primário.

O setor secundário observou uma retração muito provavelmente ocasionada pela elevação dos preços dos alimentos. Assim, os recursos financeiros disponíveis para consumir bens industriais eram diminutos.

TÓPICO 1 A CRISE DO SISTEMA FEUDAL E O ACHAMENTO DE NOVAS TERRAS

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Afetado pelos motivos anteriores, o setor terciário é atingido por uma redução da margem de lucro tanto das atividades comerciais quanto das financeiras. No caso dos bancos italianos, a lucratividade atingiu no começo do século XIV cerca da metade ou um terço do que fora anteriormente. As dificuldades econômicas das monarquias agravaram ainda mais o setor, sobretudo na França e na Inglaterra, envolvidas na Guerra dos Cem Anos. Precisando de recursos para a luta, os reis lançavam impostos extraordinários sobre o comércio, quando não simplesmente confiscaram mercadorias e dinheiro. Ou então contraíam empréstimos que não podiam saldar, como os que levaram à falência as casas bancárias dos Bardi e dos Peruzzi em 1345 e dos Acciaiuoli em 1347. (FRANCO JÚNIOR, 2006).

Esses fatos revelam o clima de insegurança que por sua vez propiciava o desmantelamento de um sistema financeiro fragilizado pelas constantes mutações monetárias impostas pelos soberanos. Sempre necessitados de dinheiro, os monarcas diminuíam a proporção de metal precioso das moedas e mantinham seu valor nominal, cunhando assim um maior número de peças com a mesma quantidade de metal nobre. Mas dessa forma recebiam impostos em moeda desvalorizada, o que os levava a efetuar nova desvalorização, e assim sucessivamente. Para lembrar apenas o caso francês, entre 1330 e 1380, o Gros perdeu 80% de seu valor real. (FRANCO JÚNIOR, 2006, p. 47).

Essas políticas monetárias eram ocasionadas pelos ônus das várias guerras, retração comercial – e não sua total estagnação – escassez de metais preciosos necessários à cunhagem de novas moedas e à diminuta circulação monetária. “Por fim, o entesouramento: percebendo que tanto as moedas ricas em metal precioso quanto as já manipuladas e desvalorizadas tinham o mesmo valor nominal, os usuários usavam estas e guardavam aquelas, forçando, portanto novas manipulações por parte do Estado”. (FRANCO JÚNIOR, 2006, p. 48).

Esse fato reforça os conceitos cristalizados, inclusive em livros didáticos, acerca da necessidade de governos europeus encontrarem novas fontes de metais preciosos. Desse período de crise e desestabilização socioeconômica irá emergir a economia moderna.

UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

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4 A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: UMA SAÍDA PARA A CRISE EUROPEIA

Na medida em que chegavam, apropriavam-se das terras por onde passavam, portanto, especula-se que a vinda dos europeus para a América não foi outra senão a necessidade de estabelecer novas relações comerciais e extrativistas como nos lembra Jaime Pinsky (2007, p. 23), ao afirmar que:

A descoberta da América por Cristóvão Colombo faz parte do processo de expansão do capitalismo europeu. O comércio, renascido em fins da Idade Média e desenvolvido no interior da Europa entre as cidades italianas e flamengas, foi deslocado, no século XIV, para o litoral atlântico. A escassez de metais preciosos provocava a falta de moeda em circulação, agravando os problemas já existentes. As nações da costa atlântica (Portugal, Espanha, França, Inglaterra e Holanda), detentoras do comércio sobrevivente, eram as que mais sofriam com a crise e, para superá-la, precisavam encontrar metais preciosos para valorizar suas moedas. Por outro lado, dependiam das cidades italianas para o fornecimento das mercadorias orientais trazidas pelos árabes, que dominavam o comércio no Mediterrâneo. Assim, a busca de novos caminhos para atingir o Oriente, terra encarada como fonte de riquezas, passou a constituir uma questão de sobrevivência. Era preciso enfrentar o Atlântico, explorá-lo, buscando saídas, e para financiar um empreendimento desse porte era condição prévia a existência de Estados Nacionais com poder político centralizado e recursos financeiros volumosos. Portugal e Espanha formaram os primeiros Estados Nacionais. Estavam, portanto, prontos para liderar o expansionismo marítimo e, levados pela necessidade, assim o fizeram.

Ou seja, a crise europeia associada à decadência do sistema feudal e a ascensão das relações pré-capitalistas de produção provocaram a necessidade, por parte dos europeus, de dominar novas rotas marítimas com destino às Índias ou regiões a partir das quais fosse viável a extração de algum tipo de riqueza.

Neste contexto, foram os países ibéricos – Portugal e Espanha – os pioneiros em se aventurar por mares desconhecidos além de interagir com povos e culturas diferentes daquelas observadas na Europa.

O contexto citado acima se refere ao período transitório entre Idade Média e Idade Moderna.

Aproveitando a oportunidade convido você, a analisar o texto a seguir

de Pazzinato & Senise (2002, p. 72), pertinente às relações pré-capitalistas de produção e suas origens.

TÓPICO 1 A CRISE DO SISTEMA FEUDAL E O ACHAMENTO DE NOVAS TERRAS

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No século XIII, com o predomínio das atividades comerciais sobre o trabalho dos artesãos, iniciaram-se os choques entre a burguesia e os trabalhadores. Isso provocou a desagregação das comunas como forma de organização política que unificava todos os habitantes do burgo. Com o declínio das comunas, o governo das cidades passou a ser exercido pelos representantes dos grupos burgueses mais poderosos. Ao mesmo tempo, dois outros processos contribuíam para o aparecimento de um novo grupo social. Um deles foi o enfraquecimento das corporações, que já não podiam competir com a produção em maior escala do trabalho em domicílio organizado pelos mercadores. Com isso, muitos de seus oficiais, companheiros e aprendizes e até mesmo mestres artesãos tornaram-se trabalhadores assalariados a serviço dos grandes comerciantes.

Na Inglaterra essas mudanças foram acompanhadas pela expulsão dos camponeses das terras em que trabalhavam. Obrigados a migrar para as cidades, esses camponeses passaram a trabalhar em troca de um salário na produção manufatureira. Esses dois contingentes de assalariados – camponeses sem terra e antigos trabalhadores das corporações de ofício – dariam origem a um novo grupo social ligado ao trabalho urbano.

Assim, apesar do feudalismo permanecer como sistema dominante no interior da sociedade medieval, percebe-se, entre os séculos XI e XIII, o início do desenvolvimento de uma nova configuração de ordem social.

5 A EUROPA ENTRE OS SÉCULOS XI-XIIIO aumento populacional observado desde meados do século X ocasionou

a divisão dos antigos mansos pertinentes à época carolíngia em lotes menores, com cerca de 3 ou 4 hectares, denominados tenências.

Porém, de acordo com Hilário Franco Júnior (2006, p. 37),

não só os lotes camponeses viram sua área diminuir na Idade Média Central. A reserva senhorial também se viu reduzida em razão de vários fatores. Primeiro, a necessidade de criação de novas tenências camponesas, o que apenas o desmembramento dos mansos não fazia na quantidade desejada. Segundo, o progresso das técnicas agrícolas permitia ao senhor obter maior produção com menos terra. Terceiro, os rendimentos senhoriais vinham então bem mais do exercício dos direitos de ‘ban’ do que da exploração direta do solo (daí as baixas exigências feitas aos camponeses em troca de suas tenências). Quarto, na nova ordem social que se implantava desde fins do século X – o feudalismo – para estabelecer relações de vassalagem o senhor cedia terras sob forma de feudo.

UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

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NOTA

Ban: no começo da Idade Média, este termo designava o poder de comando do chefe militar. Depois, o conjunto de poderes regalianos (de rei) que a partir do século X foi confiscado e explorado por grandes latifundiários: julgar, punir, tributar.

Essas alterações proporcionaram uma drástica diminuição do trabalho escravo no norte europeu em decorrência do barateamento da mão de obra ocasionada por sua vez pelo já mencionado aumento populacional.

Além disso, o aumento da produtividade agrícola e seu consequente excedente oportunizaram o revigoramento do comércio. Como afirma Franco Júnior (2006, p. 187), “a repercussão desse fato extrapolou a esfera econômica, tendo como pontos de convergência as feiras, dentre as quais se destacam as ocorridas na região de Champanhe”.

Outra transformação econômica denominada por Jean Gimpel como Revolução Industrial Medieval é identificada durante a Idade Média Central, assim:

Seu ponto de partida foi o crescimento demográfico e comercial, fomentador do desenvolvimento urbano. Estimuladas pela chegada de camponeses que conseguiam romper os laços servis, as cidades localizadas próximas a rios ou estradas frequentadas por comerciantes logo começaram a crescer. Noutros pontos, sem uma célula urbana a desenvolver, surgiram cidades praticamente do nada: entre 1100 e 1300 apareceram cerca de 140 novas cidades no Ocidente. Algumas eram de iniciativa senhorial (para poder taxá-las), outras nasciam de um entreposto comercial ou de um mercado rural.Todas elas, qualquer que fosse sua origem, precisavam oferecer ao campo alguns bens em troca de alimentos e de matérias-primas. Dessa maneira o artesanato urbano logo conheceu seu primeiro impulso, prolongado pelas crescentes necessidades de uma população (rural e urbana) em expansão e mais exigente em função do progresso econômico. A partir dessa pressão do mercado consumidor e aproveitando o avanço cultural que ocorria paralelamente, a Cristandade ocidental criou e aperfeiçoou dezenas de técnicas. (FRANCO JÚNIOR, 2006, p. 41- 42).

Esses fatores contribuem para uma acentuada monetarização da economia europeia, avessa ao o que ocorrera nesta região num período anterior (séculos IV-X), no qual o entesouramento era prática predominante.

Considerando nossa leitura até este ponto, podemos perceber uma correlação entre os fatos apresentados e os motivos que ocasionaram a chegada dos europeus ao Novo Mundo, posteriormente reconhecido como Continente Americano.

TÓPICO 1 A CRISE DO SISTEMA FEUDAL E O ACHAMENTO DE NOVAS TERRAS

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Aquilo que Jean Gimpel denominou de Revolução Industrial Medieval e a consequente monetarização da economia provocou a busca por novos entrepostos comerciais, mercados consumidores e metais preciosos, dentre eles ouro e prata utilizados, sobretudo, na cunhagem de moedas.

Neste sentido,

[...] percebeu-se que as antigas espécies monetárias não satisfaziam naquele contexto diferente. Um primeiro problema era a grande diversidade, a existência de centenas de moedas senhoriais, cada uma delas circulando numa área restrita. Um segundo problema era o baixo valor das espécies, resultado da reforma monetária carolíngia do século VIII, que implantara o monometalismo de prata: o denarius, moeda de pequeno valor, adequava-se melhor àquela economia pouco produtiva e de lenta circulação.

De um lado, a solução veio do fortalecimento do poder monárquico que então começava a ocorrer. Na França, por exemplo, as 300 oficinas de cunhagem existentes no início do século XI foram sendo reduzidas, até restarem apenas 30 no início do século XIV. De outro, os metais preciosos que tinham sido entesourados foram aos poucos reentrando em circulação. Graças à expansão mercantil, entre início do século XII e meados do século XIII um afluxo de ouro muçulmano contribuiu para alargar o estoque metálico ocidental. Graças às novas técnicas de mineração, cresceu bastante a produção de prata da Europa central. Enfim, respondendo melhor às condições da época, em meados do século XIII reinstaurou-se o bimetalismo. Significativamente, as moedas de ouro reapareceram nas cidades mercantis italianas e só depois no resto do Ocidente cristão. (FRANCO JÚNIOR, 2006, p. 44).

Eis alguns fatos preponderantes vinculados à crise do sistema feudal:

● Decadência do feudalismo em decorrência do renascimento urbano e comercial. Neste cenário, a posse da terra perde o significado mantido até então em detrimento dos avanços das práticas mercantis.

● Escassez de metais preciosos para cunhar moedas e consequentemente dinamizar as relações comerciais.

● Necessidade de expandir a fé católica em novas terras em resposta ao avanço da religião protestante.

Portanto, o continente americano, objeto de nosso interesse neste Caderno de Estudos, foi observado como fonte das mais diversas riquezas naturais, necessárias à sustentação dos novos padrões econômicos emergentes no Velho Mundo.

É a partir deste contexto que podemos analisar o processo de colonização da América e consequentemente toda a estrutura econômica, política e social organizada estruturada nesta região.

UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

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6 A AMÉRICA COMO UMA ALTERNATIVA VIÁVELO achamento do então desconhecido Continente Americano

pelos europeus no final do século XV foi encarado como uma alternativa viável aos já expostos problemas enfrentados na Europa, especialmente aqueles de caráter econômico.

Neste sentido, é importante analisar os motivos pelos quais os habitantes do Velho Mundo pressionados inclusive pelos seus governantes sentiram-se obrigados a desbravar um mar tenebroso, desconhecido e extremamente perigoso e posteriormente iniciar outro processo, este em terra firme, caracterizado pelo reconhecimento de territórios e culturas diferentes.

A compreensão e utilização dos termos “achamento” e “culturas diferentes” revelam nossas perspectivas em relação a este processo. Para tal, consideramos as novas correntes historiográficas que posicionam o Continente Americano, enquanto uma região autêntica em seus mais variados aspectos sociais, culturais e ambientais. Assim, o nativo não é analisado como um indivíduo inferior tampouco superior ao europeu ou qualquer outro povo.

Por outro lado, o próprio europeu deverá aqui ser analisado a partir da sua concepção antropológica pertinente ao período em questão, sem vulgarizá-lo, julgá-lo, desmerecê-lo ou enaltecido. Houve nesse período uma convergência de culturas, de seres distintos e concepções a respeito da própria existência completamente antagônicas.

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Neste tópico, você viu que:

● Os motivos que ocasionaram o colapso do feudalismo, dentre eles, foi a diminuta circulação monetária e a desvalorização da moeda como um dos fatores preponderantes que ocasionaram a crise desse sistema.

● A concepção do europeu em relação ao novo Continente a partir da perspectiva

econômica, social e cultural.

● As necessidades europeias e viabilidade de ocupação do Novo Mundo com vistas ao saneamento das questões econômicas.

RESUMO DO TÓPICO 1

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1 Descreva os motivos pelos quais os governos europeus optaram por desbravar novas terras com o intuito de encontrar metais preciosos em fins da Idade Média e início da Idade Moderna, ou seja, durante o período de crise do sistema feudal.

2 Discorra sobre a viabilidade de colonização da América por parte dos europeus a partir do final do século XV.

AUTOATIVIDADE

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TÓPICO 2

A AMÉRICA ANTES DOS

EUROPEUS

UNIDADE 1

1 INTRODUÇÃOOs países situados atualmente na América Latina e que foram colonizados

por espanhóis revelam suas origens nas civilizações pré-colombianas. Assim, a proposta deste tópico é analisar as origens dos povos situados nesta região no período anterior ao estabelecimento dos mexicas (astecas), em seguida verificar as particularidades dos próprios mexicas, além de fazer uma observação da região durante o período imediatamente anterior à chegada dos primeiros europeus.

Ressaltarmos a importância em se considerar as diversas culturas localizadas neste Continente no período que antecedeu a chegada dos europeus. O conjunto de povos citados neste texto, embora compreendam uma parcela significativa desta diversidade, expressam suas lacunas oportunizadas pela marginalização e exclusão de alguns. Não é novidade, que ao longo dos últimos séculos, o europeu foi considerado superior e civilizado quando comparado com o nativo americano, concepção que vem sendo combatida por algumas correntes historiográficas recentes e que lentamente observam o resultado de suas pesquisas serem publicadas inclusive em novos livros didáticos.

Voltaremos a refletir sobre estas questões no momento da apresentação dos povos nativos que ocupavam o território que mais tarde se tornou colônia portuguesa, ou seja, o Brasil.

2 OS PRIMÓRDIOS DA MESOAMÉRICAEmbora seja corrente, os testemunhos acerca da presença humana em

território ocupado pelo atual México a partir de 20.000 a.C. e até mesmo antes disso, por volta de 35.000 a.C. chegando neste Continente através do estreito de Bering, os fósseis encontrados no sítio arqueológico de Tepexpan, situado a cerca de 40 quilômetros da Cidade do México, datam de no máximo 9.000 a.C.

Durante um longo período habitaram a terra apenas alguns bandos de caçadores e coletores de alimentos. Seriam necessários mais três ou talvez quatro milênios para que o homem da Mesoamérica iniciasse, por volta de 5.000 a.C, o processo que veio desembocar na agricultura. Achados em várias

UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

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cavernas de Sierra de Tamaulipas e em Cozcátlan (Puebla) mostram como pouco a pouco os antigos coletores iniciaram o cultivo da abóbora, da pimenta malagueta, do feijão e do milho. A produção cerâmica teve início muito mais tarde, por volta de 2.300 a.C. Em várias partes do México central e meridional e na América Central, começaram a proliferar aldeias de agricultores e artesãos de cerâmica. Algumas dessas aldeias, situadas em ambientes provavelmente mais adequados, como às margens de um curso d’água ou junto ao mar, experimentaram muito cedo um crescimento populacional. Muitas vezes os habitantes dessas aldeias espalhadas por um território tão vasto diferiam étnica e linguisticamente. Dentre esses, cedo se destacou um grupo em particular. Achados arqueológicos revelam que uma série de mudanças extraordinárias começaram a surgir, a partir de mais ou menos 1.300 a. C., numa região próxima ao Golfo do México, ao sul de Veracruz e no estado vizinho de Tabasco. Essa região era conhecida desde os tempos pré-colombianos pelo nome de “Terra da Borracha”, Olman, terra dos olmecas. (BETHELL, 2004, p. 27).

Acredita-se que foram os olmecas os primeiros povos situados na região da Mesoamérica e construir grandes complexos voltados em sua maioria para práticas religiosas. A existência de grandes praças públicas indica que determinados rituais religiosos eram realizados ao ar livre.

FIGURA 4 – ESCULTURA OLMECA

FONTE: Disponível em: <http://static.infoescola.com/wp-content/uploads/2010/04/olmecas-300x293.jpg>. Acesso em: 27 out. 2010.

TÓPICO 2 | A AMÉRICA ANTES DOS EUROPEUS

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“É possível supor algum tipo de divisão de trabalho. Enquanto muitos indivíduos continuaram a trabalhar na agricultura e em outras atividades de subsistência, outros se especializaram em artes e ofícios diferentes, em garantir a defesa do grupo, em empreendimentos comerciais, no culto aos deuses e no governo, que estava provavelmente nas mãos dos chefes religiosos”. (BETHELL, 2004, p. 28).

Há indícios que através das práticas comerciais e religiosos tenham influenciado várias regiões próximas ao golfo do México e no Planalto Central, regiões ocupadas pelos Maias além do oeste mexicano.

Por volta de 600 a.C., a influência da cultura olmeca começou a se fazer sentir em locais como Tlatilco, Zacatenco e outros, nas proximidades do que séculos mais tarde veio a ser Cidade do México. Processos paralelos desenvolveram-se em outras regiões da Mesoamérica central e meridional. A agricultura se expandiu e diversificou; entre outras culturas, o algodão foi cultivado com sucesso. As aldeias cresceram, dando lugar a centros maiores. (BETHEL, 2004, p. 29).

Esses avanços e sua notória influência na região da Mesoamérica revelam a capacidade desses povos em transpor as dificuldades ocasionadas pelo desconhecimento dos usos da roda, metalurgia e domesticação de animais.

No planalto central desenvolveu-se uma verdadeira “metrópole dos deuses” na qual além das construções destinadas aos eventos religiosos percebe-se o cuidado com o planejamento urbano. Esta cidade que contava com bairros extensos, bem organizados e eficientes sistemas de drenagem chegou a comportar em seu apogeu – entre os séculos V e VI d. C. – uma população de aproximadamente 50 mil habitantes.

Paralelamente ao desenvolvimento de Teotihuacán, surgiu uma civilização em outras sub-regiões da Mesoamérica. Um dos primeiros exemplos foi Monte Albán, em Oaxaca central, cujo surgimento remonta a cerca de 600 d. C. Nesse local, além do centro religioso construído no topo de uma colina, a presença de numerosas estruturas em suas encostas sugere a existência de um núcleo urbano relativamente grande. (BETHELL, 2004, p. 30-31).

Os maias ocuparam as regiões de Guatemala e Belize, estendendo-se pela península de Yucatán e pelas planícies e montanhas dos estados do atual México denominados Tabasco e Chiapas além de porções de El Salvador e Honduras.

UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

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FIGURA 5 – OBSERVATÓRIO ASTRONÔMICO DE CHICHÉN ITZÁ, CIVILIZAÇÃO MAIA

FONTE: Disponível em: <http://static.blogstorage.hipi.com/spaceblog.com.br/t/tu/turma/images/mn/1226679307.jpg>. Acesso em: 27 out. 2010.

Graças à arqueologia, sabemos da existência de mais de 50 centros maias de importância considerável, que foram ocupados durante todo o Período Clássico. Alguns dos mais famosos são Tikal, Uaxactún, Piedras Negras e Ouiriguá na Guatemala; Copán em Honduras; Nakum em Belize; Yaxchilám, Palenque e Bonampak em Chiapas; Dzibilchaltún, Cobá, Labná, Kabah e os primórdios de Uxmal e Chichén-Itzá na península de Yucatán. [...] Na sociedade maia clássica coexistiam dois estratos sociais claramente distintos: o povo comum, ou plebeu (devotados, em sua maioria, à agricultura e à execução de vários serviços pessoais), e o grupo dominante, composto de governantes, sacerdotes e guerreiros de alta posição. (BETHELL, 2004, p. 31).

Especula-se a respeito do desaparecimento dessas civilizações, porém o fato é que este episódio ocorreu entre 650 e 950 d. C.

Os avanços culturais promovidos ao longo do Período Clássico (650 d.C.

– 950 d.C.) foram preservados pelas civilizações posteriores até a chegada dos espanhóis em 1519.

Apesar de conhecerem metais preciosos como ouro e prata não se destacaram na produção de ferramentas. Seus martelos, raspadores e facas, por exemplo, eram feitos de pedra e os instrumentos para trabalhar o couro de ossos. Manipulavam a madeira e posteriormente desenvolveram pertinentes à metalurgia.

TÓPICO 2 | A AMÉRICA ANTES DOS EUROPEUS

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As técnicas agrícolas eram variadas. Além do cultivo sazonal, no qual às vezes empregavam algum tipo de fertilizante, as sociedades da Mesoamérica fizeram uso de sistemas de irrigação, terraceamento e, principalmente na região central, introduziram os famosos chinampas, descritos muitas vezes como ‘jardins flutuantes’. Eram estruturas artificiais de junco, cobertas com terra fértil, fundeadas nos leitos dos lagos por meio de estacas de madeira. Nos chinampas eram plantados salgueiros para segurá-los no lugar. Sobre o excelente solo dos chinampas, os mexicas cultivavam flores e legumes frescos em abundância. (BETHELL, 2004, p. 53-54).

Em ocasião de sua chegada, o europeu demonstrou-se impressionado pela estrutura comercial organizada pelos pochtecas em praças de mercado e comércio.

“Além de comprar e vender, os comerciantes também lidavam com vários tipos de contratos e empréstimos no sentido de viabilizar seus negócios”. (BETHELL, 2004, p. 55).

Outro aspecto relevante da cultura presente em Tenochtitlán era a religião, caracterizada pela diversidade de elementos oriundos de povos e civilizações submetidas e antecessoras processadas arduamente pelos sacerdotes a fim de melhor externar as visões de mundo dos mexicas.

FIGURA 6 – REPRESENTAÇÃO DE TENOCHTITLÁN

FONTE: Disponível em: <http://civilizacoesantigas.pbworks.com/f/tenochtitlan-2.jpg>. Acesso em: 27 out. 2010.

UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

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No período imediatamente anterior à chegada dos espanhóis, percebe-se que Tenochtitlán caracterizava-se como o centro de referências para os povos que margeavam essa região, como ressalta Bethell (2004, p. 59): “às vésperas da invasão espanhola, Tenochtitlán-México, a metrópole asteca, era o centro administrativo de um vasto e complexo conglomerado político e socioeconômico. Vários autores, ao descrever a natureza política dessa entidade, utilizaram termos como império, reino ou confederação de senhoriais e mesmo tribos”.

[...] Não há registros de qualquer tentativa de expandir rumo ao norte no período de Tenochtitlán-México. Foi deixada aos espanhóis (acompanhados pelos tlaxcalanos e pelos mexicas) a conquista e a colonização da vasta extensão de territórios para além da Mesoamérica.Assim, um mosaico de povos, culturas e línguas possuíam a terra em que Hernán Cortés e seus seiscentos homens logo iriam desembarcar. O conquistador cedo ficaria sabendo da existência dos mexicas. Foram feitas referências a eles pelos maias de Yucatán, pelos chontals de Tabasco e pelos totonacas de Veracruz. Por intermédio dos últimos, e particularmente dos tlaxcalanos, Cortés foi informado do poder e da riqueza da metrópole asteca e de seus governantes, em especial de Moteuczoma. Em seus escritos (e nos dos outros ‘cronistas soldados’), podem-se encontrar inúmeras referências aos aspectos mais óbvios da estrutura política, religiosa e socioeconômica que sustentavam a grandeza dos mexicas. (PAZZINATO; SENISE, 2002, p. 72).

Prezado(a) acadêmico(a)! As informações acima pertinentes as diversidades dos povos mesoamericanos, considerando o Período Clássico até a chegada dos espanhóis, nos fornece subsídios teóricos para compreender as estratégias utilizadas por Cortés com o intuito de desestabilizar os astecas. Exercendo seu poder “imperialista” sobre os demais povos desta região, os astecas não eram bem vistos pelos seus vizinhos, e Cortés soube articular essas forças em benefício dos próprios europeus, fazendo com que os próprios nativos se articulassem contra os poderosos mexicas (astecas), facilitando o propósito de dominação daqueles.

TÓPICO 2 | A AMÉRICA ANTES DOS EUROPEUS

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LEITURA COMPLEMENTAR 1

A VISÃO ASTECA DA CONQUISTA

O primeiro traço fundamental da visão asteca da Conquista é o que se poderia descrever como o quadro mágico no qual esta haveria de desenvolver-se. Os astecas afirmam que, alguns anos antes da chegada dos homens de Castela, houve uma série de prodígios e presságios anunciando o que haveria de acontecer. No pensamento do senhor Motecuhzoma, a espiga de fogo que apareceu no céu, o templo que se incendiou por si mesmo, a água que ferveu no meio do lago, a voz de uma mulher que gritava noite adentro, as visões de homens que vinham atropeladamente montados numa espécie de veados, tudo isso parecia avisar que era chegado o momento, anunciado nos códices, do regresso de Quetzalcóatl e dos deuses.

Mas, quando chegaram as primeiras notícias procedentes das margens do Golfo sobre a presença de seres estranhos, chegados em barcas grandes como montanhas, que montavam uma espécie de veados enormes, tinham cães grandes e ferozes e possuíam instrumentos lançadores de fogo, Motecuhzoma e seus conselheiros ficaram em dúvida. De lado, talvez Quetzalcóatl houvesse regressado. Mas, de outro, não tinham certeza disso. No coração de Motecuhzoma nasceu, então, a angústia. Enviou, por isso, mensageiros que suplicaram aos forasteiros para que regressassem ao seu lugar de origem.

A dúvida a respeito da identidade dos homens de Castela subsistiu até o momento em que, já hóspedes dos astecas em Tenochtitlán, perpetraram a matança do templo maior. O povo em geral acreditava que os estrangeiros eram deuses. Mas quando viram seu modo de comportar-se, sua cobiça e sua fúria, forçados por esta realidade mudaram sua maneira de pensar: os estrangeiros não eram deuses, mas popolocas, ou bárbaros, que tinham vindo destruir sua cidade e seu antigo modo de vida.

As lutas posteriores da Conquista, registradas pelos historiadores indígenas, testemunham o heroísmo da defesa. Mas a derrota final, ao ser narrada nos textos astecas, já é depoimento de um trauma profundo. A visão final é dramática e trágica. Pode-se ver isto claramente no seguinte “canto triste” ou icnocuícatl:

Nos caminhos jazem dardos quebrados.Os cabelos estão espalhados.Destelhadas estão as casas,Incandescentes estão seus muros. Vermes abundam por ruas e praças,E as paredes estão manchadas de miolos arrebentados.

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Vermelhas estão as águas, como se alguém as tivesse tingido,E se as bebíamos, era água de salitre.Golpeávamos os muros de abobe em nossa ansiedadeE nos restava por herança uma rede de buracos.Nos escudos esteve nosso resguardo,Mas os escudos não detêm a desolação...

As palavras anteriores encontram novo eco na resposta dos sábios aos doze franciscanos chegados em 1524:

Deixem-nos, pois, morrer,Deixem-nos perecer,Pois nossos deuses já estão mortos!

Muitas outras citações poderiam acumular-se para mostrar o que foi o trauma da Conquista para a alma indígena. (...) a experiência do povo que, após resistir com armas desiguais, viu-se a si mesmo vencido. Não se deve esquecer que os astecas eram seguidores do deus da guerra, Huitzilopochtli; que se consideravam escolhidos do sol e que, até então, sempre creram ter uma missão cósmica e divina de submeter a todos os povos dos quatro cantos do universo. Quem se considera invencível, o povo do sol, o mais poderoso da Mesoamérica, teve de aceitar sua derrota. Mortos os deuses, perdidos o governo e o mando, a fama e a glória, a experiência da Conquista significou algo mais que tragédia: ficou cravada na alma e sua recordação passou a ser um trauma.

OBS.: “Manuscrito Anônimo de Tratelolco” (1528), edição fac-símile de E. Mengin, Copenhague, 1945, fl. 33.

O “Libro de los Coloquios de los Doce” não foi integralmente traduzido para o castelhano. Existe apenas um resumo dele em espanhol, preparado pelo Frei Bernardinho de Sahagún. A tradução dada aqui foi preparada pelo autor do texto.

FONTE: León-Portilla, Miguel. A conquista da América Latina vista pelos índios. Petrópolis: Vozes, 1984. p. 16-18.

3 SOCIEDADES ANDINAS

Há indícios que revelam o interesse e incursões de europeus estabelecidos na mesoamérica à região Andina anos antes da chegada de Pizarro no início do século XVI. Nesta ocasião, este território era descrito como rico, próspero e assim sendo, atendia aos interesses dos invasores espanhóis. Porém, esses relatos, como outros concernentes ao período são fragmentados e não encontram na arqueologia contemporânea o suporte necessário para serem analisados e interpretados em sua totalidade.

TÓPICO 2 | A AMÉRICA ANTES DOS EUROPEUS

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Considerando as dificuldades em compreender determinados aspectos das sociedades Andinas, assim como ocorre, por exemplo, com os astecas, não podemos descartar cartas, relatos e outros documentos produzidos por aqueles que estiveram na região em ocasião do contato desses povos com os europeus, pois foi através desses que construímos o conhecimento atual sobre as populações Andinas.

Em linhas gerais, a antiga civilização inca ocupou os territórios do atual Peru, Bolívia, Chile e Equador.

Cuzco, considerada sagrada, foi fundada durante o século XIII perdurando até o domínio espanhol ocorrido em 1532.

FIGURA 7 – IMPÉRIO ANDINO

AtlanticOcean

Lima

Tumbes

PacificOcean

Amazon R.

Cajamarca

Cuzco

Titicaca Valley

The Inca Empire1463-1532

CaribbeanSca

FONTE: Disponível em: <http://static.infoescola.com/wp-content/uploads/2010/02/mapa-incas-262x300.gif>. Acesso em: 27 out. 2010.

Assim como os faraós, o imperador inca, denominado Sapa era reconhecido como um deus. A organização social apresentava estratificação, ou seja, classes determinadas nas quais os nobres compreendiam governantes, guerreiros e sacerdotes. Os funcionários públicos, como por exemplo, os cobradores de impostos, além de trabalhadores especializados em determinadas funções formavam uma classe intermediária. E por fim, na base da pirâmide social inca, encontramos artesãos e camponeses, submetidos à cobrança de tributos.

UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

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Destacaram-se na arquitetura por construírem edificações a partir de blocos de pedras encaixadas. A cidade de Machu Picchu foi descoberta em 1911 e revelou a concepção urbana presente na sociedade inca.

FIGURA 8 – MACHU PICCHU

FONTE: Disponível em: <http://img.wallpaperstock.net:81/the-lost-city-of-incas-wallpapers_3682_1600.jpg>. Acesso em: 27 out. 2010.

A agricultura, embora enfrentasse condições climáticas desfavoráveis, era extremamente eficiente. Os terraços, construídos nas encostas das montanhas, possibilitavam o cultivo e aproveitamento das águas das chuvas, além disso, construíram canais de irrigação. Dentre as culturas mais comuns destacam-se as de feijão, milho e batata.

Conforme já destacamos, o seu desenvolvimento e domínio de técnicas de exploração e manipulação de metais preciosos foram externados na arte, através da qual se observa a produção de joias, instrumentos e outros objetos decorativos.

A domesticação da lhama possibilitou a sua utilização como meio de transporte, fonte de lã, carne e leite. Cabe ressaltar que as fezes desse animal eram utilizadas para alimentar fogueiras. As alpacas e vicunhas também faziam parte do rol de animais utilizados pelos incas.

A religião, prática recorrente entre eles, destacava o deus Sol como sua principal figura divina. Outros animais como o condor e o jaguar também eram considerados sagrados e consequentemente cultuados.

Desenvolveram um sistema de registro denominado quipo, que era caracterizado por cordões que podiam ou não ser coloridos e nos quais se davam nós para registrar determinadas informações.

TÓPICO 2 | A AMÉRICA ANTES DOS EUROPEUS

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Em ocasião da chegada dos europeus, constataram em primeiro lugar que:

[...] a paisagem não se assemelhava a nada que já houvessem visto antes ou do que tivessem ouvido falar, embora alguns fossem soldados que haviam lutado na Itália, no México, na Guatemala, Flandres ou na África do Norte. Nos Andes, as montanhas eram mais altas, as noites mais frias e os dias mais quentes, os vales mais profundos, os desertos mais secos, as distâncias maiores do que as palavras poderiam descrever.

Em segundo lugar, o país era rico e não apenas em termos do que podia ser levado embora. Havia riqueza na quantidade de pessoas e em suas habilidades, nas maravilhas tecnológicas observáveis na edificação, na metalurgia, na construção de estradas, na irrigação ou nos produtos têxteis (‘depois que os cristãos levaram tudo o que queriam, ainda parecia que nada havia sido tocado’).

Em terceiro lugar, o domínio estava sob o controle de um príncipe havia pouco tempo, cerca de três ou quatro gerações antes de 1532. E desde os primeiros dias após a vitória espanhola em Cajamarca, pessoas mais atentas se perguntavam como havia ruído com tanta facilidade essa autoridade que governava tantos povos distintos por sua geografia particular. (BETHELL, 2004, p. 65-66).

Mesmo enfrentando condições das mais adversas, desde o início do século XVI, observa-se uma maior concentração populacional na região do alto planalto ao redor do lago Titicaca do que em qualquer outra lugar da região andina.

Essas regiões, que aguçam a curiosidade de estudiosos comprometidos com a compreensão de suas origens e por motivos pelos quais esses povos escolheram essa área para se estabeleceram, formam pradarias tropicais, situadas na altitude e de clima frio, são cultiváveis há muito tempo, “talvez antes mesmo que todas as árvores fossem cortadas. Durante milênios, a maioria dos povos andinos viveram nesse local. Não apenas os incas, porém as mais antigas estruturas políticas (Tihuanaco, Huari) surgiram na puna – savana do Peru”. (BETHELL, 2004, p. 67).

Embora tenha despertado o interesse de agrônomos recentemente, a agricultura andina é caracterizada por culturas resistentes às condições locais além da adaptação de variedades europeias e africanas como a cevada, cana-de-açúcar, uva e banana. É difícil precisar quantas dessas variedades eram cultivadas no início do século XVI.

Quando se estudam os muitos tubérculos (dos quais a batata é apenas o mais famoso) ou o tarwi (um tremoço rico em gorduras) ou a kinuwa (um cereal cultivado em grandes altitudes e rico em proteínas) ou a folha de coca que sacia a sede, percebe-se o quão autóctone e quão antigo era o complexo agrícola andino. (BETHELL, 2004, p. 67).

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O cultivo do milho e da batata-doce eram verificados em todo o continente, embora no Sul nenhuma delas fosse produzida em quantidades expressivas. Além das diversidades e adversidades geográficas, a agricultura andina teve que enfrentar ainda as drásticas variações climáticas ocorridas num intervalo de 24 horas.

No âmbito de tais adaptações e transformações do ambiente, as dimensões das comunidades políticas andinas variavam de algumas centenas de famílias a 25 ou 30 mil, com totais populacionais que chegavam talvez a 150 mil; quando reunidas num Estado como a Tahuantinsuyo dos incas, seu total podia alcançar cinco milhões ou mais. Aumentos nas dimensões da comunidade política causavam mudanças na localização e nas funções das colônias espalhadas. No vale de Huallaga, no que hoje é o Peru central, as primeiras investigações europeias identificaram vários grupos étnicos, o maior dos quais, o Chupaycho, alegava ter quatro mil famílias no sistema inca de contagem decimal. (BETHELL, 2004, p. 68).

TÓPICO 2 | A AMÉRICA ANTES DOS EUROPEUS

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LEITURA COMPLEMENTAR 2

INCAS: QUEM MANDA, QUEM OBEDECE

O caráter despótico da dominação está bastante claro nas seguintes palavras que o inca Atahualpa dirigiu ao conquistador Pizarro: “No meu reino, nenhum pássaro voa nem folha alguma se move, se esta não for minha vontade”.

Nos postos mais elevados da hierarquia social e política, encontramos uma autocracia teocrática hereditária. O Inca, soberano supremo, é ao mesmo tempo uma divindade e transmite o poder a seus filhos. Na presença dele humilham-se até os mais altos e nobres dignatários, obrigados a apresentarem-se descalços, curvados e carregando um peso nas costas. Os direitos de vida e morte sobre seus súditos são absolutos, qualquer que seja o nível social deles.

O mito dessa divindade foi habilmente construído e melhor ainda difundido entre o povo. Historiadores oficiais, escolhidos pelo Inca, escreviam duas histórias diferentes: uma para a nobreza e a hierarquia, outra para o povo. Esta última, cuidadosamente elaborada, excluía tudo o que pudesse diminuir o respeito e a fidelidade ao soberano. Contadores de história e cantadores populares (hoje seriam enquadrados na categoria de meios de comunicação de massa) eram instruídos convenientemente sobre os temas de suas histórias e canções e sobre o tratamento que devia ser dado a elas. A derrota do Inca Urco frente aos chancas foi totalmente ignorada pela história oficial. Assim, religião, mitos, lendas e história foram deliberadamente fabricadas por especialistas, visando a divinizar o Inca, fazendo que sua vontade – e seus excessos – aparecesse como a vontade de um deus.

Abaixo do soberano vinha uma complexa burocracia administrativa e militar que chegou a constituir, por seu caráter hereditário, de fato, uma casta. Os descendentes dessa casta recebiam uma educação adequada para o mando e a administração. Era uma educação complexa e bastante rigorosa, que compreendia o estudo intensivo da versão oficial da história, tal qual havia sido escrita para esses nobres. Dado o caráter guerreiro dos incas, o preparo físico para a milícia era privilegiado; era o que hoje chamaríamos de ciência militar: a arte da defesa e do ataque, das fortificações e cercos, a espionagem e a diplomacia, a correta disposição e utilização dos soldados etc.

Os escolhidos para mandar adoravam deuses que não eram os do povo ou povos dominados. Estes conservavam a liberdade de adorar suas antigas e originais divindades, ainda que tivessem de aceitar como divindade suprema o Sol, o deus dos que mandavam, e o Inca, representante do Sol na terra. Havia, pois, uma religião dos dominadores e múltiplas religiões dos dominados. Existem, ademais, boas razões para crer que além do deus Sol, o Inca e seus nobres adoravam uma divindade mais transcendental e definitiva chamada Viracocha ou Pachacamac, senhor supremo da criação e criador do próprio Sol.

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A faustosa corte do Inca, com seus milhares de servidores, e a hierarquia civil e religiosa viviam dos tributos que milhões de seres humanos de todo o império entregavam ao Inca. Este recompensava seus dignatários de acordo com méritos militares, religiosos e administrativos, sendo que as recompensas consistiam em terras, rebanho de lhama, objetos de arte, mulheres, roupas de luxo e o direito de viajar em liteiras conduzidas por carregadores, exibir certos ornamentos e ocupar lugares privilegiados nas grandes cerimônias. A propriedade privada dos dignatários podia ser transmitida por herança não a herdeiros determinados pelo proprietário antes de sua morte, mas todo conjunto de seus descendentes. Considerava-se, assim, que os méritos acumulados antes da morte deveriam ser socializados. Dessa maneira, todos os parentes interessavam-se para que, enquanto o dignatário fosse vivo, servisse ao Inca da melhor forma possível, porque dele dependiam a riqueza e as honras de todos.

O clero, da mesma maneira que a burocracia civil estava diretamente subordinado ao Inca. Mais ainda, era costume que o supremo sacerdote fosse um irmão ou primo do próprio soberano, designado em assembleia de notáveis. Essa espécie de papa era chamada Villac Umu e, logo abaixo, na hierarquia, havia dez prelados que poderíamos comparar ao que se tem hoje por bispos. O Villac Umu designava essas dez personagens e essas, por sua vez, escolhiam o clero para os escalões inferiores. Faziam parte do aparato sacerdotal: feiticeiros, oráculos, adivinhos, sacrificadores, intérpretes de sonhos, curandeiros etc. Era uma imensa e intrincada rede que assegurava o culto ao Sol e a seu representante vivo, o Inca.

Os dominados

O camponês comum, aquele que no império era chamado Llacta Runa, tinha obrigações, poucos direitos e muitos deveres. Abaixo dele, existia uma categoria social chamada de Yanaconas, formada por membros de uma sublevação da cidade de Yanacu, quando foram derrotadas pelas tropas do Inca e condenados à servidão ou à escravidão que se tornava extensivos a seus descendentes.

De certa maneira, poderíamos dizer que viviam fora dos quadros sociais, que não dependiam, como os Llacta Runa, dos funcionários ou clérigos e que eram simplesmente propriedade de determinadas pessoas. Não eram escravos ou servidores para a produção, mas servidores domésticos. Não durou muito tempo e muitos deixaram essa condição, passando a fazer parte das famílias às quais serviam. Excepcionalmente, alguns alcançavam méritos ou mostravam condições que os elevaram a altas posições. Não faziam parte dos censos, talvez por serem considerados menos humanos, no entanto, ao que tudo indica, seu destino foi menos árduo que o dos escravos nos impérios espanhol e português.

FONTE: Adaptado de: POMER, Léon. Os incas. In: História da América hispano-indígena. São Paulo: Global, 1983. p. 32-34.

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4 OS NATIVOS DO BRASIL EM 1500Na época da chegada dos primeiros portugueses ao território, no qual hoje

se encontra o Brasil, depararam-se com grupos humanos organizados socialmente, porém com hábitos considerados por aqueles como primitivos. Interessa-nos aqui revelar alguns aspectos das sociedades nativas que interagiram com português e salientar a visão preconceituosa perpetuada ao longo dos séculos desde o ocorrido. Esses nativos, tratados como uma massa homogênea através da qual suas diversidades culturais são ignoradas não dominavam nenhuma técnica de escrita e assim sendo, os relatos que nos foram transmitidos são originados de viajantes europeus que estiveram presentes nas primeiras expedições ao Novo Mundo.

Antes de examinar com maiores detalhes o que se conhece sobre os índios brasileiros às vésperas da invasão europeia, é importante observar alguns problemas históricos. Naturalmente, os índios desconheciam a escrita e qualquer sistema de numeração. Suas lendas e tradições orais, apesar de ricas em criatividade, são quase inúteis como testemunhos históricos. Eram artesãos de grande habilidade, mas construíam, decoravam e pintavam quase que somente sobre materiais perecíveis. (BETHELL, 2004, p. 104).

Considerando as palavras de Leslie Bethell expostas acima, cremos ser relevante uma reflexão sobre as diversidades concernentes a cada segmento ou grupo nativo estabelecido no atual território brasileiro, embora o mesmo possa ser feito acerca dos demais povos nativos da América. Por exemplo, os índios carijós, apresentam características peculiares como costumes, tradições e rituais que os diferenciam de todas as outras nações indígenas.

Evidentemente, há características semelhantes e até mesmo comuns entre essas nações, porém devemos atentar para os conceitos generalistas.

Acredita-se que o povoamento da América do Sul teve início por volta de 20.000 a. C., com os vestígios de presença humana no Brasil variando de 16.000 a.C. a 12.800 a.C aproximadamente. Os sítios arqueológicos espalhados pelo Brasil como os de Ibicuí (RS) e Lagoa Santa (MG) nos fornecem informações a respeito da propagação desses grupos humanos pelo território brasileiro a partir de 9.000 a. C.

Pesquisas recentes indicam que o surgimento dos dois troncos indígenas Macro-Tupi e Macro-Jê tenha ocorrido justamente durante esse processo de dispersão dessas populações primitivas a partir de 9.000 a. C. Entre os séculos VIII e IX as nações Tupi e Guarani originaram-se do tronco Macro-Tupi, transformando-se posteriormente nos dois grupos indígenas que mais se destacaram nos primeiros séculos após a colonização do Brasil.

Em ocasião da chegada dos primeiros colonizadores portugueses ao Brasil, estima-se que a população indígena era composta de aproximadamente cinco milhões de pessoas. As duas nações originárias do tronco Macro-Tupi, os tupis e os

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guaranis estavam dispostos no território nacional da seguinte forma: Os guaranis localizavam-se basicamente no litoral Sul da colônia e a região interiorana próxima à bacia dos rios Paraguai e Paraná. Por sua vez, os tupis, estabeleceram-se na costa entre o Ceará e a Cananeia, atual estado de São Paulo. As demais tribos dispersas pelo território da então colônia eram denominadas tapuias, assim conhecidos pelos tupis por serem aqueles que não falam a língua tupi.

Os tupi-guaranis estavam estabelecidos ao longo da maior parte da costa atlântica. É possível que tenham provindo dos contrafortes dos Andes ou do planalto do médio Paraguai e Paraná e tenham seguido um processo de gradativa invasão da costa brasileira rumo ao norte. Outras tribos de fala tupi ocupavam a margem sul do rio Amazonas e se deslocaram pelos afluentes sul até perto de sua foz e rio acima ao longo do Amazonas até quase a atual fronteira com o Peru. Os jês ocupavam o vasto e relativamente aberto planalto central do Brasil. Descendem talvez dos habitantes originais do Brasil – os fósseis humanos mais antigos, encontrados em Lagoa Santa, Minas Gerais, que datam de mais de dez mil anos, correspondem fisicamente aos tipos jês atuais. Essas tribos centrais de fala jê se distribuem por amplo arco de terras do Maranhão ao alto Paraguai. Outras tribos de fala jê viviam nas montanhas do interior a partir da costa sudeste e em alguns locais desceram até o próprio oceano. É possível que tenham sido remanescentes de tribos deslocadas pela invasão tupi, embora mostrassem pouca afinidade com o mar. (BETHELL, 2004, p. 101).

Embora separadas geograficamente, as nações tupi e guarani apresentavam semelhanças quando comparadas através das perspectivas culturais e linguísticas. Os laços de parentesco mantinham os grupos unidos.

4.1 O COTIDIANO E SOBREVIVÊNCIA DOS NATIVOS

Embora praticassem a agricultura, esta não foi suficiente para fixar os nativos a um mesmo território. Habitaram áreas próximas aos rios, ou seja, seus vales, conhecidos como regiões férteis. Estima-se que a permanência desses grupos em uma mesma região não excedia quatro anos. Assim, podem ser classificados como semissedentários, pois após o esgotamento dos recursos naturais migravam para outras regiões. Além da agricultura, a caça, o extrativismo e a pesca compreendiam as atividades praticadas com o intuito de sobreviverem.

Era comum encontrar aldeias nas quais se concentravam cerca de 700 habitantes. Os chefes, pessoas que gozavam de certo prestígio entre os membros do grupo, determinavam os locais nos quais seriam instaladas as aldeias, considerando para tal os próprios recursos naturais, necessários ao desenvolvimento e sustentabilidade do grupo além de condições de segurança, fundamental para a proteção da aldeia.

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As aldeias eram constituídas por cabanas, ou ocas, moradias coletivas que podiam apresentar formas e dimensões diversas. Cada oca podia abrir algo em torno de 85 a 150 moradores. Cipós trançando (fixando) as madeiras que eram utilizadas na construção das paredes além do sapé, utilizado inclusive nas coberturas.

Os nativos desenvolveram eficientes meios de integração entre as mais diversas aldeias. Havia trilhas que conectavam regiões litorâneas ao interior. Neste sentido, podemos citar a trilha que interligava a região onde atualmente se encontra a cidade de Assunção, no Paraguai até o planalto de Piratininga, atual São Paulo.

Pesquisas arqueológicas revelaram o contato entre povos tupis-guaranis e incas após terem sido encontrados objetos produzidos nos Andes em sítios arqueológicos no Sul e Sudeste do Brasil. Este fato corrobora a organização social e cultural, eficácia nas vias de comunicação e a produção manufatureira além do representar as perspectivas comerciais de ambas.

Manipulavam fibras vegetais produzindo redes, cestos, cordas e uma gama extensa de utensílios. A alimentação era baseada no consumo de farinha de mandioca, peixes e carnes, além de dominarem técnicas de fabricação de bebidas, inclusive alcoólicas.

Com o barro, moldavam objetos utilizados para armazenar alimentos como potes e vasos.

Percebe-se entre os nativos que ocupavam o território hoje pertencente ao Brasil uma rígida divisão sexual do trabalho. Neste sentido, tarefas consideradas perigosas como a caça e a guerra além daquelas em que um maior esforço físico fazia-se necessário, eram designadas aos homens. Por outro lado, os típicos trabalhos domésticos de preparar os alimentos, tecer, plantar, colher e zelar pelas crianças eram atribuídos às mulheres.

Neste sentido, Leslie Bethell corrobora quando expõe que:

sendo o pai responsável pela caça e pesca, pelo combate e, se necessário, pela limpeza da floresta para o plantio. As mulheres plantavam e colhiam mandioca e outras plantas cultivadas por esses povos do litoral – especialmente amendoim, algodão, algumas frutas e castanhas. As mulheres também preparavam os alimentos e cuidavam das crianças. Ambos os sexos confeccionavam seus próprios pertences pessoais: cestos, redes, arcos e flechas, ornamentos de penas e de contas, ferramentas simples, utensílios e armadilhas, canos e, naturalmente, as próprias cabanas de sapé. (BETHELL, 2004, p. 107).

UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

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Outro aspecto interessante estava atrelado à configuração das uniões conjugais. Estas estabeleciam alianças entre as aldeias além de criar laços de parentesco entre os grupos.

As relações de poder podem ser observadas através da manutenção de um sistema em que o líder exercia suas prerrogativas sobre as famílias e os chefes sobre as aldeias. Percebemos uma estrutura hierárquica atrelado ao poder nas sociais nativas residentes na América do Sul, especialmente no atual Brasil.

Os xamãs ou pajés eram líderes religiosos e exerciam forte influência sobre

a vida da comunidade. Os rituais religiosos estavam relacionados às atividades consideradas elementares para o sucesso e desenvolvimento das tribos. Eram comuns rituais e festejos em agradecimento à colheita expressiva ou ao sucesso em uma guerra.

Quanto à organização social, variou consideravelmente de tribo para tribo. Entre os tupinambás, as moças tinham de passar por provas e segregação na puberdade, após o que lhes era permitida uma considerável liberdade sexual. Um rapaz, antes de ser considerado suficientemente valente para o casamento, tinha de provar-se em combate ou na matança de prisioneiros. Tinha de servir a seu futuro sogro e garantir-lhe o sustento. Depois de casados, ambos os parceiros permaneciam fiéis um ao outro. Em geral, o casamento era matrilocal, mudando-se o marido para a casa da mãe da esposa, a menos que fosse suficientemente poderoso para estabelecer uma família própria. Qualquer excesso de mulheres era resolvido com a poligamia por parte dos chefes e guerreiros famosos, e as esposas aceitavam-no prontamente, em parte pelo orgulho de estar associada a um homem importante e em parte pela satisfação de partilhar o trabalho de cuidá-lo. Os homens se casavam por volta dos 25 anos de idade e aos quarenta faziam parte do conselho dos mais velhos. Esse conselho se reunia regularmente para decidir sobre as atividades da tribo. Cada maloca, com seu complemento de famílias muitas vezes inter-relacionadas, eram governados por um chefe, da mesma forma que a própria tribo. Os chefes conquistavam sua posição por bravura em combate, pela prosperidade decorrente da posse de muitos parentes ou filhos, por poderes mágicos ou dons oratórios. Mas possuíam pouco poder na sociedade tribal igualitária: escreveu Michel de Montaigne, um filósofo do século XVI, ter ouvido de um chefe que governava várias aldeias que seu único privilégio era conduzir seus homens à batalha. (BETHELL, 2004, p. 111-112).

A religiosidade dos tupis-guaranis era balizada por seres transcendentes, considerados supremos. Havia aqueles vinculados à origem do universo, considerados entidades criadoras e Tupã, associado ao caos e à destruição. A crença na vida após a morte também era recorrente entre os nativos e a partir desta, acreditavam que o espírito do morto se encontraria com seus ancestrais.

TÓPICO 2 | A AMÉRICA ANTES DOS EUROPEUS

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Evidentemente que por se apresentarem em menor número num período inicial, os europeus trataram de conquistar a confiança dos grupos nativos com os quais mantiveram contato, pelo menos aparentemente, não demonstraram intenção de agredir e tomar os espaços ocupados pelos nativos.

Essa relação amistosa favoreceu as trocas comerciais oportunizando dentre outras atividades a extração da famosa madeira denominada pau-brasil. O período inicial em que a passividade se fez presente perdurou pelas três primeiras décadas, a partir da chegada dos colonizadores que procuraram se integrar com os nativos.

Superada essa fase e atendendo aos interesses da Coroa Portuguesa se fez necessária a adoção de práticas mais agressivas em relação à interferência ao território recém encontrado. Assim, os nativos passaram a revelar seu viés bélico, pouco amistoso, contrário àquilo que havia sido idealizado e divulgado na própria Europa nas três primeiras décadas. Estes resistiram à ocupação do seu espaço, defendendo o seu território com as armas e técnicas vinculantes entre as culturas nativas.

Com a necessidade de transformar o Novo Mundo em polo produtor de produtos agrícolas apreciados e valiosos na Europa, o índio passou a ser considerado um entrave nesta tarefa de substituir a prática de extração do pau-brasil pela agricultura. Evidentemente que para isso era necessária ocupar literalmente os espaços antes conferidos apenas aos nativos, derrubando a madeira e impondo os métodos europeus de ocupação e colonização. Ocupar os espaços significou expulsar os nativos e nesse cenário, o já descrito confronto entre essas duas culturas foi inevitável.

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RESUMO DO TÓPICO 2

Neste tópico, você viu:

● A caracterização das sociedades mesoamericanas no período anterior à chegada dos primeiros conquistadores europeus. As origens e particularidades dos mexicas, seu império, riqueza e desenvolvimento social.

● As estratégias utilizadas pelos espanhóis com o intuito de dominar os povos residentes na região de Tenochtitlán.

● As peculiaridades dos povos que habitavam as regiões andinas. Sua organização social e econômica. Relações com os europeus.

● A diferenciação entre os povos nativos que habitavam e habitam o território do atual Brasil. Sua organização social e modo de interação com os recursos naturais. Cotidiano e práticas que visavam sua sustentabilidade.

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1 De acordo com Bethell (2004), como era vista Tenochtitlán tanto pelo conquistador europeu quanto pelos povos que se localizavam às margens de seu território?

2 Descreva algumas características vinculadas ao cotidiano dos nativos estabelecidos no Brasil em ocasião da chegada dos primeiros conquistadores europeus.

AUTOATIVIDADE

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TÓPICO 3

AMÉRICA PORTUGUESA

UNIDADE 1

1 INTRODUÇÃOPrezado(a) acadêmico(a)! Nos dois primeiros tópicos, analisamos

respectivamente as conjecturas políticas, sociais e econômicas na Europa que propiciaram à busca por novos mercados consumidores e fornecedores e as características dos povos nativos do Continente batizado posteriormente de América.

Neste tópico, apresentaremos em linhas gerais as formas pelas quais os europeus estabeleceram um contato inicial com os nativos brasileiros, além das estratégias de interação, integração e dominação.

Esta metodologia justifica-se pela existência e oferta da disciplina e seu respectivo Caderno de Estudos de História do Brasil Colonial, disciplina em que os conteúdos propostos neste tópico convergem para os objetivos da referida disciplina.

2 AS PRIMEIRAS IMPRESSÕESPero Vaz de Caminha, ao concluir sua célebre carta em 1º de maio de 1500,

expressava sua satisfação em relação às terras recém encontradas. Considerada por Capistrano de Abreu como “a certidão de nascimento do Brasil”, tornou-se pública em 1790.

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UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

FIGURA 9 – CHEGADA AO BRASIL DA ESQUADRA COMANDADA POR PEDRO ÁLVARES CABRAL

FONTE: Disponível em: <http://www.cebezerrademenezes.com/pt/images/stories/Descobrimento%20do%20Brasil.jpg>. Acesso em: 27 out. 2010.

Esta narrativa, além de minúcias acerca da viagem, propõe a exaltar as maravilhas encontradas nesta terra exótica. Caminha escreve ao seu rei informando-o que esta terra “em tal maneira é graciosa que querendo-a aproveitar dar-se-á nela tudo”.

Ao tomar conhecimento da carta, D. Manoel referiu-se aos povos nativos como desnudos, inocentes e pacíficos além de aparentemente ter minimizado a “descoberta” em detrimento do sucesso das viagens às Índias, inicialmente muito mais lucrativas.

Esse aparente desmerecimento pode ser analisado através da perspectiva econômica do reino de Portugal que, nesta ocasião, encontrava-se determinado em desbravar rotas lucrativas à Coroa. Assim, uma terra de pessoas desnudas, que ocupavam o interior da floresta e sem traços de civilidade não se mostrava interessante aos propósitos em questão.

TÓPICO 3 | AMÉRICA PORTUGUESA

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3 A CARTA DE PERO VAZ DE CAMINHAPrezado(a) acadêmico(a)! Em seguida disponibilizamos alguns recortes

concernentes à carta de Pero Vaz de Caminha na qual relata a Sua Alteza às peculiaridades da terra achada, seu povo e a possibilidade de convertê-lo facilmente ao catolicismo.

Senhor,posto que o Capitão-mor desta Vossa frota, e assim os outros capitães

escrevam a Vossa Alteza a notícia do achamento desta Vossa terra nova, que se agora nesta navegação achou, não deixarei de também dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que – para o bem contar e falar – o saiba pior que todos fazer!

Todavia tome Vossa Alteza minha ignorância por boa vontade, a qual bem certo creia que, para aformosentar nem afear, aqui não há de pôr mais do que aquilo que vi e me pareceu.

[...]

E assim seguimos nosso caminho, por este mar de longo, até que terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de abril, topamos alguns sinais de terra, estando da dita Ilha - segundo os pilotos diziam, obra de 660 ou 670 léguas - os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, e assim mesmo outras a que dão o nome de rabo-de-asno. E quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves a que chamam furabuchos.

Neste mesmo dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! A saber, primeiramente de um grande monte, muito alto e redondo; e de outras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos; ao qual monte alto o capitão pôs o nome de O Monte Pascoal e à terra A Terra de Vera Cruz!

[...]

E dali avistamos homens que andavam pela praia, uns sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos que chegaram primeiro.

Então lançamos fora os batéis e esquifes. E logo vieram todos os capitães das naus a esta nau do Capitão-mor. E ali falaram. E o Capitão mandou em terra a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou a ir-se para lá, acudiram pela praia homens aos dois e aos três, de maneira que, quando o batel chegou à boca do rio, já lá estavam dezoito ou vinte.

Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos, e suas setas. Vinham todos rijamente em direção ao batel. E Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os depuseram. Mas não pôde deles haver fala nem entendimento que aproveitasse pôr o mar quebrar

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UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

na costa. Somente arremessou-lhe um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça, e um sombreiro preto. E um deles lhe arremessou um sombreiro de penas de ave, compridas, com uma copazinha de penas vermelhas e pardas, como de papagaio. E outro lhe deu um ramal grande de continhas brancas, miúdas que querem parecer de aljôfar, as quais peças creio que o Capitão manda a Vossa Alteza. E com isto se volveu às naus por ser tarde e não poder haver deles mais fala, por causa do mar.

[...]

A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixar de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso são de grande inocência. Ambos traziam o beiço de baixo furado e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma mão travessa, e da grossura de um fuso de algodão, agudo na ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes é feita a modo de roque de xadrez. E trazem-no ali encaixado de sorte que não os magoa, nem lhes põe estorvo no falar, nem no comer e beber.

Os cabelos deles são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta antes do que sobre-pente, de boa grandeza, rapados, todavia por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte, na parte detrás, uma espécie de cabeleira, de penas de ave amarela, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena por pena, com uma confeição branda como, de maneira tal que a cabeleira era mui redonda e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a levantar.

O Capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, aos pés uma alcatifa por estrado; e bem vestido, com um colar de ouro, mui grande, ao pescoço. E Sancho de Tovar, e Simão de Miranda, e Nicolau Coelho, e Aires Corrêa, e nós outros que aqui na nau com ele íamos, sentados no chão, nessa alcatifa. Acenderam-se tochas. E eles entraram. Mas nem sinal de cortesia fizeram, nem de falar ao Capitão; nem a alguém. Todavia um deles fitou o colar do Capitão, e começou a fazer acenos com a mão em direção à terra, e depois para o colar, como se quisesse dizer-nos que havia ouro na terra. E também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal, como se lá também houvesse prata!

Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como se os houvesse ali.

Mostraram-lhes um carneiro; não fizeram caso dele.

TÓPICO 3 | AMÉRICA PORTUGUESA

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Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram medo dela, e não lhe queriam pôr a mão. Depois lhe pegaram, mas como espantados.

Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel, figos passados. Não quiseram comer daquilo quase nada; e se provavam alguma coisa, logo a lançavam fora.

Trouxeram-lhes vinho em uma taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram dele nada, nem quiseram mais.

Trouxeram-lhes água em uma albarrada, provaram cada um o seu bochecho, mas não beberam; apenas lavaram as bocas e lançaram-na fora.

[...]

Ao domingo de Páscoa pela manhã, determinou o Capitão ir ouvir missa e sermão naquele ilhéu. E mandou a todos os capitães que se arranjassem nos batéis e fossem com ele. E assim foi feito. Mandou armar um pavilhão naquele ilhéu, e dentro levantar um altar mui bem arranjado. E ali com todos nós outro fez dizer missa, a qual disse o padre frei Henrique, em voz entoada, e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes que todos assistiram, a qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção.

Ali estava com o Capitão a bandeira de Cristo, com que saíra de Belém, a qual esteve sempre bem alta, da parte do Evangelho.

Acabada a missa, desvestiu-se o padre e subiu a uma cadeira alta; e nós todos lançados por essa areia. E pregou uma solene e proveitosa pregação, da história evangélica; e no fim tratou da nossa vida, e do achamento desta terra, referindo-se à Cruz, sob cuja obediência viemos, que veio muito a propósito, e fez muita devoção.

Enquanto assistimos à missa e ao sermão, estaria na praia outra tanta gente, pouco mais ou menos, como a de ontem, com seus arcos e setas, e andava folgando. E olhando-nos, sentaram. E depois de acabada a missa, quando nós sentados atendíamos a pregação, levantaram-se muitos deles e tangeram corno ou buzina e começaram a saltar e dançar um pedaço. E alguns deles se metiam em almadias – duas ou três que lá tinham – as quais não são feitas como as que eu vi; apenas são três traves, atadas juntas. E ali se metiam quatro ou cinco, ou esses que queriam, não se afastando quase nada da terra, só até onde podiam tomar pé.

[...]

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UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

E bem creio que, se Vossa Alteza aqui mandar quem entre eles mais devagar ande, que todos serão tornados e convertidos ao desejo de Vossa Alteza. E por isso, se alguém vier, não deixe logo de vir clérigo para os batizar; porque já então terão mais conhecimentos de nossa fé, pelos dois degredados que aqui entre eles ficam, os quais hoje também comungaram.

Entre todos estes que hoje vieram não veio mais que uma mulher, moça, a qual esteve sempre à missa, à qual deram um pano com que se cobrisse; e puseram-lho em volta dela. Todavia, ao sentar-se, não se lembrava de o estender muito para se cobrir. Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal que a de Adão não seria maior -- com respeito ao pudor.

Ora veja Vossa Alteza quem em tal inocência vive se se convertera, ou não, se lhe ensinarem o que pertence à sua salvação.

Acabado isto, fomos perante eles beijar a cruz. E despedimo-nos e fomos comer.

Creio, Senhor, que, com estes dois degredados que aqui ficam, ficarão mais dois grumetes, que esta noite se saíram em terra, desta nau, no esquife, fugidos, os quais não vieram mais. E cremos que ficarão aqui porque de manhã, prazendo a Deus fazemos nossa partida daqui.

Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul vimos, até à outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas de costa. Traz ao longo do mar em algumas partes grandes barreiras, umas vermelhas, e outras brancas; e a terra de cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta é toda praia... muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande; porque a estender olhos, não podíamos ver senão terra e arvoredos – terra que nos parecia muito extensa.

Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares frescos e temperados como os de Entre-Douro-e-Minho, porque neste tempo d’agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem!

Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. E que não houvesse mais do que ter Vossa Alteza aqui esta pousada para essa navegação de Calicute bastava. Quanto mais, disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa fé!

TÓPICO 3 | AMÉRICA PORTUGUESA

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E desta maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta Vossa terra vi. E se a um pouco alonguei, Ela me perdoe. Porque o desejo que tinha de Vos tudo dizer, mo fez pôr assim pelo miúdo.

E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro – o que d’Ela receberei em muita mercê.

Beijo as mãos de Vossa Alteza.

Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500.

Pero Vaz de Caminha.

FONTE: Disponível em: <http://educaterra.terra.com.br/voltaire/500br/carta_caminha.htm>. Acesso em: 27 out. 2010.

4 OS MÉTODOS UTILIZADOS PARA A CONQUISTAEm 1501, uma expedição enviada por D. Manuel, na qual Américo

Vespúcio fazia parte, percorreu o litoral mapeando os acidentes geográficos. Nesta ocasião, a tripulação capitaneada por D. Nuno Manuel não encontrou indícios dos almejados metais preciosos tampouco manufaturas produzidas na região que pudessem gerar lucros expressivos aos europeus.

Corroborando os anseios econômicos portugueses em fins do século XV e início do século XVI, a terra de Vera Cruz não despertou maiores interesses por parte da coroa. Esta situação se justifica pela aparente inexistência de mercadorias e metais preciosos na região.

O governo português limitou-se a arrendar as terras a um grupo liderado por Fernão de Noronha que por sua vez comprometeram-se a guardar o litoral, construir uma fortificação na região de Cabo Frio e fornecer 20.000 quintais em pau-brasil.

Posteriormente, o rei D. João III promoveu a organização e doação de capitanias hereditárias, sistema adotado a partir de 1534 através do qual foi concedido a doze fidalgos quinze lotes que mediam de trinta a cem léguas. Através desta prática, esperava-se que os donatários promovessem o desenvolvimento das regiões, gerando lucros à coroa e guardando o território sem custos ao governo português. Porém apenas as capitanias de Pernambuco e São Vicente conseguiram alcançar os objetivos mínimos propostos, deflagrando a descontinuidade do sistema.

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UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

FIGURA 10 – CAPITANIAS HEREDITÁRIAS

FONTE: Disponível em: <http://static.infoescola.com/wp-content/uploads/2009/08/capitanias-hereditarias.jpg>. Acesso em: 27 out. 2010.

Em decorrência da ineficácia do modelo de capitanias hereditárias, D. João III nomeou D. Tomé de Souza o primeiro governador-geral do atual Brasil em 1548. Preocupado com as constantes “visitas” de corsários provenientes de outras nações, o rei português procurava através de esta nomeação ocupar e proteger suas posses no Novo Mundo.

TÓPICO 3 | AMÉRICA PORTUGUESA

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Dentre as várias incumbências atribuídas a Tomé de Souza, destaca-se a fundação e organização da cidade de Salvador, criação de engenhos de cana-de-açúcar, povoação, construção de fortes, fomentar as práticas religiosas (católicas), gerir o comércio do pau-brasil e resguardar a costa da invasão de estrangeiros.

O fomento de práticas religiosas compreendia a catequização dos nativos

e amparar espiritualmente aqueles que já haviam se estabelecido na colônia. Juntamente com outros integrantes da expedição de Tomé de Souza, o padre Manuel da Nóbrega aportou na região do atual Estado da Bahia em 29 de março de 1549 com a missão de chefiar os trabalhos dos demais padres jesuítas.

Após um período inicial de interação amistosa entre europeus e nativos e com a implantação da cultura da cana-de-açúcar, estes começam a ser vistos como mão de obra, inaugurando assim uma nova etapa conflituosa entre ambos.

Os levantes foram inevitáveis, porém em virtude da superioridade militar europeia, tais rebeliões foram facilmente sufocadas. Além do poder bélico, outro fator contribui para a dizimação das populações nativas: As doenças trazidas pelo homem branco às quais os nativos não dispunham de anticorpos. Uma gripe, por exemplo, era o suficiente para devastar uma quantidade expressiva de nativos em poucos dias.

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RESUMO DO TÓPICO 3

Neste tópico, você viu:

● A decepção inicial dos conquistadores portugueses ocasionada pela aparente inexistência de metais preciosos ou qualquer outra manufatura produzida pelos nativos que pudessem ser lucrativas.

● As impressões publicadas por Pero Vaz de Caminha em sua célebre carta, na qual comunica à corte acerca das características na costa e hábitos pertinentes aos nativos.

● Os métodos pelos quais os conquistadores portugueses se utilizaram para povoar, colonizar e mais tarde, explorar as terras situadas no Novo Mundo. Da concessão de direitos a Fernão de Noronha, passando pela implantação das capitanias hereditárias até a fundação da cidade de Salvador, além da criação dos primeiros engenhos de cana-de-açúcar e chegada dos jesuítas.

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1 Discorra sobre os métodos de ocupação da Terra de Vera Cruz empregado pelos portugueses nas cinco primeiras décadas de presença europeia.

AUTOATIVIDADE

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TÓPICO 4

AMÉRICA ESPANHOLA

UNIDADE 1

1 INTRODUÇÃOPrezado(a) acadêmico(a)! Neste tópico, objetivamos analisar os motivos

que ocasionaram o envio das primeiras frotas espanholas com destino às terras localizadas na região da mesoamérica e mais tarde na região andina.

Observar a organização política e as estruturas sociais e econômicas tanto dos

conquistadores quanto dos conquistados e perceber o desenvolvimento dos nativos em questão.

Por fim, em linhas gerais, perceber as causas e algumas consequências da crise colonial espanhola.

2 A CONQUISTA DO NOVO MUNDOOs espanhóis iniciaram o seu processo de conquista e dominação da

América a partir de fins do século XV, estimulada pelo próspero comércio italiano e pelos avanços concernentes à expansão marítima portuguesa.

Seus objetivos iniciais encontram-se pautados nos mesmos princípios mercantilistas adotados pelos recentes Estados Modernos, ou seja, transações econômicas vantajosas (balança comercial favorável) e extração de metais preciosos.

O ponto de partida para o processo de conquista espanhola concentra-se na atual ilha de São Domingos e gradualmente avança em direção ao continente. Neste sentido, expedições organizadas a partir do Panamá e México avançaram em direção ao interior.

Semelhante aos portugueses, os espanhóis utilizaram-se das capitulações para delegar a responsabilidade, incluídas aí os ônus, das expedições que objetivavam a conquista do Novo Mundo. Esta medida é justificada pelos entraves internos enfrentados pelo governo espanhol como a Guerra da Itália e os avanços dos luteranos no Sacro Império. Através das capitulares, a coroa espanhola concedia a particulares o direito de explorar a América.

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UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

Em 1519, Fernão Cortez foi encarregado de organizar e articular uma expedição ao México com o intuito de conquistar a região. Contando com o apoio de nativos que rivalizavam com os Astecas, de reforços bélicos provenientes da Espanha e da varíola - que debilitou os nativos inimigos – isolaram os astecas em sua capital, conquistando Tenochtitlán em 1521.

FIGURA 11 – FERNÃO CORTEZ

FONTE: Disponível em: <http://www.northernbelize.com/grc/hist_spanbrit04.gif>. Acesso em: 27 out. 2010.

3 ORGANIZAÇÃO POLÍTICA METROPOLITANAUtilizando-se inicialmente das capitulações, sistema através do qual a

coroa espanhola concedia direitos de explorar as terras coloniais no continente recém encontrado, a coroa passa a centralizar essas ações, à medida que novas fontes de riqueza passam a ser encontradas e com o agravo das disputas e conflitos envolvendo os participantes do empreendimento de conquista.

TÓPICO 4 | AMÉRICA ESPANHOLA

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Com o intuito de melhor controlar as mercadorias que transitavam entre as novas colônias na América e a metrópole, o governo espanhol criou a Casa de Contratação em 1503. Este órgão fiscalizava as transações comerciais e restringia a apenas ao porto de Sevilha (metrópole) e Havana (colônia) o direito de realizar importações e exportações. Posteriormente, os portos de Cartagena, Porto Belo e Vera Cruz passaram a operar o mesmo sistema.

Foram criados ainda mecanismos e cargos que objetivavam melhor gerir as decisões políticas junto às colônias e verificar possíveis irregularidades administrativas.

Os cargos de Vice-Reis substituíram os poderes anteriormente exercidos pelos adelantados. A divisão da colônia espanhola compreendeu inicialmente quatro Vice-Reinos: Nova Granada, Peru, Rio da Prata e Nova Espanha.

Possuidores de autonomia administrativa junto às colônias, os Cabildos,

também conhecidos como ayuntamientos, eram compostos por membros da elite colonial.

4 ESTRUTURA SOCIAL E ECONÔMICA NA AMÉRICA ESPANHOLA

Embora já houvesse registros de ocupação anterior, é a partir do início da exploração de minérios no México e Peru que o processo de ocupação da colônia espanhola se concretiza. Essa atividade caracteriza-se pela base econômica nas novas terras, sustentando o crescimento demográfico na região.

A exploração de metais preciosos e o expressivo aumento populacional propiciaram o desenvolvimento de atividades econômicas complementares, também conhecidas como secundárias. Gêneros alimentícios, vestuários, ferramentas, comércio de animais, enfim, toda uma gama de atividades que sustentassem a manutenção dos colonos na América espanhola.

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UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

O trabalho indígena foi implementado através de duas modalidades distintas: mita e encomienda.

● Encomienda: esse modelo desenvolvido pelos espanhóis caracterizava-se pela concessão dos direitos de exploração de um grupo de nativos a um colono pelas autoridades espanholas locais em troca de pagamentos de tributos e cristianização dos indígenas explorados.

● Mita: de origem inca, essa modalidade de trabalho era baseada em sua origem na utilização de alguns homens pertencentes a comunidades dominadas na exploração das minas por aproximadamente quatro meses, após esse período, recebiam seu pagamente e novos trabalhadores eram sorteados para uma mesma jornada.

A dominação europeia promoveu a degradação da cultura local, contribuindo para tal o processo de cristianização à qual os nativos foram submetidos.

Vejamos agora algumas características das principais classes sociais identificadas neste período.

● Indígenas/Nativos: através dos sistemas de encomienda e mita foram submetidos a trabalhos forçados, também denominados por alguns historiadores como trabalho escravo. Inicialmente, compunham a maioria da população da colônia.

Escravos Africanos: também utilizados nas Antilhas, sobretudo para trabalhos vinculados à agricultura.

Mestiços: produtos da interação entre brancos e índios, eram trabalhadores livres, desprezados e explorados no campo e cidade.

Chapetones: ocupavam altos cargos da administração colonial. Nascidos na Espanha, viviam na colônia gozando de prestígio social e defendendo os interesses da metrópole.

Criollos: representavam a elite colonial, descendentes dos espanhóis nascidos na América, possuíam grandes propriedades rurais, arrendavam minas, e podiam ocupar cargos de menor expressão na administração e defesa pública.

4.1 CLASSES SOCIAIS E MÉTODOS DE TRABALHO NA COLÔNIA

TÓPICO 4 | AMÉRICA ESPANHOLA

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5 A CRISE COLONIAL ESPANHOLA

Em sua obra intitulada “A economia latino-americana: formação histórica e problemas contemporâneos”, Celso Furtado considera uma divisão entre os três séculos de dominação espanhola em território americano, cada qual compreendendo aproximadamente 150 anos.

Neste sentido:

[...] pode-se dizer que os primeiros 150 anos da presença espanhola na América foram marcados por grandes êxitos econômicos para a Coroa e para a minoria espanhola que participou diretamente da conquista, pela destruição de grande parte da população indígena preexistente, pela piora das condições de vida da população que sobreviveu à conquista e, finalmente, pela articulação de vastas regiões em torno de polos dinâmicos, cuja principal função era produzir um excedente sob a forma de metais preciosos, o qual se transferia para a Espanha de forma quase unilateral. Os segundos 150 anos se caracterizaram pelo declínio da produção mineira, pelo afrouxamento da pressão sobre a população, que retomou o crescimento e melhorou suas condições de vida, e pelo enfraquecimento dos vínculos entre as regiões, cuja interdependência se reduziu. Na primeira fase, a classe dominante era formada por homens diretamente ligados à Espanha, integrados ao aparelho do Estado ou em posições de controle do sistema de produção de onde saía o excedente transferido para a Metrópole. Na segunda fase, assumiu significação crescente a classe de senhores da terra, desvinculados da Metrópole e com um horizonte de interesses estritamente local. (FURTADO, 2007, p. 72).

Em suma, três acontecimentos – esgotamento das minas, hegemonia comercial inglesa e a Guerra de Sucessão Espanhola - revelaram a situação calamitosa e vulnerável na qual a Espanha, até então reconhecida como uma grande potência encontrava-se a partir do século XVIII.

As guerras nas quais a Espanha envolveu-se na época consumiram boa parte das riquezas minerais extraídas da colônia americana, principalmente das minas localizadas na mesoamérica e região andina, aliás, essas minas já apresentavam sinais de escassez desde o século XVII.

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UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

NOTA

O Asiento era a permissão, cedida pela coroa, de comercializar escravos com as colônias portuguesas. FONTE: Disponível em: <pt.wikipedia.org/wiki/Asiento>. Acesso em: 24 out. 2010.

Segundo Furtado (2007, p. 60-61):

A ruptura formal do monopólio espanhol se inicia com o século XVIII. Em 1701, ao iniciar-se a Guerra de Sucessão, uma companhia francesa obtém por dez anos o privilégio de vender escravos nas índias espanholas. Em 1713, pelo Tratado de Utrecht esse privilégio foi transferido para os ingleses, e, explorá-lo, foi criada uma companhia da qual eram sócios tanto o rei da Espanha como o da Inglaterra, cabendo a cada um 25 por cento do capital. Essa companhia, a qual cabia o direito de introduzir nas colônias espanholas 4800 escravos africanos por ano (durante um período de trinta anos), estabeleceu postos de venda nos principais portos entre Vera Cruz e Buenos Aires e, logo em seguida, nas regiões interiores, alcançando as longínquas minas do norte do México. Demais, estava autorizada a importar os gêneros requeridos para manter os escravos enquanto estes estivessem em suas mãos.

Ao direito concedido aos ingleses de fornecer escravos africanos denominou-se asiento, enquanto que o permisso caracterizava-se pela comercialização direta de manufaturados entre ingleses e as colônias espanholas.

TÓPICO 4 | AMÉRICA ESPANHOLA

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As frotas anuais, instituídas em 1531, são caracterizadas pelo envio de duas frotas espanholas anualmente com destinos definidos em Terra Firme e Nova Espanha, foram dissolvidas no século XVIII proporcionando à colônia espanhola a possibilidade de comercializar entre si através de seus portos e com outras nações, sobretudo a Inglaterra.

Essas concessões proporcionadas pelo governo espanhol ocasionaram o gradual desmantelamento da estrutura colonial e a inserção da corrente iluminista em voga na Inglaterra. O desenvolvimento do liberalismo na colônia além do afastamento das elites junto à metrópole contribuiu com o enfraquecimento do colonialismo.

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RESUMO DO TÓPICO 4Neste tópico, você viu:

● Que analisamos as causas e as consequências do interesse espanhol pelas terras localizadas na América.

● A organização política da metrópole espanhola.

● A estrutura social e econômica dos conquistadores e dos povos conquistados, incluindo os mesoamericanos e os andinos.

● Os motivos que ocasionaram a crise colonial espanhola.

59

AUTOATIVIDADE

1 Discorra sobre os motivos que ocasionaram o interesse dos espanhóis pelas terras americanas.

2 Explique o sistema de capitulações.

3 Descreva as principais características das modalidades de trabalho implantadas nas colônias espanholas na América (Mita e Encomienda).

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TÓPICO 5

AMÉRICA INGLESA

UNIDADE 1

1 INTRODUÇÃOPrezado(a) acadêmico(a)! Neste tópico, nosso objetivo é analisar os

motivos pelos quais os ingleses manifestaram seu interesse pelas terras ao norte do Continente Americano, bem como as características desses colonizadores e os métodos utilizados no povoamento e colonização dessa região. Sem menos importância, consideramos fundamental observar as relações entre ingleses e nativos.

2 INGLESES NA AMÉRICA DO NORTEDiferentemente do que ocorreu com espanhóis e portugueses em ocasião

das suas respectivas chegadas em terras americanas, a motivação resultante na povoação e colonização da América do Norte, por parte dos ingleses, a partir do século XVII, encontra-se vinculada a conflitos sociais e políticos internos.

Em decorrência dos conflitos sociais e políticos observados na Inglaterra ao longo do século XVII, a vinda de ingleses para a América do Norte passou a ser considerada uma alternativa viável tanto aqueles prejudicados pelas políticas de cercamentos, que por sua vez ocasionaram um acentuado êxodo rural, quanto aos perseguidos por questões religiosas.

A colonização inglesa na América do Norte, ao contrário da portuguesa, ficou a cargo de particulares e de Companhias de Comércio. Portanto, o rei inglês não se preocupou em controlar e tampouco definir o caráter colonizatório a ser utilizado nas terras norte-americanas. Como já foi dito, as colônias inglesas foram uma saída para os problemas políticos e sociais que grande parte da população inglesa vivia.

No plano social, podemos destacar o crescimento progressivo de camponeses sem-terra e também um número crescente de pequenos agricultores que perdiam suas terras para os grandes proprietários. Essa realidade resultou basicamente em dois fatores. Primeiro, a Lei do Cercamento, que implicou a suspensão dos contratos de arrendamento e a expulsão dos camponeses instalados nas terras em que a política foi adotada.

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UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

O segundo fator foi a substituição da agricultura e do pastoreio de subsistência por uma atividade agropastoril voltada para o comércio, o que exigiu uma produção em alta escala. Portanto, quanto maior a quantidade de terras, maior será a produção e, consequentemente, maior será o lucro do proprietário de terras. Essa passou a ser a nova lógica de produção agrícola. A partir dessa realidade, grande parte dos pequenos agricultores perdeu suas terras para os grandes proprietários rurais.

Enfim, os dois fatores somados geraram uma grande massa de pessoas desocupadas e sem perspectivas de trabalho. Parte dessa mão de obra abundante passou a ser aproveitada, de forma barata, na atividade comercial, em ascensão, e a outra passou a engrossar a camada de indigentes existente na sociedade inglesa, fato que contribuiu para o crescimento do banditismo social.

No plano político-religioso, é preciso destacar o fato de que a Inglaterra vivia o reinado de Henrique VIII, um monarca que usurpava seus súditos com a cobrança de altos impostos, que nunca pareciam ser o bastante, pois, constantemente, submetia a Inglaterra a guerras infrutíferas. Além disso, mostrava-se um soberano despótico, o que contribuía para a formação de uma legião de inimigos políticos.

No plano religioso, Henrique VIII promoveu uma reforma religiosa e tornou-se chefe supremo do Estado e da Igreja. Tornou a Igreja Anglicana, a igreja oficial da Inglaterra. Rompeu com o papado e passou a confiscar os bens da Igreja Católica como forma de aumentar as riquezas do Estado. Agora, além de inimigos políticos, Henrique VIII passou a contar também com inimigos religiosos.

Inicialmente, as duas Companhias privadas privilegiadas com concessões à colonização das terras ao norte do Continente Americano foram a de Londres e a Plymonth. A princípio concentrou seus esforços na região Norte enquanto que a segunda estabeleceu-se ao Sul.

Virgínia é reconhecida como a primeira colônia inglesa, posteriormente foi organizada Maryland (1632), Carolina do Sul e Carolina do Norte (1663) e Geórgia (1733) ambas situadas ao sul e caracterizadas pela exploração do escravo africano vinculada a uma produção agrícola com vistas à suplementação das demandas metropolitanas.

Ao Norte, as colônias originaram-se da migração de ingleses puritanos vinculados a práticas comerciais e ao desenvolvimento de culturas agrícolas diversificadas, necessárias ao sustento dos próprios colonos. A primeira colônia inglesa no Norte foi New Plymonth – atual Massachussets - em 1620, posteriormente foram fundadas Rhode Island e Connecticut em 1636 e New Hampshire em 1638.

TÓPICO 5 | AMÉRICA INGLESA

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Ou seja, ao Sul, as colônias foram concebidas através da perspectiva de exploração do trabalho escravo em terras nas quais se produzia produtos agrícolas exportados para a metrópole, exercendo caráter suplementar.

No Norte, ao contrário, as colônias apresentavam características de povoamento. Os ingleses estabelecidos nessas regiões transferiam além de suas famílias todo o aparato cultural necessário a sua própria sobrevivência.

3 A ESTRUTURA COLONIALAs treze colônias inglesas implantadas na América do Norte eram

independentes umas das outras, submetendo-se politicamente diretamente ao governo inglês. Diferentemente do modelo adotado por portugueses e até mesmo por espanhóis em terras americanas, as colônias foram concebidas a partir da iniciativa privada, culminando no desenvolvimento de uma acentuada autonomia até mesmo em relação à própria metrópole.

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UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

FIGURA 12 – TREZE COLÔNIAS

FONTE: Disponível em: <http://www.clickescolar.com.br/wp-content/uploads/2010/09/13-Colonias-da-America-do-Norte-240x300.jpg>. Acesso em: 27 out. 2010.

TÓPICO 5 | AMÉRICA INGLESA

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O governo metropolitano nomeava para cada colônia um governador para que este representasse seus interesses na América, porém este poder político era compartilhado com um Conselho formado pela elite colonial e fiscalizado pela Assembleia Legislativa.

Conforme já exposto, a delegação de um governador com vistas à representação dos interesses metropolitanos não conteve o desenvolvimento de uma cultura autônoma em relação ao governo inglês.

As colônias concentradas ao norte apresentavam condições climáticas muito semelhantes àquelas encontradas na própria Inglaterra diferentemente daquelas localizadas ao Sul. Estes fatores propiciaram uma diferenciação entre ambas, através das quais se estabeleceu ao Sul a exploração dos recursos bem como o emprego da mão de obra escrava, sobretudo africana.

4 DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO

As características climáticas contribuíram para a definição do modelo econômico de cada região, o clima tropical no sul e temperado no centro-norte, no entanto, foi determinante o tipo de sociedade e de interesses existentes. Na região Centro-norte a colonização foi efetuada por um grupo caracterizado por homens que pretendiam permanecer na colônia (ideal de fixação), sendo alguns burgueses com capitais para investir, outros trabalhadores braçais, livres, caracterizando elementos do modelo capitalista, onde havia a preocupação do sustento da própria colônia, uma vez que havia grande dificuldade em comprar os produtos provenientes da Inglaterra.

A agricultura intensiva, a criação de gado e o comércio de peles, madeira, e peixe salgado, foram as principais atividades econômicas, sendo que desenvolveu-se ainda uma incipiente indústria de utensílios agrícolas e de armas. Em várias cidades litorâneas o comércio externo se desenvolveu, integrando-se às Antilhas, onde era obtido o rum, trocado posteriormente na África por escravos, que por sua vez eram vendidos nas colônias do sul: assim nasceu o “Comércio Triangular”, responsável pela formação de uma burguesia colonial e pela acumulação capitalista.

FONTE: Disponível em: <www.historianet.com.br>. Acesso em: 14 fev. 2011.

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RESUMO DO TÓPICO 5

Neste tópico, você viu que:

● A colonização inglesa na América do Norte, ao contrário da portuguesa, ficou a cargo de particulares e de Companhias de Comércio.

● As colônias concentradas ao norte apresentavam condições climáticas muito semelhantes àquelas encontradas na própria Inglaterra, diferentemente daquelas localizadas ao sul. Estes fatores propiciaram uma diferenciação entre ambas, através das quais se estabeleceu ao sul a exploração dos recursos, bem como o emprego da mão de obra escrava, sobretudo africana.

● A agricultura intensiva, a criação de gado e o comércio de peles, madeira, e peixe salgado foram as principais atividades econômicas nas colônias inglesas, sendo que desenvolveu-se ainda uma incipiente indústria de utensílios agrícolas e de armas.

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1 Discorra sobre as principais características da estrutura colonial inglesa na América do Norte.

AUTOATIVIDADE

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TÓPICO 6

A AMÉRICA FRANCESA

UNIDADE 1

1 INTRODUÇÃOA colonização americana não se restringiu apenas a portugueses,

espanhóis, ingleses ou holandeses. Os franceses, assim como os demais, promoveram a colonização da América disputando territórios e estabelecendo-se principalmente ao norte das terras ocupadas pelos ingleses. Isso não significa sua ausência nos demais territórios, pois foi costumeira a presença francesa na costa do atual Brasil, assim como os holandeses, porém sua ocupação predominante localizou-se no território do atual Canadá.

2 A PRESENÇA FRANCESA NO BRASILOs franceses iniciaram sua expansão marítima bem mais tarde que os

portugueses e espanhóis, e mesmo não tendo realizado grandes descobertas, conseguiram chegar ao Oriente e também ao Ocidente. Fundaram colônias na América com o intuito de explorá-las, mas assim como uma parcela considerável de ingleses, vieram para o Novo Mundo motivados por questões religiosas.

A presença francesa no Brasil e a sua posterior expulsão podem ser compreendidas através de duas perspectivas:

● Através da primeira invasão, em 1555, uma expedição comandada por Nicolau Durand de Villegaignon estabeleceu uma colônia na ilha de Serigipe, na Baía de Guanabara. Essa colônia recebeu o nome de França Antártica e foi destinada a abrigar protestantes calvinistas fugidos das guerras religiosas na Europa. Os franceses organizaram um arraial, construíram um forte e resistiram por mais de dez anos às investidas portuguesas. Foram expulsos em 1565, pelo governador-geral Mem de Sá. Porém, antes de serem definitivamente expulsos, em 1567, fundaram a cidade do Rio de Janeiro.

● E ainda, em decorrência da segunda invasão ocorrida por volta de 1594 no Maranhão. Neste sentido, os portugueses tiveram dificuldades para expulsá-los, pois os franceses contavam com o apoio do governo francês para a criação de uma colônia. A França desembarcou no Brasil centenas de colonos, construiu

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UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

casas e igrejas e levantou o forte de São Luís, que deu origem à cidade de São Luís do Maranhão. Quase 21 anos depois, os franceses foram atacados por forças portuguesas saídas de Pernambuco, sob o comando de Jerônimo de Albuquerque. Derrotados, os invasores deixaram o Maranhão em 1615.

Não vá pensar, caro(a) acadêmico(a), que os franceses abandonaram definitivamente a costa brasileira. Ao contrário, continuaram até meados do século XVIII, com menor ou maior ajuda do governo francês, assediando as terras brasileiras. O alvo mais frequente foi o litoral nordestino. Mais tarde, dirigiram-se para o norte da América do Sul e fundaram novas colônias na região que hoje pertence à Guiana Francesa.

3 OS FRANCESES NA AMÉRICA DO NORTEA presença do colonizador francês nas terras norte-americanas ocorreu

a partir de meados do século XVII, portanto dois séculos após as primeiras investidas espanholas na América Central. As dificuldades para consolidar o absolutismo foram responsáveis pelo atraso francês na expansão marítima do século XV. Consolidado o absolutismo, a França procurou conquistar uma porção das terras americanas.

Os franceses se preocuparam em colonizar as terras da região centro-sul, pois as terras setentrionais por serem muito geladas e não oferecerem riquezas naturais não despertaram a cobiça francesa. Um número reduzido de franceses dirigiu-se às colônias, pois as peles de alguns animais eram o único atrativo comercial na região. Portanto, o francês, no norte da América, limitou-se a ocupar e povoar as terras para não perdê-las para os vizinhos ingleses.

Na América Central, nas Antilhas, os franceses implantaram colônias de exploração, principalmente na região do Haiti. E na América do Sul, na Guiana, montaram uma base de navios piratas para atacar os navios espanhóis que levavam ouro e prata da América.

É possível perceber, que mesmo iniciando a colonização de forma tardia, os franceses souberam tirar bom proveito das terras americanas. Consolidaram seus domínios políticos nas três Américas, ou seja, no norte consolidaram seu domínio territorial, no centro lucraram com a atividade açucareira e, no sul, acumularam riquezas através de atos de pirataria.

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RESUMO DO TÓPICO 6

Neste tópico você:

● Relembrou os motivos que levaram os franceses a invadirem o Brasil.

● Identificou as regiões da América em que os franceses estiveram presentes.

● Compreendeu o motivo que atrasou a expansão marítima francesa.

● Identificou os interesses econômicos franceses no norte da América e nas Antilhas.

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1 Qual a justificativa apresentada no texto para o atraso francês em relação a suas conquistas ultramarinas?

AUTOATIVIDADE

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UNIDADE 2

DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA

DO PARAGUAI

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM

PLANO DE ESTUDOS

A partir desta unidade, você será capaz de:

• compreender que o processo de independência das colônias americanas não foi constituído por fatos isolados, mas sim como resultados das trans-formações políticas e econômicas que a Europa passava;

• identificar os fatores responsáveis pelo processo de independência das treze colônias inglesas e espanholas;

• analisar os fatores que levaram à fragmentação da América espanhola em vários países;

• conhecer os principais líderes das lutas pela independência da América espanhola.

A presente unidade de ensino está dividida em quatro tópicos. No final de cada um deles, você encontrará atividades que contribuirão para a apropriação dos conteúdos.

TÓPICO 1 – O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA INGLESA

TÓPICO 2 – O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA ESPANHOLA

TÓPICO 3 – OS ESTADOS UNIDOS: “OS GUARDIÃES DA AMÉRICA”

TÓPICO 4 – GUERRA DO PARAGUAI

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TÓPICO 1

O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA

AMÉRICA INGLESA

UNIDADE 2

1 INTRODUÇÃOCaro(a) acadêmico(a)! É comum, ainda hoje, os livros didáticos tratarem

a independência das colônias americanas como sendo resultado de atos heroicos e isolados do contexto sócio-histórico universal. Atualmente, faz-se necessário desmistificar essas afirmações, pois nenhum fato histórico encontra resposta, ou razões em si mesmo. Nesse sentido, nosso objetivo, nesse tópico, será o de apresentar a Independência das treze colônias inglesas como sendo resultado de um processo que encontra reflexos nas transformações econômicas, sociais e intelectuais que a Europa vivia.

Assim, convido você a conhecer como surgiu uma das maiores potências econômicas, culturais e bélicas do mundo – os Estados Unidos da América.

2 AS INFLUÊNCIAS EXTERNASConforme já mencionamos, a independência das treze colônias inglesas

na América do Norte foi resultado de um processo que encontra origens dentro e fora da América. Em geral, os historiadores costumam justificar a independência dos Estados Unidos a partir dos seguintes fatores externos:

O Movimento Iluminista (século XVIII): movimento que colocou progressivamente em cheque a figura política do rei, pois os iluministas pregavam a liberdade, a igualdade e a fraternidade. Esses ideais romperam as barreiras do Oceano Atlântico e chegaram às Américas. Assim, os colonos americanos, envolvidos por esses ideais, começaram a propagar sentimentos de repúdio à exploração metropolitana, que enriquecia graças à exploração dos colonos.

A Guerra dos Sete Anos (1756 a 1763): esse conflito ocorreu entre ingleses e franceses, e encontra origens na disputa de terras no norte da América. Ingleses e franceses discutiam questões de fronteiras territoriais. A Inglaterra, embora vitoriosa, saiu falida do conflito, e como forma de engordar seus cofres, resolveu apertar os laços mercantilistas com as treze colônias.

UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

76

UNI

A política mercantilista tinha por objetivo atrelar as atividades desenvolvidas na colônia aos interesses da metrópole. Em outras palavras, enriquecer a metrópole, por intermédio de impostos, ou exploração de riquezas naturais.

Enfim, a ideia de liberdade pregada pelo Iluminismo gerou na sociedade colonial americana um forte desejo de rompimento com os laços mercantilistas, isto é, um desejo de rompimento com um Estado que oprimia e, ao mesmo tempo, impedia o crescimento econômico.

DICAS

SUGESTÃO DE FILME

O Patriota (The Patriot)

Sinopse: Na emocionante aventura O Patriota, o vencedor do Oscar Mel Gibson estreia como Benjamin Martin, um herói do terrível conflito francês e indígena, que havia renunciado lutar para criar sua família em paz. Mas quando os ingleses chegam a seu lar e ameaçam seus sete filhos, Martin pega em armas ao lado do filho idealista, Gabriel (Heath Ledger, de 10 Coisas que Eu Odeio em Você), e lidera uma brava milícia numa batalha contra o incansável e esmagador exército inglês. No processo, ele descobre que a única maneira de proteger sua família é lutar pela liberdade de uma jovem nação.

FONTE: Disponível em: <http://www.cinepop.com.br/filmes/patriota.htm>. Acesso em: 16 nov. 2010.

Em relação ao filme “O Patriota”, é interessante analisar a forma pela qual o inimigo inglês é caracterizado. Neste sentido, além de considerar a relevância do fato para os norte-americanos merece atenção a origem do próprio filme, ou seja, os EUA. O filme procura fomentar e enaltecer o orgulho pelo país reforçando os estereótipos de crueldade, intolerância e o caráter abusivo vinculado aos personagens identificados com os interesses metropolitanos.

As colônias já contavam com classes sociais, economicamente poderosas,

esperando o momento certo para reagirem contra a opressão metropolitana. No próximo item, você verá que o arrocho mercantilista adotado pela metrópole em relação à colônia não foi bem-sucedido.

TÓPICO 1 | O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA INGLESA

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3 AS ETAPAS DA INDEPENDÊNCIAOs Estados Unidos da América tornaram-se independentes em 4 de julho

de 1776. Neste sentido, convido você a conhecer os fatos que propiciaram a independência deste país nesta data.

3.1 AS LEIS INTOLERÁVEIS

Ao final da Guerra dos Sete Anos, como já mencionado, a Inglaterra encontrava-se falida e como forma de equilibrar suas finanças, resolveu apertar os laços coloniais com as treze colônias, através das seguintes medidas:

● a partir de 1750, ficou proibida a fundição de ferro nas colônias;

● a partir de 1756, foi proibida a fabricação de tecidos, fato que atrasou e atrofiou o processo de industrialização nas colônias do Centro-Norte;

● a partir de 1765, os soldados ingleses poderiam alojar-se nas colônias, fato que evidenciou que a Inglaterra não estava disposta a perder o controle sobre as riquezas da colônia;

● outras leis, como a Lei do Selo e a Lei do Açúcar, também foram sancionadas pela metrópole. A primeira obrigava a selagem de todos os documentos oficiais, jornais etc. que circulavam pela colônia. A segunda tinha por objetivo impedir que os colonos americanos comercializassem seus produtos com outras regiões.

Um número considerável de historiadores atribui à aprovação da Lei do Chá, que por sua vez prejudicava os comerciantes na América inglesa em decorrência do monopólio concedido à Companhia Britânica das Índias Orientais, como sendo o estopim do conflito entre metrópole e colônia.

Esse conjunto de leis não foi bem recebido pelos colonos americanos, pois, além de limitar os lucros e aumentar os impostos, elas também subordinavam radicalmente as colônias à política metropolitana. Muitos colonos se rebelaram e boicotaram tais leis.

UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

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FIGURA 13 – PINTURA DA FESTA DO CHÁ DE BOSTON, RESULTADO DO ATO DO CHÁ QUE FAVORECEU A COMPANHIA DAS ÍNDIAS ORIENTAIS E PUNIU CONCORRENTES

FONTE: Disponível em: <http://static.hsw.com.br/gif/east-india-company-influence-3.jpg>. Acesso em: 16 nov. 2010.

A metrópole rapidamente decretou leis ainda mais repressoras, chamadas pelos colonos de Leis Intoleráveis.

Caro(a) acadêmico(a)! Estava criada a situação que aquelas classes sociais mais abastadas precisavam para dar o pontapé inicial da independência. É aqui que tudo começa.

3.2 O PRIMEIRO CONGRESSO CONTINENTAL DA FILADÉLFIA

Diante desse quadro de conflito e de rígido controle metropolitano, os colonos reuniram-se em um congresso com o objetivo de restabelecer a liberdade das colônias. Foi o Primeiro Congresso Continental da Filadélfia e, cabe registrar que, independentemente dos conflitos econômicos e ideológicos existentes entre as colônias do Norte e do Sul, nesse momento elas estavam unidas em busca de um mesmo objetivo.

O Primeiro Congresso Continental da Filadélfia não teve caráter separatista, mas, caso as reivindicações dos colonos não fossem aceitas (maior liberdade comercial, maior flexibilidade nos laços coloniais etc.), esse seria o próximo passo.

TÓPICO 1 | O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA INGLESA

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Caro(a) acadêmico(a)! Talvez você esteja imaginando a reação do Rei Jorge III em relação às reivindicações dos colonos. Evidentemente, o monarca não aceitou as propostas provenientes das suas colônias na América, e procurou aumentar sua repressão.

Os conflitos foram vários, como foram várias as vítimas. A guerra pela independência estava começando.

3.3 O SEGUNDO CONGRESSO CONTINENTAL DA FILADÉLFIA

O Segundo Congresso Continental da Filadélfia teve um objetivo diferente do Primeiro Congresso, pois o seu caráter foi exclusivamente separatista. George Washington assume o comando das tropas americanas e encarrega Thomas Jefferson de redigir a Declaração de Independência. O conflito entre colonos e colonizadores se acirra.

FIGURA 14 – GEORGE WASHINGTON

FONTE: Disponível em: < http://www.historianet.com.br/imagens/indeeua2.jpg>. Acesso em: 16 nov. 2010.

UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

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FIGURA 15 – THOMAS JEFFERSON

FONTE: Disponível em: <http://www.historianet.com.br/imagens/indeeua1.jpg>. Acesso em: 16 nov. 2010.

No início de 1776, o iluminista Thomas Paine incita os americanos para a urgência da independência. No dia 4 de julho do mesmo ano, foi promulgada a Declaração de Independência, redigida por Thomas Jefferson.

FIGURA 16 – THOMAS PAINE

FONTE: Disponível em: < http://www.historiadomundo.com.br/imagens/Paine%20-%20ALUNOS%20ONLINE.jpg>. Acesso em: 16 nov. 2010.

TÓPICO 1 | O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA INGLESA

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Evidentemente, esse processo foi complexo e muitas articulações foram realizadas para que se criasse o ambiente desejável. A Inglaterra não aceitou e o conflito aumentou ainda mais a repressão. Graças à ajuda da França e da Espanha, que queriam diminuir o poder britânico na América, os Estados Unidos tiveram sua independência reconhecida pela Inglaterra em 1783.

3.4 DEPOIS DA INDEPENDÊNCIA

Os anos que se seguiram logo após a independência foram influenciados pelos ideários iluministas de Montesquieu. Os Estados Unidos passaram a servir de exemplo para o restante da América colonial, pois foram os primeiros a se tornarem independentes de sua metrópole. Desta forma, as treze colônias Inglesas organizam-se politicamente como uma República confederada.

A Constituição não contemplava, em seu bojo, uma liberdade política para toda a nação. Ao contrário, grande parte dos trabalhadores foi alijada do processo político, pois o voto era censitário. Índios, negros livres ou negros escravos não foram levados em consideração e continuaram a levar suas vidas de acordo com os interesses das elites nortistas e sulistas.

UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

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LEITURA COMPLEMENTAR

O MANIFESTO DA AMÉRICA

“Possa ela [a declaração] ser para o mundo o que acredito será - algumas partes mais cedo, outras mais tarde, mas, finalmente, para todos - o sinal para o despertar dos homens a fim de que rompam os grilhões, nos quais a ignorância simiesca e a superstição os persuadiram a acorrentar-se, e colham as bênçãos e segurança do autogoverno”. - Jefferson a A. R. C. Weightman, 24.06.1826.

Entre a submissão e a espada

Desde a rebelião generalizada que ocorreu a partir do porto de Boston em 1775, centro do descontentamento dos colonos americanos contra as medidas de tirania tributária adotada pela Coroa inglesa, os representantes dos 13 estados-colônias planejavam a redação de algum documento que desse respaldo a rejeição deles em submeter-se à metrópole. Eles desejavam - como afirmou Jefferson em carta a Henry Lee, em 1825, muito depois de o episódio ter ocorrido -, justificar-se “perante o tribunal do mundo”. Não queriam aparecer aos olhos da Europa como um bando de arruaceiros lá do outro lado do Atlântico amotinados contra o rei. Para eles tratava-se de uma coisa maior: por em prática uma série de teorias que incendiavam a imaginação dos burgueses e dos homens livres em geral, em se ver libertos da tirania das monarquias e dos anacronismos feudais - do lixo jurídico medieval - e de toda uma gama de regulamentos discriminatórios que hierarquizavam e perpetuavam as enormes desigualdades sociais.

Desde o final da Guerra dos Sete Anos (1756-1763), um cenário de crescente enfrentamento pairava sobre as colônias inglesas da América. De um lado, os agentes da metrópole querendo aumentar as cargas aduaneiras e fixar mais impostos, do outro, os colonos indignados por serem considerados como súditos de segundas categorias, pois nenhum dos tributos exigidos contava com a aquiescência deles. Daí seu grito “sem representação não há taxação”. Se eles não podiam enviar deputados para o Parlamento em Londres, os funcionários da Coroa não podiam inventar uma taxa atrás da outra para extorqui-los.

Repressão e resistência

O princípio do desentendimento entre americanos e ingleses dera-se onze anos antes da Declaração, por ocasião do Stamp Act (a Lei do Selo) de 1765, que obrigava todo o papel que circulasse nas 13 colônias ser selado com um timbre da Coroa. Em repúdio a essa lei, fundou-se a associação secreta dos Sons of Liberty, os Filhos da Liberdade, formada por mercadores, advogados, jornalistas e artesãos para opor-se a à Lei do Selo, transformando-se gradativamente numa entidade que iria congregar o espírito de resistência das colônias americanas. A resistência foi acompanhada por uma política de boicote às mercadorias inglesas

TÓPICO 1 | O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA INGLESA

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que causou um prejuízo ao comércio metropolitano avaliado em 7,3 milhões de libras, enquanto a Lei do Selo contribuiu apenas com 3,5 mil libras para os cofres do rei.

Eles é quem estavam por trás da manifestação de protesto contra a Lei do Chá (Townshend act), ocorrida em Boston em 13 de dezembro de 1773, que culminou com os colonos disfarçados de índios invadindo os barcos da Companhia inglesa das Índias ancorados no porto, jogando todos os fardos de chá no mar (no episódio jocosamente chamado The Boston Tea Party, a Festa do Chá de Boston). Também militavam naquela organização de patriotas, Samuel Adams e John Hancock, dois dos foragidos procurados pelas autoridades inglesas cuja decretação de prisão por sedição deflagrou os violentos tiroteios entre os pelotões ingleses e os “Minute Men”, as milícias dos colonos, nos lugarejos de Lexington e Concord, no Massachusetts, em abril de 1775. Gravíssimo incidente que matou 273 soldados britânicos e 93 colonos, e que serviu como faísca para o rastilho da Revolução Americana de 1776. Apesar de algumas tentativas conciliatórias, a insurreição tomou corpo e ninguém mais pôde detê-la. Rejeitando a submissão, aos colonos só lhes restou pegar suas espadas.

O grande redator

Se os incidentes de Lexington foram os sinais mais estrondosos para a insurgência geral das 13 colônias, o mundo das ideias foi sacudido a partir de 10 de janeiro de 1776 por um panfleto de 47 páginas redigido por Thomas Paine, chamado Common Sense, O Senso Comum, no qual ele advogava abertamente a separação completa da Grã-Bretanha. Nada mais unia os colonos à metrópole depois que o sangue fora derramado. Nenhuma razão plausível podia justificar a submissão dos homens livres da América a um tirano que recebera sua coroa por herança. E ainda mais, como lembrou Paine, era um contrassenso que uma ilha (a Inglaterra) dominasse um continente (a América). Foi com este pano de fundo, entre os clarões das explosões e dos tiros e as incendiárias palavras de Paine (o panfleto teve um tiragem de 120 mil exemplares), que os delegados coloniais reunidos no IIº Congresso Continental encarregaram Thomas Jefferson de redigir uma declaração.

A formação de Thomas Jefferson

Aos 33 anos de idade, Jefferson, nascido na Virgínia em 1743, provavelmente era o homem mais culto, senão da América do Norte, seguramente da sua geração. Dominava o latim, o grego, e o francês com perfeição. Cervantes e Shakespeare eram os seus autores de ficção favoritos, e, quando estudante, preparando-se para cursar advocacia em Richmond, na Virgínia, ele promoveu um curso de estudos para James Madison e James Monroe, que posteriormente, como ele, também se tornaram presidentes dos Estados Unidos (o 3º foi Jefferson, entre 1801-1809; o 4º foi Madison, entre 1809-1817; e o 5º foi Monroe, de 1817-1825). Até sua estatura, mais de 1,90 m., colaborou para a sua grandeza. Seus traços fortes, marcados, os olhos castanhos firmes, sua tez avermelhada pelo sol do campo, faziam dele

UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

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o protótipo do ianque. Foi um atento leitor do que havia de melhor no campo filosófico e jurídico daquele século, o Século das Luzes, tornado-o íntimo de Locke, de Sidney, de Hume, de Condorcet e de Montesquieu, e de tantos outros mais. Enfim, o homem era um prodígio.

Um sincero democrata

Mas o mais excepcional nele, para alguém criado na elite sulista, dono de terras e de escravos, refinado, quase um renascentista pela abrangência dos seus interesses e conhecimentos, é que Jefferson era um sincero admirador da democracia. Estranhavam que alguém que tinha todos os aparamentos para ser um conservador empedernido, um esnobe, um bon vivan, inclinava-se com todo o seu afeto e simpatia para o homem comum. Jefferson acreditava que a democracia era o único regime que permitia fazer com que os homens andassem permanentemente de cabeça erguida, sem ter que inclinar-se ou rastejar-se para ninguém. De certa forma, ele era a revivescência do antigo tribuno da plebe dos tempos dos romanos: um nobre patrício que aderia às causas populares. Que tais sentimentos fossem expressos por um senhor de escravos (aliás, quando ele redigiu a constituição da Virgínia, tentou colocar uma cláusula abolindo a servidão) é uma das mais notórias contradições da vida de Jefferson.

A embaraçosa escravidão

Certamente foi a questão de manter-se ou não a escravidão nas colônias que marchavam para a Independência o motivo da declaração ter demorado mais alguns dias em ser aprovada. Saltava aos olhos da maioria dos presentes no II Congresso na Filadélfia, de que era uma contradição gritante os delegados clamarem por liberdade, pela sua libertação, enquanto mantinham escravos nas suas propriedades. Porém, em consideração à Carolina do Sul e à Geórgia, notórias regiões escravistas, os demais parlamentares concordaram - disse Jefferson - em não colocar nenhuma cláusula que a condenasse. É possível que se os nortistas insistissem naquela época em proclamar a escravidão, simultaneamente à independência, a frente unida pró-republicana se dissolveria e a Grã-Bretanha, além de vencer a guerra já começada, recuperaria sua autoridade sobre as colônias rebeladas. Seja como for, a questão da escravidão foi apenas protelada, explodindo 85 anos depois na terrível Guerra Civil de 1861-65.

A aprovação

Aprontada a sua redação, o documento (dividido em cinco partes: introdução, preâmbulo, corpo do texto, subdividido em duas seções, e a conclusão) foi discutido durante dois intensíssimos dias, cabendo a John Adams, um eloquente polemista, defendê-lo perante o Congresso. Sentando ao lado de Jefferson naquele momento de tensão estava Benjamin Franklin, o patriarca da Independência que, para acalmá-lo, contava-lhe uma das suas saborosas histórias do seu tempo de tipógrafo. Talvez viesse à lembrança de Jefferson aquela

TÓPICO 1 | O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA INGLESA

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passagem de Shakespeare que dizia: “E agora, ei-lo que se encarrega de reformar certos éditos e algumas leis rigorosas, que pesavam excessivamente sobre a comunidade”.

A aprovação final do documento contou a ajuda de uma inesperada invasão de moscas, pois era julho, mês do alto verão americano, e elas atacaram com sofreguidão as pernas dos delegados. Encerrado o debate com seis acréscimos, dezoito supressões e dez alterações, a redação final foi sancionada na tarde daquele mesmo dia, o 4 de julho. Numa cerimônia simbólica, Jefferson, acompanhado de mais quatro integrantes da comissão de redação (Benjamin Franklin da Pensilvânia, John Adams de Massachusetts, Roger Sherman do Conecticute, e Robert Livingston de Nova Iorque), entregou formalmente o documento a John Hancock, o presidente do Congresso Continental. Em seguida, seguiram-se as assinaturas dos presentes. Ao todo 56 deles assinaram a Declaração de Independência, cabendo a John Hancock a honra de ser o primeiro a fazê-lo. No dia seguinte, 5 de julho, deram o pergaminho a John Dunlop, responsável pelas publicações do Congresso, para que ele o copiasse e a imprimisse, remetendo-a com a máxima urgência para as capitais das colônias rebeladas e para os acampamentos do Exército Continental, que já estava travando combates com os ingleses. George Washington, o comandante supremo, recebeu o seu exemplar em Nova Iorque. Acredita-se que foram feitas umas 500 cópias dela. De tantas, dois séculos depois, só restaram 25, sendo que apenas 4 encontram-se em mãos privadas.

O significado da Declaração

Como o próprio Jefferson intuiu, a Declaração de Independência não ficou circunscrita às coisas da América do Norte. A ideia de que os homens nascem livres e iguais e que tinham todo o direito de repudiar um governo que os oprimia, ganhou o mundo. Ao mesmo tempo em que o documento foi o Manifesto da América, também se consagrou como uma das maiores conclamações da história moderna para que os homens lutassem contra a tirania onde quer que eles estivessem (por ironia das coisas, Ho Chi Minh, o líder comunista do Vietnã do Norte, colocou o trecho inicial da Declaração no preâmbulo da constituição vietnamita de 1947). Foi também o anúncio do surgimento de uma nova era - a Era Republicana e Democrática, que gradualmente (por reforma ou por revolução) substituiu no Ocidente os regimes monárquicos e aristocráticos que até então dominavam o cenário político e social da Europa, e de boa parte do mundo. Mais diretamente, ela foi à fonte de inspiração para que os franceses se insurgissem em 1789 contra a monarquia absolutista de Luís XVI, estimulando-os a que igualmente redigissem um documento tão sensacional - a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, aprovada na Assembleia Nacional francesa em 4 de agosto de 1789, numa Paris rebelada.

A Declaração da Independência

“Quando no curso dos acontecimentos humanos, se torna necessário a um povo dissolver laços políticos que o ligavam a outro, e assumir, entre os poderes

UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

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da terra, posição igual e separada, a que lhe dão direito as leis da natureza e as do Deus da natureza, o respeito digno às opiniões dos homens exige que se declaram as causas que os levaram a essa separação.

Consideramos estas verdades como evidentes de per si, que todos os homens foram criados iguais, foram dotados pelo criador de certos direitos inalienáveis, que, entre estes, estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade; que, a fim de assegurar esses direitos, instituem-se entre os homens e os governos, que derivam seus justos poderes do consentimento dos governados; que, sempre que qualquer forma de governo se torne destrutiva de tais fins, cabe ao povo o direito de alterá-la ou aboli-la e instituir novo governo, baseando-o em tais princípios e organizando-lhes os poderes pela forma que lhe pareça mais conveniente para realizar-lhe a segurança e a felicidade.

Na realidade, a prudência recomenda que não se mudem os governos instituídos há muito tempo por motivos leves e passageiros e, assim sendo, toda a experiência tem demonstrado que os homens estão mais dispostos a sofrer, enquanto os males são suportáveis, do que a se desagravar, abolindo as formas a que se acostumaram. Mas quando uma longa série de abusos e usurpações, perseguindo invariavelmente o mesmo objeto, indica o desígnio de reduzi-los ao despotismo absoluto, assiste-lhes o direito, bem como o dever, de abolir tais governos e instituir novos guardas em prol da segurança futura. Tal tem sido o sofrimento paciente destas colônias e tal agora a necessidade que as força a alterar os sistemas anteriores de governo. A história do rei atual da Grã-Bretanha compõe-se de repetidos danos e usurpações, tendo todos por objetivo direto o estabelecimento de tirania absoluta sobre estes Estados. [seguem-se várias denúncias sobre as ações e medidas tomadas pela Coroa Britânica contra os colonos norte-americanos].

Nós, por consequência, representantes dos Estados Unidos da América, reunidos em Congresso geral, apelamos para o Juiz Supremo do mundo pela retidão das nossas intenções, em nome e por autoridade do bom povo destas colônias, publicamos e declaramos solenemente: que estas colônias unidas são e de direito têm de ser Estados livres e independentes; que estão desoneradas de qualquer vassalagem para coma Coroa britânica, e que todo o vínculo político entre elas e a Grã-Bretanha esta e deve ficar totalmente dissolvido; e que, como Estados livres e independentes têm inteiro poder para declarar guerra, concluir paz, contratar alianças, estabelecer comércio e praticar todos os atos e ações a que têm direito os Estados independentes.

“E em apoio desta declaração, cheios de firme confiança na proteção da divina providência, empenhamos mutuamente uns aos outros a vida, a fortuna e a honra sagrada.”

FONTE: Disponível em: <http://educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/independencia_eua.htm>. Acesso em: 16 nov. 2010.

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RESUMO DO TÓPICO 1Neste tópico, você pôde:

● Compreender que a Independência das treze colônias americanas não foi um fato isolado e tampouco resultado de um ato heroico.

● Identificar os fatores externos que influenciaram no processo de independência, como as ideias iluministas e as Leis Intoleráveis.

● Perceber que a metrópole não aceitou facilmente a Declaração de Independência do dia 4 de julho de 1776.

● Perceber que, após a independência, o quadro social e político dos Estados Unidos não ficou diferente do que já era.

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AUTOATIVIDADE

Com base no Tópico 1, responda:

1 Qual a influência da Guerra dos Sete Anos no processo de independência dos Estados Unidos?

2 Explique a diferença entre o Primeiro e o Segundo Congresso Continental da Filadélfia.

3 O que foram as Leis Intoleráveis?

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TÓPICO 2

O PROCESSO DE

INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA

ESPANHOLA

UNIDADE 2

1 INTRODUÇÃO

Nesse tópico, o objetivo será de apresentar o processo que desencadeou a independência das colônias espanholas na América. A partir desse momento, você terá condições de perceber os fatores responsáveis pelo processo de emancipação das colônias, o porquê da América Espanhola ter-se fragmentado em diversos países e conhecer a atuação política dos principais líderes do processo de independência.

2 AS INFLUÊNCIAS EXTERNASOs fatores que desencadearam o processo de independência das colônias

espanholas na América não foram muito distintos daqueles pertinentes às treze colônias inglesas. As influências foram tanto internas quanto externas. Em suma, as colônias espanholas, da mesma forma que as inglesas, viviam insatisfeitas com a opressão metropolitana, porém um fator acirrava ainda mais este descontentamento, ou seja, as rivalidades entre Chapetones e Crioulos. Os Chapetones eram colonos espanhóis que viviam na América e recebiam tratamento diferenciado, ocupando cargos administrativos e influindo politicamente; já os Crioulos, espanhóis nascidos na América, eram discriminados social e politicamente pela Espanha. A origem do conflito está no fato de ambos fazerem parte da elite colonial espanhola.

“Além disso, à medida que a defesa do império passou a ser confiada cada vez mais à milícia colonial, cujos oficiais, mioria [sic], eram criollos, a Espanha inventava uma arma que no final se voltaria contra ela própria. Mesmo ante de chegarmos a esse ponto, a milícia já criava problemas se segurança interna”. (BETHELL, 2004b, p. 27-28).

UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

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NOTA

Prezado(a) acadêmico(a)! Você deve ter percebido na citação anterior a palavra “mioria” seguida da expressão [sic]. Esta expressão significa, “assim mesmo”, ou seja, na ocasião da transcrição do texto percebemos o equívoco na obra original, pois acreditamos que o autor objetiva escrever “maioria”. Outro detalhe relacionado à citação em questão refere-se ao “b” acrescentado ao final de 2004, ano de publicação da obra. Isso significa que neste Caderno de Estudos utilizamos mais de uma obra de mesma autoria publicada no mesmo ano, logo, para diferenciá-las, utilizamos letras ao final de cada ano de publicação. Não deixe de verificar as referências bibliográficas ao final deste Caderno de Estudos!

Agora vamos conhecer alguns dos fatores externos que influenciaram diretamente na independência:

● O desenvolvimento industrial inglês: a Inglaterra, desejosa de ampliar seus mercados consumidores e fornecedores de matéria-prima, passou a defender o fim do domínio comercial metropolitano sob suas colônias. Esse fato ganhou simpatia entre a elite colonial, pois esta também desejava comerciar com o mundo.

Corrobora Bethell (2004b, p. 23)

[...] se a América espanhola não conseguia encontrar na Espanha um fornecedor de produtos industriais e um parceiro comercial, sobrava-lhe uma alternativa. A economia inglesa passava, no século XVIII, por mudanças revolucionárias. E, de 1780 a 1800, período em que a Revolução Industrial se efetivou de verdade, a Inglaterra experimentou um crescimento comercial inédito, com base, sobretudo na produção fabril de tecidos. [...] Nesse momento, a Inglaterra não tinha praticamente concorrentes. Uma parcela substancial – mais ou menos um terço – do total da produção industrial da Inglaterra era exportada para o ultramar. Por volta de 1805, a indústria algodoeira exportava 66 por cento de seu produto final; a indústria de tecidos de lã, 35 por cento; a indústria do ferro e do aço, 23,6 por cento. E, no curso do século XVIII, o comércio inglês passou a depender cada vez mais dos mercados coloniais.

● A independência dos Estados Unidos: conforme foi mencionado anteriormente, a independência das treze colônias inglesas passou a servir de exemplo para o mundo colonial americano, e a própria nação estadunidense passou a apoiar a emancipação das colônias espanholas. Não se esqueça, caro(a) acadêmico(a), que os Estados Unidos também necessitavam conquistar mercados; portanto, para eles, a América independente significava o crescimento econômico das elites dos Estados Unidos.

TÓPICO 2 | O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA ESPANHOLA

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● As ideias iluministas: as ideias de liberdade, igualdade e fraternidade estiveram presentes em todos os processos de independência da América. Na verdade, elas representavam os desejos da burguesia europeia e americana que ambicionavam igualdade política e liberdade de comércio.

É comum ouvirmos pessoas relacionarem os americanos como sendo as pessoas nascidas nos Estados Unidos, somente. É necessário reconsiderar este conceito, pois americano é todo aquele que nasceu na América, assim como africano é aquele que nasceu na África.

ATENCAO

3 A INDEPENDÊNCIA GRADUAL E A FRAGMENTAÇÃO POLÍTICA

Quando você abre o mapa político da América, imediatamente percebe que a maior parte dos países do nosso continente foi, no passado, colônias espanholas. Também percebe que a maior parte deles fala a língua espanhola. Por que a independência das colônias espanholas não resultou numa única nação? É extremamente importante que façamos essas perguntas, pois, afinal, o Brasil e as colônias espanholas tornaram-se independentes no mesmo momento histórico, só que uma fragmentou-se em diversos países e a outra não. Qual a explicação para isso?

Lopes (1989) atribui à fragmentação política da América colonial hispânica aos seguintes fatores:

●A influência inglesa, cuja hegemonia comercial seria mais facilmente exercida numa América dividida e, consequentemente, enfraquecida. O que a Inglaterra queria, de fato, era o mercado consumidor na América, e, para isso, dividir para reinar era o seu principal interesse.

●O território estava representado por diversas divisões tribais e linguísticas, a comunicação era difícil e as populações rarefeitas. Além disto, não havia uma produção capitalista capaz de proporcionar a unificação política via integração de mercados.

●A luta pela emancipação foi resultado da ação de diferentes grupos de uma mesma oligarquia, organizada em locais diferentes e com interesses diferentes, portanto incapaz de aglutinar interesses políticos que levassem a uma unidade política.

UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

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É necessário destacar que a ausência da escravidão, como única base de trabalho, também contribuiu para a não unidade política, pois, ao contrário do Brasil, a luta pela manutenção da escravidão não foi um instrumento de união entre as elites coloniais hispânicas.

Enfim, a fragmentação política das colônias espanholas foi resultado

de sua frágil organização econômica, uma vez que dependia de economias externas, e, também, dos conflitos existentes entre uma elite geográfica, cultural e economicamente distinta.

3.1 JOSÉ DE SAN MARTÍN

José de San Martín (25/2/1778-17/8/1850) nasceu na Argentina em 1778 e graças à posição social abastada de sua família, recebeu uma ótima educação. Foi, sem dúvida, uma das figuras mais expressivas no processo de independência da América hispânica. No ano dez, do século XIX, em Londres, entra em contato com os ideais revolucionários da América espanhola, fato que lhe incentiva a retornar para a capital da Argentina, Buenos Aires. A partir de então, passa a engajar-se nos movimentos pró-independência.

FIGURA 17 – JOSÉ DE SAN MARTÍN

FONTE: Disponível em: <http://www.biografiasyvidas.com/biografia/s/fotos/san_martin.jpg>. Acesso em: 16 nov. 2010.

TÓPICO 2 | O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA ESPANHOLA

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Em 1816, sai vitorioso de um combate contra as tropas espanholas que tentavam consolidar as forças colonizadoras na América. Seu espírito de liderança lhe confere a chefia de diversas tropas que passam a lutar a favor da libertação das nações vizinhas. Com um exército pouco numeroso, atravessa os Andes com o objetivo de auxiliar nas lutas pela independência do Chile, colaborando com o líder Bernardo O´Higgins. Em 1820, marcha ao Peru, domina Lima e declara a independência do país em 28 de julho de 1821.

Mas, caro(a) acadêmico(a), não vá pensar que os espanhóis aceitaram facilmente a tomada do Peru, ao contrário, resistiram e muito, porém graças à ajuda de Simón Bolívar, José de San Martín consolidou o processo de independência ainda em 1821.

Vale registrar que, mesmo vitoriosos, os dois entraram em conflito, pois não entraram em consenso quanto à forma de governo que deveria ser instalada no Peru. Em 1822, San Martín abandonou a política e se exilou na Bélgica e depois na França, onde morreu.

Enfim, José de San Martín foi um dos principais articuladores da independência da Argentina, que, embora se tornando independente em 1810, só foi reconhecida em 1816, no Congresso de Tucumã. Porém, suas atuações em busca da independência transgrediram o território argentino, pois na região andina, suas investidas foram extremamente significativas e decisivas para desenrolá-lo da independência da região.

3.2 SIMON BOLÍVAR

Nasceu no dia 24 de julho de 1783, em Caracas. Oriundo de família rica estudou na Europa, precisamente em Madrid, onde recebeu forte influência dos teóricos iluministas. Invadiu a Colômbia e, em dezembro de 1819, foi votada uma constituição que o nomeava presidente ditador militar da União dos Estados Unidos da Colômbia. Atuou com sucesso na Venezuela e no Equador.

Simon Bolívar desejava uma América forte e unida e, no ano de 1826, convocou o Congresso do Panamá, mas infelizmente, o sonho de ver uma América forte não se realizou.

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FIGURA 18 – SIMON BOLÍVAR

FONTE: Disponível em: <http://www.venezuelatuya.com/biografias/dic00/bolivar.jpg>. Acesso em: 16 nov. 2010.

A maior parte dos historiadores associa o fracasso aos seguintes fatores:

● A hostilidade inglesa: a Inglaterra não desejava uma América unida e forte, pois isso poderia significar o nascimento de uma grande potência econômica. As relações comerciais entre elas se dariam de igual para igual.

● A fobia dos Estados Unidos: Os Estados Unidos já apresentavam um alto grau de desenvolvimento econômico, pois já tinham vivido sua revolução industrial e não estavam dispostos a perder seu mercado consumidor americano. Enfim, não estavam dispostos a enfrentar concorrência.

● A existência de pólos econômicos locais: A existência de elites regionalizadas já era uma realidade. Portanto, qualquer possibilidade de uma América forte e unida poderia significar o fim da autonomia mercantil dessas elites.

NOTA

Caro(a) acadêmico(a)! Por que será que o sonho de Bolívar não se tornou realidade? Será que fatores externos aos interesses americanos, mais precisamente a América espanhola, fizeram-se outra vez mais fortes?

TÓPICO 2 | O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA ESPANHOLA

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Os Estados Unidos, logo após a sua independência, começaram a influir nas questões sociais, políticas e econômicas dos países em fase de independência. Você já se perguntou por que os países latino-americanos até hoje possuem uma economia essencialmente agrária? Será que sempre seremos economias complementares das grandes economias globais? Essas são perguntas que todos os latino-americanos deveriam fazer a si mesmos.

4 A NECESSIDADE DE CONSOLIDAR AINDEPENDÊNCIA

A consolidação das emancipações políticas coloniais americanas não ocorreu do dia para a noite e elas tampouco foram facilmente aceitas pelas metrópoles, em especial, a portuguesa, a espanhola e a inglesa. É preciso lembrar que, após a Revolução Francesa, surgiu a Santa Aliança e o Congresso de Viena, ambas com o objetivo de restaurar o absolutismo na Europa, fato que iria despertar nas velhas dinastias o desejo de restaurar seus domínios políticos nas antigas colônias.

Caro(a) acadêmico(a)! Você já dever ter percebido que o processo de independência dos países que hoje compreendem a América Latina esteve intimamente atrelado aos interesses econômicos de outras nações e, de certa forma, deve compreender melhor o porquê dos países latino-americanos serem, até hoje, dependentes das grandes economias globais. Você deve ter notado que a Inglaterra esteve presente em todos os momentos decisivos de nossa história, ora influenciando o processo de independência, ora o processo de abolição da escravatura, mas sem perder de vista seus interesses econômicos nesses países.

UNI

Você não pode esquecer que as colônias foram, durante muito tempo, os sustentáculos econômicos das monarquias europeias. Sem as colônias, os cofres das realezas europeias ficariam vazios. Consegue imaginar então porque tanto desejo de retomar as colônias.

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Na verdade, a consolidação da emancipação da América Colonial contou com o apoio e com o reconhecimento da Inglaterra e dos Estados Unidos.

Mas por que essas nações apoiaram essa emancipação?

Simples! Tanto a Inglaterra quanto os Estados Unidos desejavam ampliar seus mercados na América. Para conseguirem isso, era preciso lutar contra as políticas monopolistas europeias.

Para atingirem esses objetivos, a Inglaterra registrou pela Europa que iria usar seus navios para impedir a chegada de expedições militares europeias à América. Os Estados Unidos, consequentemente, criaram a Doutrina Monroe para defender a América.

Os Estados Unidos e a Inglaterra foram os protetores da América? Essa questão é para você refletir!

TÓPICO 2 | O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA ESPANHOLA

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LEITURA COMPLEMENTAR

INDEPENDÊNCIA NA AMÉRICA ESPANHOLA

Érica Turci

Lutas europeias disseminaram ideal de liberdade

Quando Napoleão Bonaparte resolveu atacar a Espanha em 1808, a maioria do povo da distante América espanhola não sabia que esse ato iria interferir diretamente em seu destino. E não se trata de defender a teoria popular do chamado efeito borboleta, segundo a qual o bater de asas de uma borboleta aqui pode causar um tufão do outro lado do mundo.

Mas a verdade é que alguns acontecimentos do final do século XVIII que repercutiam na Europa influenciaram diretamente as lutas pela independência das colônias espanholas da América, em que pese o tempo que as informações gastavam para se deslocar de um continente a outro.

Entre esses acontecimentos, devem ser lembrados especialmente a Revolução Industrial na Inglaterra, a Independência das 13 Colônias Inglesas, a Revolução Francesa, as Guerras Napoleônicas e, na América Central, a Independência do Haiti: todos eles, a seu modo, movimentos deflagradores de uma nova consciência social.

O contexto da luta

Os criollos eram a elite americana descendente de espanhóis, excluída dos altos cargos dirigentes, embora constituíssem a classe dos grandes proprietários de terras, dos arrendatários de minas, dos comerciantes e dos pecuaristas. Manifestavam suas insatisfações desde meados do século 18 e, influenciados pelo Iluminismo, iam forjando aos poucos um nacionalismo contrário ao domínio espanhol.

A Guerra de Independência dos Estados Unidos serviu de exemplo para os colonos latino-americanos, pois, pela primeira vez, colônias da América lutaram por sua independência e foram bem-sucedidas. Traduções de textos e transcrições de discursos dos “pais da independência” dos EUA circulavam por toda a América colonial, fomentando ainda mais a revolta dos criollos contra a coroa espanhola.

A posição da Espanha nesse conflito, a favor da independência dos colonos ingleses, foi uma contradição inusitada, pois o apoio às ideias liberais dos colonos da América do Norte chocava-se com a administração monopolista sustentada nas colônias americanas.

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O “imbróglio diplomático”

A Espanha, nessa época, vivia uma situação diplomática difícil. Desde que a família Bourbon, de origem francesa, assumiu o trono espanhol em 1700, as coroas dos dois países fizeram alianças, chamadas de Pactos de Famílias, para garantir a concorrência de ambas diante do crescente poderio econômico britânico. Tais alianças eram uma resposta à Inglaterra, que nessa época dava início à Revolução Industrial, e buscava ampliar o mercado consumidor para seus produtos.

Diante dessa situação, quando se iniciou a Guerra de Independência dos Estados Unidos, França e Espanha viram-se obrigadas a apoiar os colonos rebeldes, o que só fez aumentar a insatisfação dos colonos latino-americanos, que não entendiam como a Espanha podia, ao mesmo tempo, ser a favor e contra a liberdade colonial.

A Revolução Francesa também se tornou um marco no processo de independência da América espanhola por vários fatores. Primeiro, por divulgar a liberdade, a igualdade, o constitucionalismo, o republicanismo, ideais fundamentais nos discursos dos líderes criollos. Mesmo que muitos deles vissem no radicalismo dos jacobinos um exemplo perigoso, que poderia levar as massas de trabalhadores - indígenas, mestiços, negros e mulatos - a lutarem também por seus direitos.

Confirmando esse receio, quando ocorreram as guerras pela Independência do Haiti, as elites coloniais conheceram quão poderosas eram as ideias de liberdade e igualdade anunciadas pela Revolução Francesa, mas também o grau de agressividade liberado numa rebelião de grupos explorados. Os criollos, que temiam mais do que tudo as rebeliões populares, tiveram então de organizar sua luta pela independência colonial, ao mesmo tempo em que submetiam as massas populares, garantindo, assim, a manutenção dos seus privilégios.

Quando em 1791, o rei Luís XVI foi deposto pela Revolução Francesa, a Espanha se uniu à Grã-Bretanha numa coalizão contra a França, mas foi derrotada e obrigada a assinar, em 1795, o Tratado da Basileia, abrindo caminho para uma nova aproximação entre espanhóis e franceses, consolidada um ano depois pelo Tratado de Santo Ildefonso.

A aliança com a França foi uma catástrofe para os espanhóis. A derrota dos franceses e seus aliados em Trafalgar, em 1805, aniquilou a marinha espanhola, dificultando a comunicação entre a Espanha e suas colônias da América. Ao mesmo tempo, a maciça presença de militares franceses em solo espanhol fragilizou a coroa, a ponto de Napoleão Bonaparte forçar a abdicação do rei Carlos 4º e de seu filho Fernando 7º, e impor seu irmão, José Bonaparte, como rei da Espanha.

TÓPICO 2 | O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA ESPANHOLA

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Em reação às exigências de Bonaparte e ao domínio francês, formaram-se Juntas Governativas a favor de Fernando VII, que imediatamente passaram a instigar os colonos hispano-americanos a fazerem o mesmo. Essa estratégia foi eficaz, pois quando Napoleão enviou representantes para a América, com o intuito de convencer os colonos a apoiarem o novo governo, estes se mantiveram fiéis ao rei espanhol deposto.

Em guerra com a Inglaterra, a França não conseguia estabelecer controle sobre a América. Percebendo isso, Napoleão mudou de estratégia, passando a incentivar a independência hispano-americana.

1808 a 1814: as Juntas Governativas

As Juntas Governativas, formadas a partir dos cabildos (assembleias) americanos, apesar de jurarem fidelidade a Fernando VII, na prática constituíam governos autônomos. Em muitas colônias americanas a rivalidade entre criollos e chapetones se ampliou, ocasionando inúmeras rebeliões. Os criollos, então, foram se organizando aos poucos, para poderem governar os cabildos e expulsar os espanhóis de seus territórios, ao mesmo tempo em que submetiam as rebeliões populares.

Sem a fiscalização metropolitana, o contrabando aumentou e os navios ingleses e estadunidenses passaram a suprir os mercados coloniais. Os criollos, conscientes de sua autonomia política e econômica, além de fortemente inspirados pela Declaração de Independência dos Estados Unidos e pela Declaração dos Direitos do Homem, iniciaram suas lutas pela liberdade, até que, em 1810, a Venezuela, a Argentina, a Colômbia, o México e o Chile se declararam independentes.

A restauração dos Bourbons e a reação americana

Em 1813, ao recuperar o trono espanhol, Fernando VII buscou restabelecer a ordem absolutista espanhola e revogou toda e qualquer lei promulgada pelas Juntas Governativas. Essa orientação passou a valer tanto na Espanha, com a revogação da Constituinte Cortes de Cádis, quanto na América, e deu início a um processo de perseguição aos liberais que restabeleceu, inclusive, a Inquisição.

Na América, a política de perseguição de Fernando VII só fez inflamar ainda mais as revoltas, que a essa altura já aconteciam em diferentes pontos do continente. Os colonos, entretanto, não agiam de forma conjunta, inclusive porque as elites criollas tinham interesse em se manter senhoras de suas próprias regiões. A imensidão do território americano, o isolamento dos povoados e suas características geográficas distintas contribuíram para que cada colônia adotasse estratégia diferente na guerra contra os espanhóis.

UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

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Não perdurou muito essa situação, e a partir de 1825, com o apoio da Inglaterra e dos Estados Unidos, interessados que estavam na abertura de novos mercados, grande parte da América já era composta por países independentes.

*Érica Turci é historiadora e professora de história formada pela USP.

FONTE: Disponível em: <http://educacao.uol.com.br/historia/independencia-america-espanhola.jhtm>. Acesso em: 16 nov. 2010.

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RESUMO DO TÓPICO 2Neste tópico, você pôde:

● Perceber que o processo de independência das colônias hispano-americanas recebeu influências externas.

● Conhecer os motivos que levaram a América espanhola a uma fragmentação política.

● Conhecer a atuação política dos principais líderes do processo de independência na América espanhola.

● Identificar a participação inglesa e estadunidense na consolidação da independência das colônias espanholas.

102

AUTOATIVIDADE

Com base no Tópico 2, responda:

1 Sobre a independência das colônias espanholas marque as alternativas corretas e some os números correspondentes:

01) Foram influenciadas pelas ideias de independência dos Estados Unidos.02) As ideias de liberdade, igualdade e fraternidade promovidas no movimento

iluminista.04) Foram motivadas por razões exclusivamente ligadas às elites americanas.08) As rivalidades entre chapetones e crioulos.16) Foram motivadas pela Independência do Brasil, proclamada em 1822.Soma:___________

2 Cite e explique dois fatores que justificam o fracasso da ideia de Simon Bolívar de unir a América.

3 Explique por que, para a Inglaterra, era mais vantajoso uma América espanhola dividida do que unida.

4 Assinale a alternativa CORRETA:

a ( ) A consolidação da emancipação da América Colonial contou com o apoio e com o reconhecimento da Inglaterra e dos Estados Unidos.

b ( ) Os Estados Unidos, logo após a sua independência, começaram a influir nas questões sociais, políticas e econômicas dos países em fase de independência.

c ( ) Na Colômbia, em dezembro de 1819, foi votada uma constituição que nomeava Simon Bolívar presidente, em regime democrático, da União dos Estados Unidos da Colômbia.

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TÓPICO 3

OS ESTADOS UNIDOS: “OS GUARDIÃES DA AMÉRICA”

UNIDADE 2

1 INTRODUÇÃOInicialmente, gostaríamos de observar que quando utilizamos a expressão

“Guardiães da América” é para caracterizar a atitude dos Estados Unidos de salvaguardar a América para os seus interesses econômicos.

Portanto, não vá pensar que o fato dos Estados Unidos defenderem a independência política das antigas colônias americanas significava, também, defender a autonomia econômica dessas regiões. Veremos, a seguir, o que ocorre o contrário.

Nesse tópico, gostaríamos de apresentar a você a Doutrina Monroe e o Big Stick, duas políticas econômicas que proporcionaram aos Estados Unidos lançar os alicerces de uma hegemonia política, econômica e cultural que persiste até os nossos dias.

2 A DOUTRINA MONROEEm algum momento de sua vida escolar, você deve ter ouvido a expressão

“A América para os americanos”. Pois é, essa expressão está diretamente associada à Doutrina Monroe.

UNI

Mas o que é essa Doutrina Monroe?

104

UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

Foi uma política proclamada pelos Estados Unidos em 1823, quando este país afirmava que não toleraria medidas recolonizadoras do Velho Mundo nas antigas colônias.

[...] a suspeita de que a França pudesse estar pensando numa intervenção militar na América espanhola; a certeza de que a Inglaterra se opunha a tal intervenção; e as pretensões destas e de outras potências europeias de decretar o destino da América espanhola – que deram origem a determinados trechos da mensagem presidencial de dezembro de 1823 ao Congresso dos Estados Unidos, que ficou conhecida como Doutrina Monroe. Esta enfatizou a diferença entre o sistema político europeu e o da América e declarou que qualquer interferência europeia com o objetivo de oprimir ou controlar os governos independentes no hemisfério ocidental podia ser considerada a expressão de uma atitude inamistosa para com os Estados Unidos. (BETHELL, 2004b, p. 251).

Tal atitude arrebanhou uma série de simpatizantes à Doutrina Monroe, pois juntamente com a poderosa frota naval inglesa, os Estados Unidos passaram a patrulhar o Atlântico. Estava assegurado o mercado consumidor americano para as poderosas indústrias inglesas e, ao mesmo tempo, para a incipiente indústria estadunidense.

UNI

E aí, caro(a) acadêmico(a), eles foram ou posaram de protetores?Já refletiu sobre isso?

Porém esse posicionamento favorável às diretrizes concernentes à Doutrina Monroe não foi unânime, pelo contrário,

As potências europeias não reagiram muito bem ao fato de serem advertidas pelos Estados Unidos a manter as mãos longe do continente americano. Além disso, a enunciação da Doutrina Monroe parecia harmonizar-se, suspeitamente, com a determinação inglesa de agir com relação à América espanhola de modo independente das potências do continente. (BETHELL, 2004b, p. 251).

É importante registrar também que nessa época os Estados Unidos estavam longe de ser uma potência econômica, pois sua indústria estava em fase inicial e seu mercado consumidor era bastante reduzido.

TÓPICO 3 | OS ESTADOS UNIDOS: “OS GUARDIÃES DA AMÉRICA”

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FIGURA 19 – MURAL DA BATALHA DA INDEPENDÊNCIA EQUATORIANA. DOUTRINA MONROE DEFENDIA NAÇÕES INDEPENDENTES

FONTE: Disponível em: <http://www.klickeducacao.com.br/Klick_Portal/Enciclopedia/images/Mo/12632/4453.jpg>. Acesso em: 16 nov. 2010.

Lopes (1986) descreve a Doutrina Monroe como uma grande fanfarronice política, muito eficiente em termos de relações internacionais, ou seja, por intermédio dessa doutrina os Estados Unidos ampliaram seus domínios políticos e expandiram suas relações econômicas.

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UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

LEITURA COMPLEMENTAR

ESTADOS UNIDOS

A Doutrina Monroe, 1823

Em meio aos tumultos que explodiam por toda a América Latina a partir de 1810 - ocasionados pelas insurreições nativistas que buscavam a independência das suas regiões do domínio do império espanhol e do português -, surgiu um documento, aprovado pelo Congresso norte-americano em 1823, que fez história - a Doutrina Monroe. Ela tornou-se o pilar das relações dos Estados Unidos para com o mundo daquela época e para com os seus vizinhos. Mas, com o passar do tempo, ela serviu como pretexto para os mais variados intervencionismos norte-americanos no continente e áreas contíguas.

Contra a Santa Aliança

Em abril de 1823, cem mil soldados - “os filhos de S. Luís” - ocuparam a Espanha em nome da coligação legitimista dos soberanos europeus, a Santa Aliança. O monarca espanhol Fernando VII, ameaçado por um levante liberal, tratou de socorrer junto à aliança reacionária estabelecida em 1815 pelos imperadores da Rússia, Prússia, Áustria e pelo rei da França, quando asseguraram que as questões do Legitimismo (as prerrogativas das dinastias soberanas da Europa) estavam acima dos Direitos dos Povos (princípio defendido pela Revolução Francesa de 1789). Em outubro, Fernando VII recuperou seu trono e o poder graças às forças enviadas do exterior em seu amparo. A euforia reacionária ensejou que a Espanha fosse estimulada a retomar suas colônias americanas, então em franca rebelião contra a metrópole. Foi nesse clima pesado, de ameaça da retomada de uma política de recolonização forçada e de brutais represálias contra os líderes crioulos do Novo Mundo que o então presidente dos Estados Unidos, James Monroe, enviou ao Congresso americano uma mensagem que se consagrou como a Doutrina Monroe. Claramente, ela opunha-se à coligação ultraconservadora, engendrada pelos monarcas europeus no Congresso de Viena de 1815, e que formava uma nuvem escura de ameaças sobre a América convulsionada, lutando pela emancipação política.

Os princípios gerais da doutrina

Os princípios enumerados nela eram basicamente defensivos. Os Estados Unidos se colocavam como protetores das nações latino-americanas recém-emancipadas, repudiando qualquer intervenção armada programada pela Santa Aliança. A mensagem era uma advertência às potências europeias no sentido de que não tentassem reativar o domínio colonial sobre o continente, nem

TÓPICO 3 | OS ESTADOS UNIDOS: “OS GUARDIÃES DA AMÉRICA”

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interferissem nos princípios republicanos imanentes ao processo de emancipação: o Novo Mundo estava fechado a toda futura subordinação à Europa. Em síntese, a teoria contida na mensagem se baseia em três princípios gerais:

a) o continente americano não pode ser objeto de recolonização;b) é inadmissível a intervenção de qualquer país europeu nos negócios internos

ou externos de países americanos, e, finalmente;c) os Estados Unidos, em troca, se absterão de intervir nos negócios pertinentes

aos países europeus.

O propósito norte-americano

Na mensagem ao Congresso, James Monroe foi enfático em assegurar que:

“Com a existência de colônias ou dependências outras pertencentes a qualquer poder europeu nós não interferimos e seguiremos não interferindo. Mas no caso de um governo que já declarou sua independência e conseguiu sustentá-la e aqueles outros que já a conseguiram conquistar a sua independência anteriormente, com grande consideração e dentro de justos princípios, reconhecidos, nós não podemos aceitar nenhuma interposição com o propósito de oprimi-lo, ou controlá-lo de qualquer outra maneira o destino deles, por qualquer poder europeu, ou qualquer outro que assim o fizer, será visto como uma manifestação de uma disposição hostil em relação aos Estados Unidos.

Na guerra entre estes novos Governos e a Espanha nós declaramos a nossa neutralidade ao tempo em que ainda não atingiram o seu reconhecimento, e a isso nós nos apegamos e continuaremos nos apegando, e não alteraremos a nossa posição senão de acordo com o julgamento das autoridades competentes deste Governo (dos EUA), só havendo uma mudança da parte dos Estados Unidos se for indispensável a sua segurança.”

Uma determinação a ser seguida

A Doutrina Monroe teve um impacto histórico de longa duração, mas no momento de sua aprovação, os Estados Unidos, em verdade, bem pouca coisa poderiam fazer para a sua efetivação. Pouco mais de dez anos antes de sua aprovação, na guerra anglo-americana de 1812-14, um exército britânico chegara a ocupar e incendiar a capital do país, Washington, enquanto a esquadra inglesa era senhora absoluta dos mares. Em 1825, uma força franco-britânica bloqueara o Rio da Prata; em 1833, os britânicos ocuparam as Ilhas Malvinas, expulsando os argentinos delas, e, em 1840, a Lei Britânica imperou sobre todo o território de Belize na América Central, tudo isso sem que os Estados Unidos pudesse fazer algo de prático para evitá-lo. Em 1862, os Estados Unidos, dilacerados pela Guerra Civil, tiveram de assistir impotentes ao México passar momentaneamente

108

UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

para a órbita de Napoleão III e seu preposto, o imperador Maximiliano. Foi somente ao fim da Guerra da Secessão, em 1865, com a vitória do Norte seguida de um impressionante crescimento do poderio econômico dos Estados Unidos que a doutrina foi sendo posta em prática, mudando seu conteúdo à medida que se concretizava. De nítida inspiração progressista, passou a ser utilizada como justificativa intervencionista - como um disfarce para a subordinação de parte da América Latina, especialmente da região do Caribe e da América Central aos interesses econômicos e estratégicos de Washington.

FONTE: Disponível em: <http://educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/eua_monroe.htm >.

Acesso em: 16 nov. 2010.

3 O BIG STICK

Essa conduta política deve ser analisada a partir do contexto expansionista dos Estados Unidos e da Doutrina Monroe.

Seus alicerces estão fundamentados em dois princípios básicos:

● Corolário Onley (1825): seu objetivo era afirmar que Washington não toleraria nenhuma intervenção europeia na América, sem ser previamente consultado.

● Corolário Roosevelt (1904): iniciada na fase do presidente Roosevelt, em seu primeiro mandato (1933), expressava claramente a política imperialista estadunidense. Por intermédio desse princípio, os Estados Unidos tinham o direito de intervir nos assuntos dos países latino-americanos sempre que instabilidades internas se fizessem presentes.

Em nome da ordem interna, mas, sobretudo, em nome do capital, os Estados Unidos irão promover, a partir da década de 30, uma política fortemente imperialista. Suas intervenções pela América Latina serão registradas em países como o México e Cuba.

TÓPICO 3 | OS ESTADOS UNIDOS: “OS GUARDIÃES DA AMÉRICA”

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FIGURA 20 – ILUSTRAÇÃO ACERCA DA POLÍTICA DO BIG STICK

América não é dos americanos? Claro que é, mas vocês são sulamericanos!

FONTE: Disponível em: <http://www.historianet.com.br/imagens/thebigsticklaw.jpg>. Acesso em: 16 nov. 2010.

Lopes (1986, p.108) reproduz o depoimento do general Smedley D. Butler (datado de 1935), que por muito tempo esteve a serviço do Big Stick:

Passei 33 anos e 4 meses no serviço ativo, como membro da mais ágil força militar de meu país – o Corpo dos Fuzileiros Navais. Servi em todos os postos, de segundo-tenente a general. Durante tal período, passei a maior parte do meu tempo como guarda-costas de alta classe para os homens de negócios, para Wall Street e para os banqueiros. Em resumo, fui um quadrilheiro para o capitalismo. Foi assim que ajudei a transformar o México, especialmente Tampico, em lugar seguro para os interesses petrolíferos, em 1914. Ajudei a fazer de Cuba e Haiti um lugar decente para que os rapazes do National City Bank pudessem recolher os lucros... ajudei a purificar a Nicarágua para os interesses de uma casa bancária dos irmãos Brown, em 1909-1912. Trouxe à luz a República Dominicana para os interesses açucareiros norte-americanos, em 1916. Ajudei a fazer de Honduras um lugar “adequado” para as companhias frutíferas americanas, em 1903. Na China, ajudei a fazer com que a Standard Oil continuasse a agir sem ser molestada. Durante todos esses anos, eu tinha, como diriam os rapazes do gatilho, uma boa quadrilha. Fui recompensado com honrarias, medalhas, promoções. Voltando os olhos ao passado, acho que poderia dar a Al Capone algumas sugestões. O melhor que ele podia fazer era operar em três distritos urbanos. Nós, os fuzileiros, operávamos em três continentes. Com o depoimento acima, ficam claros os verdadeiros interesses da política do Big Stick e sua importância para a consolidação da Doutrina Monroe.

110

RESUMO DO TÓPICO 3

No Tópico 3, você pôde:

● Identificar e refletir sobre o desejo dos Estados Unidos em desenvolver políticas para a América Latina.

● Conhecer a Doutrina Monroe.

● Conhecer a política do Big Stick.

● Identificar alguns aspectos que levam os Estados Unidos a influírem, ainda hoje, nas questões relativas à América Latina.

111

Com base no Tópico 3, responda e reflita:

1 O fato de os Estados Unidos defenderem a independência política das antigas colônias americanas significava, também, defender a autonomia econômica dessas regiões? Explique sua resposta.

2 Como você analisa a expressão “América para os americanos”?

3 O que foi a política do Big Stick? Você acha que os Estados Unidos, hoje, fazem uso de políticas como essa? Explique.

AUTOATIVIDADE

112

113

TÓPICO 4

GUERRA DO PARAGUAI

UNIDADE 2

1 INTRODUÇÃOAté aqui estudamos o processo de independência das colônias americanas

e o surgimento de políticas que atrelaram à América Latina aos interesses econômicos e políticos da Inglaterra e dos Estados Unidos. Nesse tópico, iremos estudar a Guerra do Paraguai. Pode parecer um retorno, do ponto de vista cronológico da História, se comparada às políticas imperialistas inglesas e estadunidenses tratadas anteriormente, mas na verdade nosso interesse será caracterizar a guerra a partir desses interesses.

2 AS CAUSAS DA GUERRA: ANTECEDENTES HISTÓRICOSA Guerra do Paraguai ocorreu entre os anos de 1864 e 1870 e envolveu

diretamente o Brasil, Uruguai e Argentina (Tríplice Aliança) e indiretamente a Inglaterra. Portanto, podemos atribuir à guerra motivos internos e motivos externos.

Vejamos os motivos internos:

● A Bacia do Rio da Prata era uma região disputada pelos governos, sobretudo brasileiros e argentinos, porém passou também a ser disputada pelos paraguaios. O rio, além de ser de boa navegação, permitia o intercâmbio econômico entre esses países, fortalecendo suas economias.

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UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

FIGURA 21 – BACIA DO RIO DA PRATA

FONTE: Disponível em: <http://www.scipione.com.br/ap/ggb/img/atividades/imagens/2_5_M28_i.jpg>. Acesso em: 16 nov. 2010.

IMPORTANTE

Caro(a) acadêmico(a)! Chegou a hora de entrar em contato com a maior guerra travada em toda a América Latina. Portanto, fique atento(a), aqui você terá condições de compreender o Paraguai de hoje a partir do Paraguai de ontem.

TÓPICO 4 | GUERRA DO PARAGUAI

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● Outro fato que acirrou a guerra foi a pilhagem promovida por proprietários rurais uruguaios em fazendas e estâncias na fronteira gaúcha, situação que levou o Brasil a invadir o Uruguai em 1851 para derrubar o governo de Manuel Oribe e, em 1852, invadir o território argentino para destituir o ditador Manuel Rosas.

FIGURA 22 – RETRATO DE MANUEL ORIBE

FONTE: Disponível em: < http://www.portaluruguaycultural.gub.uy/wp-content/uploads/2009/12/Untitled-22.jpg >. Acesso em: 16 nov. 2010.

FIGURA 23 – JUAN MANUEL DE ROSAS

FONTE: Disponível em: < http://www.historiabrasileira.com/files/2009/12/Juan-Manuel-de-Rosas-217x300.jpg >. Acesso em: 16 nov. 2010.

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UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

Em 1862, morreu Carlos Antonio Lopez, e seu filho mais velho, Francisco Solano Lopez, ascendeu à presidência da República. A política isolacionista paraguaia até 1840, sob o governo de José Gaspar de Francia, contribuíra para manter a independência do país em relação a Buenos Aires e permitira ao Estado acumular riquezas na forma de produtos agrícolas e terras. Carlos Antonio López, por sua vez, colocou o aparelho estatal a serviço da nascente burguesia rural e restabeleceu os contatos de seu país com o exterior, importando da Europa, em especial da Inglaterra, maquinaria e técnicos, que promoveriam uma modernização voltada, sobretudo para o fortalecimento militar do Paraguai. A continuidade dessa modernização, porém, exigia a integração do país no comércio mundial e resultou na alteração da política externa paraguaia já sob a presidência de Solano López, no sentido de ter uma maior presença no Prata, de modo a obter um porto marítimo, o de Montevidéu. (DORATIOTO, 2002, p. 473).

FIGURA 24 – CARLOS ANTONIO LOPEZ

FONTE: Disponível em: <http://www.evp.edu.py/images/28-ar-38.png>. Acesso em: 16 nov. 2010.

Em 1864, o governo brasileiro volta a invadir o Uruguai, nesse momento comandado por Atanásio Aguirre.

O comandante do governo paraguaio, Francisco Solano López, passou

a apoiar Aguirre e a reivindicar os mesmos direitos dos países vizinhos na Bacia do Rio da Prata, fato que descontentou o governo brasileiro, que queria a hegemonia da região. O conflito se acirrou quando Solano Lopez, em 1864, mandou apreender o navio brasileiro Marquês de Olinda, que transitava pelo rio Paraguai. Em dezembro do mesmo ano, declara guerra ao Brasil e invade a província do Mato Grosso.

TÓPICO 4 | GUERRA DO PARAGUAI

117

FIGURA 25 – FRANCISCO SOLANO LÓPEZ

FONTE: Almanaque Abril, 2002

“Envolvido por uma guerra inesperada, o Império do Brasil foi surpreendido com o Exército despreparado a ponto de, seis meses depois de iniciada a luta, não ter conseguido tomar a ofensiva. Mato Grosso era a província mais isolada e indefesa do Brasil e tornou-se alvo fácil para a invasão paraguaia”. (DORATIOTO, 2002, p. 97).

Solano Lopes desejava expandir o território paraguaio, afinal vivia um momento de prosperidade econômica, o que exigia a expansão de seu mercado consumidor. Essa expansão implicava a invasão de terras do Uruguai, Argentina e Brasil, daí o porquê da formação da Tríplice Aliança. Em outras palavras, a confortável situação econômica paraguaia foi também a razão da sua desgraça.

Os ataques paraguaios a Mato Grosso e Corrientes viabilizaram a formação da aliança argentino-brasileira, à qual aderiu o Uruguai governado por Venâncio Flores. A aliança contra o Paraguai era parte de uma aliança maior, planejada por Mitre antes desses ataques, pela qual Argentina e Brasil estabeleceriam uma política de cooperação no Prata, exercendo uma hegemonia compartilhada em substituição às rivalidades e disputas que predominaram nas relações entre os dois países. Em 1 de maio de 1865, foi assinado, em Buenos Aires, o Tratado da Tríplice Aliança, contra Solano López, que estabelecia as condições da paz e também deveria servir de base para ‘que façamos [Argentina e Brasil] uma aliança perpétua, baseada na justiça e na razão, que será abençoada por nossos filhos. (DORATIOTO, 2002, p. 157).

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UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

UNI

Mas você deve estar se perguntando: onde entra o Paraguai nessa história?

Quando ouvimos falar no Paraguai, de que nos lembramos? Geralmente, lembramos do Paraguai como sendo um país com grandes problemas sociais (miséria e fome). Mas o Paraguai nem sempre foi assim.

FIGURA 26 – CASA DO PRESIDENTE DO PARAGUAI SOLANO LÓPEZ EM HUMAITÁ

FONTE: Almanaque Abril, 2002

Vejamos algumas características que faziam do Paraguai um país bem diferente dos seus vizinhos:

● Em 1823, realizou o primeiro esboço de Reforma Agrária, quando muitas famílias foram autorizadas a utilizarem as terras do Estado.

● Quase todas as crianças iam à escola, onde as melhores iam estudar, por conta do governo paraguaio, em escolas europeias. Muitos voltavam engenheiros, químicos, professores etc.

● Era o único país da América Latina que não se encontrava sob a égide do capital inglês, isto é, não tinha dívidas com a Inglaterra.

● Estava em franca expansão industrial, portanto, não era um país calcado numa economia essencialmente agrícola, diferente de seus vizinhos. A escravidão e o latifúndio não faziam parte do cenário socioeconômico do Paraguai.

TÓPICO 4 | GUERRA DO PARAGUAI

119

Essa característica, além de ameaçar o mercado consumidor inglês na América, ameaçava também os interesses econômicos de uma elite que vivia atrelada à escravidão e ao latifúndio.

UNI

Caro(a) acadêmico(a)! Você consegue imaginar por que o Paraguai não era bem visto pelos seus vizinhos e pela Inglaterra?

2.1 O PARAGUAI DEPOIS DA GUERRA

A guerra foi um verdadeiro genocídio. Um número expressivo de adultos foram mortos, pois as tropas da Tríplice Aliança não faziam prisioneiros, a ordem era matar todos os paraguaios. Cabe registrar, aqui, que o Patrono do Exército brasileiro – Duque de Caxias – foi quem comandou as tropas da Tríplice Aliança.

FIGURA 27 – DUQUE DE CAXIAS

FONTE: Disponível em: <http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/guerra-do-paraguai/imagens/guerra-do-paraguai-3.jpg >. Acesso em: 16 nov. 2010.

120

UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

Como ficou o Paraguai? Arrasado!

Vejamos algumas características do Paraguai pós-guerra:

● Cerca de 40% do seu território foi dominado pela Argentina e pelo Brasil.

● A política fundiária retornou aos tempos do latifúndio.

● O Paraguai teve que pagar uma grande dívida de guerra, que no caso do Brasil foi perdoada no Estado Novo de Getúlio Vargas.

● O Paraguai passou a contrair dívidas com bancos ingleses.

Enfim, não exageramos quando falamos que a difícil situação do Paraguai

hoje é uma herança desse período.

TÓPICO 4 | GUERRA DO PARAGUAI

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LEITURA COMPLEMENTAR

GUERRA DO PARAGUAI

Tríplice Aliança entre Argentina, Brasil e Uruguai

Renato Cancian

Durante o período monárquico, o Brasil se envolveu em três conflitos internacionais com países fronteiriços situados ao sul, na região Platina. A Guerra do Paraguai, porém, foi o mais longo e violento. Começou em 1864 e terminou em 1870, com a derrota do Paraguai para os países que formaram a chamada Tríplice Aliança: o Brasil, a Argentina e o Uruguai.

A principal causa da guerra está relacionada às tentativas do governo do ditador paraguaio, Francisco Solano López, de colocar em prática uma política expansionista, com o objetivo de ampliar o território do seu país, apossando-se de terras dos países vizinhos e ter acesso ao mar pelo porto de Montevidéu.

Solano López pretendia formar o Grande Paraguai, a partir da invasão e anexação do Uruguai, de partes do território argentino e das províncias brasileiras do Rio Grande do Sul e Mato Grosso. Não obstante, uma vez iniciado o conflito armado, os países que formaram a Tríplice Aliança procuraram defender seus respectivos interesses e se impor como potências regionais.

O Grande Paraguai

Estudos historiográficos contemporâneos têm contribuído para melhor compreensão do conflito armado, de modo a refutar algumas hipóteses e teses acadêmicas e desmistificar as versões oficiais construídas pelos Estados soberanos envolvidos. Na verdade, todos os Estados envolvidos tinham informações parciais e até mesmo falsas sobre a capacidade e força militar do inimigo e avaliaram equivocadamente que o conflito armado seria um método rápido e, de certo modo, pouco custoso para solução do litígio regional.

O Paraguai, país que saiu derrotado do conflito, não tinha condições sociais, econômicas e militares para sustentar uma guerra de longa duração contra os países platinos. Portanto, podemos afirmar que foi um erro estratégico da elite política paraguaia partir para a solução armada.

Dados referentes à situação social do Paraguai indicam que a sociedade paraguaia era mais tradicional e rural do que urbana e moderna, era arcaica e extremamente desigual, com altos índices de analfabetismo.

122

UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

A população paraguaia era composta de cerca de 650 mil habitantes, no máximo (sendo que cerca de 25 mil eram escravos), a do Brasil era de cerca de 9.100.000 habitantes, a da Argentina, cerca de 1.737.000 habitantes, e a do Uruguai, perto de 250.000 habitantes.

A economia do Paraguai era extremamente fraca, o país importava a maioria dos produtos manufaturados de que necessitava. Comparando as estatísticas referentes ao comércio exterior dos países da Região Platina (um importante indicador do dinamismo da economia), o comércio exterior do Paraguai chegava a 560.392 libras esterlinas (moeda britânica da época) e os indicadores da arrecadação de impostos, cuja estrutura era considerada deficiente, apontam para a cifra de 314.420 libras esterlinas.

A título de comparação: no Brasil, a arrecadação de impostos atingia 4.392.226 libras esterlinas; na Argentina, cerca de 1.710.324 libras esterlinas; e no Uruguai, 870.714 libras esterlinas.

Em termos militares, o Paraguai não possuía grande efetivo militar, nem mesmo organização militar moderna. Os soldados eram mal preparados, os armamentos eram arcaicos. A estrutura logística do exército era extremamente deficiente, pois carecia de atendimento hospitalar e adequado fornecimento de provisões, alimentos e munições.

O estopim do conflito

Desde sua independência, os governantes paraguaios afastaram o país dos conflitos armados na região Platina. A política isolacionista paraguaia, porém, chegou ao fim com o governo do ditador Francisco Solano López.

Em 1864, o Brasil estava envolvido num conflito armado com o Uruguai. Havia organizado tropas, invadido e deposto o governo uruguaio do ditador Aguirre, que era líder do Partido Blanco e aliado de Solano López. O ditador paraguaio se opôs à invasão brasileira do Uruguai, porque contrariava seus interesses.

Como retaliação, o governo paraguaio aprisionou no porto de Assunção o navio brasileiro Marquês de Olinda e, em seguida, atacou Dourados, na então província de Mato Grosso. Foi o estopim da guerra. Em maio de 1865, o Paraguai também fez várias incursões armadas em território argentino, com objetivo de conquistar o Rio Grande do Sul. Contra as pretensões do governo paraguaio, o Brasil, a Argentina e o Uruguai reagiram, firmando o acordo militar chamado de Tríplice Aliança.

TÓPICO 4 | GUERRA DO PARAGUAI

123

As batalhas da Guerra do Paraguai

A guerra do Paraguai durou seis anos, período durante o qual se travaram várias batalhas. As forças militares brasileiras, chefiadas pelo almirante Barroso, venceram a batalha do Riachuelo, libertando o Rio Grande do Sul. Em maio de 1866, ocorreu a batalha de Tuiuti, que deixou um saldo de 10 mil mortos, com nova vitória das tropas brasileiras.

Em setembro, porém, os paraguaios derrotam as tropas brasileiras na batalha de Curupaiti. Desentendimentos entre os comandantes militares argentinos e brasileiros levaram o imperador Dom Pedro II a nomear Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, para o comando geral das tropas brasileiras. Ainda assim, em 1867, a Argentina e o Uruguai se retiram da guerra. Ao lado de Caxias, outro militar brasileiro que se destacou na campanha do Paraguai foi o general Manuel Luís Osório.

Sob o comando supremo de Caxias, o exército brasileiro foi reorganizado, inclusive com a obtenção de armamentos e suprimentos, o que aumentou a eficiência das operações militares. Fortalecido e sob inteiro comando de Caxias, as tropas brasileiras venceram sucessivas batalhas, decisivas para a derrota do Paraguai. Destacam-se as de Humaitá, Itororó, Avaí, Angostura e Lomas Valentinas.

Vitória brasileira

No início de 1869, o exército brasileiro tomou Assunção, capital do Paraguai. A guerra chegou ao fim em março 1870, com a Campanha das Cordilheiras. Foi travada a batalha de Cerro Corá, ocasião em que o ditador Solano López foi perseguido e morto.

Vale lembrar que, a essa altura, Caxias considerava a continuidade da ofensiva brasileira uma carnificina e demitiu-se do comando do exército, que passou ao conde d’Eu, marido da princesa Isabel. A ele coube conduzir as últimas operações.

Consequências da guerra

Para o Paraguai, a derrota na guerra foi desastrosa. O conflito havia levado à morte cerca de 80% da população do país, na sua maioria homens. A indústria nascente foi arrasada e, com isso, o país voltou a dedicar-se quase que exclusivamente à produção agrícola.

124

UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

A guerra também gerou um custoso endividamento do Paraguai com o Brasil. Essa dívida foi perdoada por Getúlio Vargas. Mas os encargos da guerra e as necessidades de recursos financeiros levaram o país à dependência de capitais estrangeiros.

A Guerra do Paraguai também afetou o Brasil. Economicamente, o conflito gerou muitos encargos e dívidas que só puderam ser sanados com empréstimos estrangeiros, o que fez aumentar nossa dependência em relação às grandes potências da época (principalmente a Inglaterra) e a dívida externa. Não obstante, o conflito armado provocou a modernização e o fortalecimento institucional do Exército brasileiro.

Com a maioria de seus oficiais comandantes provenientes da classe média urbana, e seus soldados recrutados entre a população pobre e os escravos, o exército brasileiro tornou-se uma força política importante, apoiando os movimentos republicanos e abolicionistas que levaram ao fim do regime monárquico no Brasil.

Observação - O estudo historiográfico mais recente e abalizado sobre a Guerra do Paraguai é “Maldita Guerra”, de Francisco Doratioto (Companhia das Letras, São Paulo, 2002). A obra “O Genocídio Americano”, de Júlio Chiavenatto, que marcou época nos estudos sobre a questão, atualmente é considerada ideológica e ultrapassada, em especial porque se fundamenta numa interpretação que não se comprova com os fatos. Por exemplo, Chiavenatto afirma que o Brasil agiu como defensor dos interesses imperialistas ingleses no continente. Na época do início da guerra, o Brasil estava com relações diplomáticas rompidas com a Inglaterra, em função da Questão Christie.

Renato Cancian é cientista social, mestre em sociologia-política e doutorando em Ciências Sociais, é autor do livro “Comissão Justiça e Paz de São Paulo: Gênese e Atuação Política - 1972-1985” (Edufscar).

FONTE: Disponível em: <http://educacao.uol.com.br/historia-brasil/ult1689u43.jhtm>. Acesso em: 16 nov. 2010.

125

RESUMO DO TÓPICO 4

No Tópico 4, você pôde:

● Identificar as razões que levaram à Guerra do Paraguai.

● Perceber que o Paraguai era uma grande potência no século XIX, e que representava uma ameaça aos interesses imperialistas dos Estados Unidos e da Inglaterra.

● Conhecer a estrutura social e econômica do Paraguai antes da guerra.

● Identificar os problemas vividos pelo Paraguai no período imediatamente posterior à guerra.

● Refletir sobre a situação do Paraguai hoje a partir da guerra.

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Com base no Tópico 4, responda:

1 Quais são as causas fundamentais da Guerra do Paraguai?

2 Explique por que o Paraguai não era um bom exemplo para seus países vizinhos.

3 É correto afirmar que o Paraguai representava uma ameaça aos interesses ingleses na América Latina? Explique sua resposta.

AUTOATIVIDADE

127

UNIDADE 3

A AMÉRICA NO SÉCULO XX

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM

PLANO DE ESTUDOS

A partir desta unidade, você será capaz de:

• refletir sobre o governo de Perón e, consequentemente, compreender o porquê de sua popularidade até os dias de hoje;

• compreender as razões que levaram Cuba à Revolução Socialista de 1959;

• perceber que a Revolução Cubana passou a ser uma ameaça ao Bloco Capitalista na América durante os anos de Guerra Fria;

• identificar e refletir sobre as razões que levaram alguns países latino-ame-ricanos a viverem o terror das ditaduras militares;

• analisar as razões que motivaram o surgimento de blocos econômicos na América e, a partir disso, refletir sobre sua real importância para o fortale-cimento econômico da América Latina.

A presente unidade de ensino está dividida em quatro tópicos. Em cada um deles, você encontrará atividades que contribuirão para a apropriação dos conteúdos.

TÓPICO 1 – A ARGENTINA E O PERONISMO

TÓPICO 2 – A REVOLUÇÃO CUBANA

TÓPICO 3 – AS DITADURAS DA AMÉRICA LATINA

TÓPICO 4 – OS BLOCOS ECONÔMICOS AMERICANOS

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129

TÓPICO 1

A ARGENTINA E O

PERONISMO

UNIDADE 3

1 INTRODUÇÃOEmbora nosso objetivo aqui seja o de mostrar a Argentina nos tempos do

peronismo, acreditamos que não seria correto deixar de levar até você, caro(a) acadêmico(a), uma breve comparação, em nível econômico e político, entre Juan Domingo Perón e Getúlio Vargas, dois estadistas que influenciaram e influenciam até hoje a história da América Latina.

Inicialmente, descreveremos um pouco sobre a situação econômica dos dois países, na tentativa de justificar o surgimento político de Juan Perón e Getúlio Vargas. Posteriormente, iremos caracterizar um período que ficou conhecido na história da Argentina como “Década Infame”.

Por fim, iremos nos deter exclusivamente à vida política de Juan Perón, descrevendo o período que compreende o seu primeiro mandato até a sua queda.

Vamos lá?

2 ARGENTINA E BRASIL: UMA BREVE COMPARAÇÃOHistoricamente, Brasil e a Argentina apresentam uma economia na qual

a exportação de produtos agrícolas representa uma parcela considerável na economia desses países. Essa característica não diverge muito da função atribuída a eles ao longo do período colonial.

Nas primeiras três décadas do século XX, o cenário econômico era basicamente o mesmo, porém ambos os países começavam a mostrar sinais de desenvolvimento industrial. Os investimentos provinham de recursos de gêneros agrícolas de exportação.

No caso da Argentina, os produtos mais exportados eram trigo, carne e couro. Por outro lado, no Brasil, os recursos investidos no setor industrial provinham do excedente de capital da produção de café, principal produto de exportação.

UNIDADE 3 | A AMÉRICA NO SÉCULO XX

130

A crise de 1929, nos Estados Unidos, e a consequente quebra da Bolsa de valores de Nova York, afetaram a economia em âmbito mundial, inclusive as mais frágeis, como era o caso das economias latino-americanas. Uma grande quantidade de pequenas fábricas e agricultores dependentes do mercado externo, sobretudo dos Estados Unidos, entrou em falência. O Brasil e a Argentina não foram exceções.

Acredita-se, que a economia argentina sentiu menos os efeitos da crise do que a economia brasileira.

Mesmo frente às dificuldades do mercado internacional, tanto o Brasil quanto a Argentina já contavam com um contingente operariado bastante expressivo.

O primeiro surto industrial do século XX ocorreu no período correspondente à Primeira Guerra Mundial. Em decorrência da impossibilidade de países europeus envolvidos direta ou indiretamente no conflito, fornecerem seus produtos industrializados, agora seus antigos consumidores, viram-se obrigados a fomentar a produção daquelas mercadorias.

Portanto, esse fato contribuiu inclusive para o processo de industrialização de países como o Brasil e Argentina, constituindo-se de uma camada operária significativa.

A Argentina exportava trigo e artigos pecuários, cuja necessidade assegurava a receptividade no mercado, diferentemente do café, produzido no Brasil cujo consumo não era prioritário.

Por outro lado, o trigo é uma cultura anual e a pecuária, embora não tendo ciclo tão rápido como o trigo, igualmente não é uma cultura perene. Em resumo, nos momentos de retração do mercado externo, a Argentina sempre teve a vantagem de poder, mais facilmente que o Brasil, planificar a oferta de seus produtos exportáveis. (LOPES, 1986, p. 144).

O Brasil, ao contrário, possuía uma economia exportadora, baseada exclusivamente no café.

NOTA

Pense bem! Em tempos de crise, se você tivesse que optar entre o café, o trigo e a carne, qual produto que você deixaria de consumir?

TÓPICO 1 | A ARGENTINA E O PERONISMO

131

NOTA

Vale destacar que o operariado argentino era mais politizado que o operariado brasileiro.

Para Lopes (1986), isso se deve ao fato de os imigrantes que foram para a Argentina possuírem origem urbana, ao contrário das populações de imigrantes que vieram para o Brasil, que em sua maioria eram oriundos de regiões agrícolas.

Durante os anos de 1910 e 1920, o operariado argentino, organizado em sindicatos e partidos políticos, obteve grandes avanços trabalhistas, como redução nas jornadas de trabalho, melhores condições nas fábricas, salário mínimo e direito de se organizarem em sindicatos.

Cabe registrar que grande parte das conquistas sociais do operariado argentino foi resultado de um esforço do próprio Estado, preocupado em investir na classe operária. Infelizmente, o rápido avanço nas questões sociais iria retroceder rapidamente nos anos 30, na chamada “Década Infame”, fato que contribuirá para a ascensão do peronismo. Mas, isso é assunto para mais adiante.

No Brasil, pelo fato da indústria ser ainda muito incipiente, não apresentava um operariado muito expressivo e tampouco organizado em sindicatos ou associações.

Durante as primeiras três décadas do século XX, o Brasil ainda era uma República de Coronéis e as leis que regulamentavam o trabalho nas fábricas ainda estavam longe de serem implementadas.

Com a Revolução de 30 e a ascensão de Vargas ao poder, o processo de industrialização avançou e as regulamentações das leis do trabalho tornaram-se prioridades no governo.

Não vá pensar que o operariado brasileiro era totalmente desprovido de sentimento político. Afinal, as ideias marxistas também já eram conhecidas e praticadas por alguns segmentos sociais no Brasil.

Enfim, Juan Perón e Getúlio Vargas surgiram no cenário político num momento histórico em que tanto a Argentina quanto o Brasil estavam deixando para trás a tradicional e arcaica economia agrícola exportadora, para se lançarem no processo de modernização de suas economias, ou seja, se lançarem rumo à industrialização.

UNIDADE 3 | A AMÉRICA NO SÉCULO XX

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DICAS

Caro(a) acadêmico(a)! Para você compreender melhor a queda das oligarquias, em especial no Brasil, sugiro como leitura complementar o clássico “A Revolução de 1930”, de Boris Fausto. São Paulo: Brasiliense, 1970.

3 A ASCENSÃO DO PERONISMONossa preocupação até aqui foi mostrar rapidamente o cenário que

contribuiu para o surgimento de Perón e Vargas. Agora trataremos exclusivamente do período da história política de Perón, de sua ascensão à sua queda.

FIGURA 28 – PERÓN

FONTE: Disponível em: <http://blogs.estadao.com.br/ariel-palacios/files/2010/02/blogperonbrazos.jpg>. Acesso em: 19 nov. 2010.

Vamos começar pela já mencionada “Década Infame”.

Em outras palavras, o momento era propício para o surgimento de governantes que rompessem com as velhas oligarquias, em nome da modernização.

TÓPICO 1 | A ARGENTINA E O PERONISMO

133

3.1 A DÉCADA INFAME

Infame significa algo desonroso, vil ou desprezível. É assim mesmo que podemos classificar a década de 30 do século XX na Argentina: um período de total retrocesso, tanto nas questões políticas como nas conquistas sociais. Fique atento(a) ao que vem por aí, caro(a) acadêmico(a). Você terá a sensação de que a Argentina estará voltando aos tempos coloniais.

Após Irigóyen, presidente argentino que contribuiu para o progresso das conquistas sociais, a Argentina passou a ser governada por políticos preocupados em eliminar as conquistas sociais e torná-lo um país dependente do mercado externo.

Já no início dos anos 30, a Argentina assinou um pacto com a Inglaterra denominado de Roca-Runcíman. Por esse pacto, assinado no governo de Uriburu, os britânicos obtiveram grandes vantagens em terreno argentino, sobretudo no setor de transporte de tarifas aduaneiras. O único compromisso assumido pela Inglaterra foi a importação da carne, claro que respeitando suas demandas no mercado interno.

Mais lamentável ainda foram as medidas retrógradas adotadas por Uriburu, que acabou com o salário mínimo e ainda desmobilizou o movimento operário, ordenando o fechamento dos sindicatos. Enfim, a Argentina, ao contrário de seus vizinhos, vivia um retrocesso político bastante acentuado.

Através dessas medidas, o país tornava-se lenta e progressivamente dependente dos governos ingleses, fato que descontentava diversos segmentos nacionalistas na Argentina.

Diante dessa infame situação, os militares da ala mais nacionalista, pertencentes ao GOU (Grupo de Oficiais Unidos), assumiram o poder em 1943. O compromisso dos militares era devolver a moralização, desenvolver a modernização e restaurar a democracia no país.

É nesse cenário que aparece para o povo um jovem oficial do GOU chamado Juan Domingo Perón, no momento Secretário do Trabalho.

De posse da Secretaria do Trabalho, Perón tratou de devolver as antigas conquistas sociais. Devolveu as leis trabalhistas conquistadas antes do governo infame de Uriburu e aumentou salários.

UNIDADE 3 | A AMÉRICA NO SÉCULO XX

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FIGURA 29 – JOSE FELIX URIBURU

FONTE: Disponível em: <http://todo-argentina.net/biografias/Personajes/imagenes/uriburu.jpg>. Acesso em: 19 nov. 2010.

A partir daí, seu carisma junto às massas aumentou expressivamente, fato que desagradou à junta militar que governava a Argentina. Perón foi destituído e preso em 1945. O operariado mobilizado por Evita Perón organizou uma manifestação em frente à Casa Rosada e Perón acabou solto.

Seu carisma crescia a cada dia e a consequência dessa popularidade não poderia ser outra. Perón foi eleito presidente em 1946. Começaria o seu primeiro mandato. Mas isso é o que veremos a seguir.

3.2 OS DOIS MANDATOS DE PERÓN

Veja a seguir, como foram os dois mandatos de Perón.

Até aqui você já deve ter percebido uma grande semelhança entre os objetivos políticos de Perón e de certa forma deve lembrar-se de Getúlio Vargas. Por isso, fizemos questão de registrar, no início desse tópico, a semelhança social, econômica e política de dois países em transformação. A partir de agora, nossa intenção é a de descrever como se sucederam os dois mandatos exercidos por Perón.

ATENCAO

TÓPICO 1 | A ARGENTINA E O PERONISMO

135

O primeiro mandato (1946-1950) pode ser caracterizado como um período em que a Argentina vivia uma tranquilidade econômica bastante expressiva. O país possuía divisas acumuladas e as exportações de gêneros agrícolas encontravam farto mercado consumidor.

As conquistas sociais foram mantidas e ainda ampliadas, o que garantia a solidez e a legitimidade de seu governo.

UNI

Caro(a) acadêmico(a)! Você lembra o que marcou o século XX, no final da década de 30 até meados da de 40?

Pois bem, o mundo vivia a Segunda Grande Guerra (1939-1945) e a Europa, durante o conflito, ficou economicamente destruída e, portanto, necessitava importar produtos de primeira necessidade de outras regiões do mundo. Foi aí que a Argentina e outros países entraram. Perón, aproveitando-se da situação, taxou as exportações, o que lhe permitiu acumular recursos para investir nas obras de infraestrutura, necessárias para o desenvolvimento do Parque Industrial Argentino.

Está explicado por que a economia Argentina ia bem? Cabe registrar que as exportações brasileiras de gêneros primários também cresceram nesse período (o Brasil vivia o Estado Novo de Vargas – o processo de industrialização estava a todo vapor).

No seu segundo mandato (1951-1955), Perón não teve um governo tranquilo e de grandes realizações.

Lopes (1986) associou o desgaste político de Perón aos seguintes fatores:

● o descontentamento dos latifundiários com a taxação das exportações;

● a imposição do clero e do imperialismo, inseguros diante da retórica socialista do regime;

● a excessiva ingerência dos sindicatos nas instâncias do poder. E o Exército devidamente imbuído do anticomunismo ideológico em tempos de Guerra Fria.

UNIDADE 3 | A AMÉRICA NO SÉCULO XX

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Juan Domingo Perón desafiou os interesses da oligarquia de terras da Argentina, quando impôs o estatuto do peão e o cumprimento do salário-mínimo rural. Em 1914, a Sociedade Rural afirmava:

Na fixação dos salários é primordial determinar o padrão de vida do peão comum. São, às vezes, tão limitadas suas necessidades materiais que um resíduo tem destinos socialmente pouco interessantes”. A Sociedade Rural continua falando dos peões como se fossem animais, e a profunda meditação a propósito das curtas necessidades de consumo dos trabalhadores oferece, involuntariamente, uma boa chave para compreender as limitações do desenvolvimento industrial argentino: o mercado interno não se estende nem se aprofunda na medida suficiente. A política de desenvolvimento econômico que impulsionou o próprio Perón não rompeu nunca a estrutura de subdesenvolvimento agropecuário. Em junho de 1952, num discurso que pronunciou do Teatro Colón, Perón desmentiu que tivesse o propósito de realizar uma reforma agrária, e a Sociedade Rural comentou oficialmente: “Foi uma boa dissertação”. (GALEANO, 1990, p. 92).

FONTE: Disponível em: <http://copyfight.noblogs.org/gallery/5220/Veias_Abertas_da_Am%C3%83%C2%A9rica_Latina(EduardoGaleano).pdf>.Acesso em: 14 fev. 2011.

Lembra a Guerra Fria, mencionada anteriormente?

Enfim, a tentativa de levar adiante suas ideias nacionalistas levou Perón a entrar em conflito político com os setores mais conservadores da sociedade argentina, fato que culminou num golpe militar (1955) que derrubaria o peronismo do poder. Ao contrário de Vargas, que preferiu “deixar a vida e entrar para a história”, Perón preferiu deixar a Argentina e refugiar-se no Paraguai.

Cabe registrar que, mesmo afastado do poder, as ideias peronistas permaneceram muito vivas naquele momento histórico, em especial.

4 A ARGENTINA LOGO APÓS PERÓNApós Perón, a Argentina passou a ser governada, interinamente, pelo

general Aramburu, que não mediu esforços para afastar definitivamente as ideias peronistas do país. Claro que não conseguiu!

Arturo Frondizi foi o presidente eleito logo após a queda de Perón. Sua política desagradou profundamente os nacionalistas, pois abriu a Argentina para o capital estrangeiro. Se comparado ao Brasil, pode-se dizer que adotou uma política muito semelhante à do seu conterrâneo Juscelino Kubitschek, isto é, permitiu a ampla instalação de empresas estrangeiras na Argentina, sobretudo empresas especializadas na exploração de petróleo.

TÓPICO 1 | A ARGENTINA E O PERONISMO

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FIGURA 30 – ARTURO FRONDIZI

FONTE: Disponível em: <http://www.kalipedia.com/kalipediamedia/historia/media/200806/11/hisargentina/20080611klphishar_25_Ies_SCO.jpg>. Acesso em: 19 nov. 2010.

Segundo Eduardo Galeano (1990, p. 115):

Arturo Frondizi desendaceou várias e agudas crises militares, nas três armas, ao anunciar o chamado de licitação que oferecia todo o subsolo do país às empresas interessadas em extrair petróleo: em agosto de 1959 a licitação foi declarada extinta. Ressuscitou em seguida e em outubro de 1960 ficou sem efeito. Frondizi realizou várias concessões em benefício das empresas norte-americanas do cartel, e os interesses britânicos - decisivos na Marinha e no setor “colorado” do exército - não foram alheios a sua queda em março de 1962. Arturo Illia anulou as concessões e foi derrubado em 1966; no ano seguinte, Juan Carlos Onganía promulgou a lei dos hidrocarbonetos, favorecendo os interesses norte-americanos.

Na verdade, Frondizi foi na contramão da política peronista, pois enquanto Perón preocupou-se em fortalecer a economia interna e diminuir a dependência externa, Frondizi foi logo abrindo as portas da Argentina para o grande capital estrangeiro.

Para atrair os investimentos estrangeiros, Frondizi foi obrigado a “achatar” os salários dos trabalhadores, fato que desagradou as organizações sindicais e contribuiu para a votação maciça em candidatos peronistas nas eleições de esferas municipais e estaduais.

Por ironia do destino, Frondizi, assim como havia ocorrido com Perón, foi derrubado com um golpe militar em 1963.

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No Tópico 1, você pôde:

● Compreender e comparar o quadro econômico e social da Argentina e do Brasil nas primeiras décadas do século XX.

● Conhecer como se deu a ascensão política de Juan Perón.

● Perceber que Juan Perón tinha projetos nacionalistas para a Argentina e que procurou diminuir a influência do capital estrangeiro no país.

● Perceber que Juan Perón e Getúlio Vargas eram muito próximos politicamente, pois possuíam sentimentos nacionalistas.

● Conhecer algumas ações que marcaram a ação política de Perón, tanto no tempo em que foi Secretário do Trabalho quanto no seu primeiro mandato presidencial.

● Identificar os fatores que geraram a queda de Perón por meio de um golpe militar.

● Perceber que a Argentina após Perón tomou rumos políticos e econômicos que contrariavam a época do peronismo.

RESUMO DO TÓPICO 1

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Com base neste tópico, responda:

1 Nos anos de 1910 e 1920, o operariado argentino vivia uma situação relativamente confortável em termos de conquistas sociais, fato que mudaria nos anos de 1930. Explique essa afirmativa.

2 Relacione a “Década Infame” com a ascensão política de Juan Perón no cenário político argentino.

3 Perón e Vargas foram duas personalidades políticas reconhecidas em toda a América Latina e grande parte do mundo. Caro(a) acadêmico(a)! Convido você a aprofundar a leitura no sentido de conhecer as principais ações políticas de Perón e Vargas. Depois, desafio você a escrever um pequeno texto apresentando ações políticas comuns em seus governos.

AUTOATIVIDADE

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TÓPICO 2

A REVOLUÇÃO CUBANA

UNIDADE 3

1 INTRODUÇÃONesse tópico, convido você a conhecer a Revolução Cubana, uma

significativa revolução ocorrida na América durante o século XX.

Nosso objetivo primeiro será apresentar a você o cenário político e econômico de Cuba no período pré-revolucionário. A partir deste contexto, vamos levá-lo a compreender os fatores responsáveis pela eclosão da revolução.

Posteriormente, descreveremos os avanços sociais conquistados pela revolução e, por fim, estaremos apresentando um breve cenário de Cuba hoje.

Então! Vamos lá?

2 O QUADRO SOCIOECONÔMICO DE CUBA ANTES DA REVOLUÇÃO

Cuba está localizada na América central e é a maior ilha mesoamericana. Está situada a cerca de 150 km da Flórida, nos Estados Unidos.

Cuba tornou-se independente da Espanha em 1898, mas por meio da Emenda Platt tornou-se dependente dos Estados Unidos, que a partir de então passou a influir diretamente nos rumos políticos e sociais de Cuba.

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UNIDADE 3 | A AMÉRICA NO SÉCULO XX

UNI

Em que consiste a Emenda Platt?

FIGURA 31 – ILUSTRAÇÃO ACERCA DA EMENTA PLATT

FONTE: Disponível em: <http://1.bp.blogspot.com/_r9_JaGZQjA4/TMlvfFHpgaI/AAAAAAAAAZ8/MMmFMNTJ66 g/s400/images.jpg>. Acesso em: 19 nov. 2010.

Por esse instrumento político, os Estados Unidos outorgava o direito de intervir militarmente em Cuba para defender seus interesses econômicos. Entre outras coisas, a Emenda Platt determinou a Cuba que cedesse parte de seu território para a instalação da Base Naval de Guantânamo.

Além disso, havia interesses econômicos, pois não podemos esquecer que a ilha possui um clima tropical, portanto capaz de produzir gêneros primários não produzidos nos Estados Unidos.

TÓPICO 2 | A REVOLUÇÃO CUBANA

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FIGURA 32 – JÂNIO QUADROS (À DIREITA) CONDECORA O MINISTRO CUBANO ERNESTO CHE GUEVARA

FONTE: Disponível em: <www1.folha.uol.com.br/folha/galeria/personagem/i_mundo_00001.shtm>. Acesso em: 4 dez. 2007.

NOTA

Figura 32 – O presidente Jânio Quadros (à dir.) condecora o ministro cubano Ernesto Che Guevara com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, em Brasília (DF).

Para assegurar seus interesses econômicos, os Estados Unidos passaram a influir também nos rumos políticos do país, colocando no poder governantes que defendessem seus interesses. Sucessivamente, Cuba conviveu com governos corruptos, que colocavam o país a serviço do capital estrangeiro. Um exemplo foi o governo de Gerardo Machado transcorrido entre os anos de 1925 e 1933. Nesse período, ocorreu um levante da população contra o governo, porém Machado, com apoio da elite e de muitos homens armados, sufocou-a rapidamente.

Ainda nos anos 40, o sargento Fulgêncio Batista, aproveitando-se dos levantes internos, tomou o poder de Cuba e permaneceu nele até a metade da mesma d.écada. Em 1952, com receio de perder poder para adversários políticos, deflagrou um golpe de estado, afastando o impopular presidente Prío Socarra, tornando-se ditador de Cuba.

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FIGURA 33 – FOTO OFICIAL DE FULGÊNCIO BATISTA

FONTE: Disponível em: <http://www.ciadaescola.com.br/zoom/imgs/252/image002.jpg>. Acesso em: 19 nov. 2010.

3 CUBA NO PERÍODO REVOLUCIONÁRIOFulgêncio não fez outra coisa a não ser colocar Cuba a serviço do capital

estrangeiro, sobretudo dos Estados Unidos. Os setores açucareiros, turismo e mineração, por exemplo, foram parcialmente privatizados, fato que gerou a exploração da mão de obra local, contribuindo inclusive para o crescimento da prostituição e do analfabetismo. A economia nesse período prosperou para os investidores externos, porém para grande parte da população não.

Batista governou Cuba de 1940 a 1944 e de 1952 a 1959, e os dois mandatos foram marcados pela corrupção e pelo autoritarismo e, em nenhum momento de seu governo, manifestou preocupação em desenvolver políticas visando melhorar as condições de vida da população. Essas características, somadas, levariam ao ressurgimento de novos levantes populares já em 1953.

As agitações para derrubar o governo de Fulgêncio Batista tiveram início em 1953. Os grupos de guerrilha já contavam com a liderança de Fidel Castro, que na ocasião lutava ao lado de um grupo de jovens revolucionários, na sua maioria, universitários. Na ocasião, tentaram tomar o quartel de Moncada e a fortaleza de Bayamo. Não lograram sucesso, pois a tecnologia militar e as técnicas de guerra do governo foram superiores.

TÓPICO 2 | A REVOLUÇÃO CUBANA

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FIGURA 34 – FIDEL CASTRO

FONTE: Disponível em: <http://info-wars.org/wp-content/uploads/2010/08/Fidel-Castro1.jpg>. Acesso em: 19 nov. 2010.

Em contrapartida, os números de baixas dos revolucionários foram expressivos, assim como o número de presos, que além de ficarem submetidos a terríveis torturas, recebiam penas que chegavam a 15 anos de reclusão.

A tentativa frustrada em Moncada e em Bayamo culminou num desgaste político de Fidel Castro, que, na mira do governo e impedido de militar politicamente, foi para o México, onde conheceu Ernesto Guevara de La Serna, mais tarde chamado de “Che”.

No México, Fidel arquitetou, juntamente com Che Guevara, o retorno a Cuba para depor o governo de Fulgêncio Batista. Fato que veremos a seguir.

3.1 A SIERRA MAESTRA E FIDEL

Nos anos de 1957 e 1958, Fidel Castro retorna a Cuba com o intuito de derrubar o governo de Fulgêncio Batista. O plano de invasão, arquitetado no México, recebeu o nome de 26 de Julho, homenagem ao ataque ao Quartel de Moncada.

Organizados em Sierra Maestra, Fidel Castro passou a contar com o apoio de outros líderes importantes desse período, como o seu irmão Raul Castro e seus companheiros e amigos Camilo Cienfuegos e Ernesto Che Guevara.

Em Sierra Maestra, o grupo guerrilheiro contava com um número expressivo de simpatizantes.

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UNIDADE 3 | A AMÉRICA NO SÉCULO XX

Cabe registrar que o número de simpatizantes não se restringia exclusivamente às regiões rurais, pois o número de descontentes urbanos com o governo Batista crescia a todo o momento.

ATENCAO

A organização em Sierra Maestra foi tão expressiva, sob o ponto de vista de organização militar, que contribuiu para a criação da Rádio Rebelde, instrumento de comunicação que permitiu Fidel Castro levar suas ideias a todo o povo cubano, aumentando ainda mais o número de simpatizantes.

Apesar de resistir à pressão das massas populares e ao crescimento de grupos guerrilheiros que apoiavam Castro, Fulgêncio não hesitou e fugiu para a República Dominicana, em dezembro de 1958.

De acordo com Eduardo Galeano (1990, p. 51):

[...] Quando caiu Batista, Cuba vendia quase todo seu açúcar nos Estados Unidos. Cinco anos antes, um jovem advogado havia profetizado corretamente, ante aqueles que o julgavam pelo assalto ao quartel Moncada, que a história o absolveria: havia dito em sua vibrante defesa: “Cuba continua sendo uma feitoria de matéria-prima. Exporta-se açúcar para importar caramelos...” Cuba comprava nos Estados Unidos não só automóveis e máquinas, produtos químicos, papel e roupa, mas também arroz e feijão, alhos e cebolas, banha, carne e algodão. Vinham sorvetes de Miami, pães de Atlanta e até jantares de luxo de Paris. O país do açúcar importava cerca da metade das frutas e verduras que consumia, embora só a terça parte de sua população ativa tivesse trabalho permanente, e a metade das terras das centrais açucareiras fossem extensões baldias onde as empresas não produziam nada. Treze engenhos norte-americanos dispunham de mais de 47% da área açucareira total e ganhavam por volta de 180 milhões de dólares em cada safra. A riqueza do subsolo - níquel, ferro, cobre, manganês, cromo, tungstênio - formava parte das reservas estratégicas dos Estados Unidos, cujas empresas apenas exploravam os minerais de acordo com as variáveis exigências do exército e da indústria do norte. Havia em Cuba, em 1958, mais prostitutas registradas do que operários mineiros. Um milhão e meio de cubanos sofria o desemprego total ou parcial, segundo as investigações de Seuret y Pino que cita Nuñez Jiménez.

FONTE: Disponível em: <http://catatau.blogsome.com/2008/02/25/a-transicao-segundo-o-companheiro-fidel-o-passado-de-cuba-e-eduardo-galeano/>. Acesso em: 20 fev. 2011.

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Ainda sobre Cuba,

[...] tinha as pernas cortadas pelo estatuto da dependência e não foi fácil andar por conta própria. A metade das crianças cubanas não ia à escola em 1958, porém a ignorância era, como denunciara Fidel Castro tantas vezes, muito mais vasta e muito mais grave do que o analfabetismo. A grande campanha de 1961 mobilizou um exército de jovens voluntários para ensinar ler e escrever a todos os cubanos e os resultados assombraram o mundo: Cuba ostenta atualmente, segundo o Escritório Internacional de Educação da UNESCO, a menor porcentagem de analfabetos. É a maior porcentagem de população escolar, primária e secundária, da América Latina. Todavia, a herança maldita da ignorância não se supera da noite para o dia - nem em 20 anos. A falta de quadros técnicos eficazes, a incompetência da administração e da desorganização do aparato produtivo, o burocrático temor à imaginação criadora e à liberdade de decisão, continuam interpondo obstáculos ao desenvolvimento do socialismo. Mas apesar de todo o sistema de impotências, forjado pelos quatro séculos e meio de história da opressão, Cuba está renascendo, com um incessante entusiasmo: mede suas forças, alegria e desmesura, ante os obstáculos. (GALEANO, 1990, p. 52)

FONTE: Disponível em: <http://catatau.blogsome.com/2008/02/25/a-transicao-segundo-o-companheiro-fidel-o-passado-de-cuba-e-eduardo-galeano/>. Acesso em: 20 fev. 2011.

Em 5 de janeiro de 1959, Fidel Castro, seu irmão Raul e seu amigo Che Guevara chegaram a Havana, onde foram calorosamente recebidos pela população.

FIGURA 35 – 5 DE JANEIRO DE 1959 – CUBA

FONTE: Disponível em: <http://1.bp.blogspot.com/_fMZSQH0TTpo/SVuVik2lZcI/AAAAAAAAB3c/71Go9JnJh6g/s400/Revolu%C3%A7%C3%A3o+Cubana.jpg>.

Acesso em: 19 nov. 2010.

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UNIDADE 3 | A AMÉRICA NO SÉCULO XX

FIGURA 36 – REVOLUÇÃO CUBANA

FONTE: Disponível em: <http://3.bp.blogspot.com/_ubml6XAmlys/SxQmfHpAXvI/AAAAAAAAAFo/Mx5VSxyWWdI/s320/Guilherme+E+Lucas.img.jpg>. Acesso em: 19 nov. 2010.

3.2 CUBA APÓS A REVOLUÇÃO

Caro(a) acadêmico(a)! Até o presente momento, nossa preocupação foi a de levá-lo a compreender como se deu o processo que levou à Revolução Cubana. Você deve ter compreendido que Cuba, imediatamente após a sua independência junto à Espanha, tornou-se dependente econômica e politicamente dos Estados Unidos.

Pois bem, agora chegou o momento de apresentarmos a importância da revolução e o que mudou em Cuba a partir de Fidel Castro.

Entre as mudanças mais expressivas nos campos sociais, políticos e econômicos estão:

● A erradicação do analfabetismo e a assistência médico-hospitalar a toda a população.

● A expressiva redução da taxa de mortalidade infantil e o aumento na expectativa de vida.

● Ocorreu o rompimento com a tradicional influência dos Estados Unidos, fato que levou ao fim o comércio entre os dois países.

● A aproximação com a URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) e com o Leste Europeu.

● A nacionalização de empresas estrangeiras de grande porte, medida que fazia parte do seu projeto de nacionalização da economia.

TÓPICO 2 | A REVOLUÇÃO CUBANA

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IMPORTANTE

A Guerra Fria foi uma guerra ideológica, econômica e tecnológica liderada pelos Estados Unidos e União Soviética, entre as décadas de 50 e 80. Nesse período, as duas superpotências procuraram influenciar a maior parte do mundo. Vários conflitos em nome do socialismo ou do capitalismo ocorreram pelo mundo. A Guerra do Vietnã foi um exemplo.

IMPORTANTE

Desde o início dos anos 60, Cuba passou a receber ajuda financeira, política e econômica da URSS. Esta relação gerou um desconforto excessivo nos Estados Unidos, pois Cuba, com a ajuda do Leste Europeu, passou a representar uma ameaça aos interesses capitalistas estadunidenses nos países americanos.

NOTA

Você sabia que Cuba foi o primeiro Estado socialista da América Latina?

Caro(a) acadêmico(a)! Não pense que a ajuda da URSS era desprovida de interesse! Não esqueça que eram anos de Guerra Fria e as duas superpotências, EUA e URSS, disputavam influências ideológicas pelo mundo.

DICAS

Sugiro que você assista ao filme “Diários de Motocicleta”. Direção de Walter Salles (EUA, 2004). O filme lhe possibilitará conhecer a pessoa de Ernesto Guevara e a origem da sua simpatia pelas causas socialistas da América Latina. Bom filme!

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O constante conflito com os Estados Unidos levou Cuba a pedir ajuda militar à URSS. Mísseis nucleares soviéticos a serem instalados em Cuba, com a aquiescência do governo de Fidel, foi fato que gerou uma reação imediata do governo estadunidense, na época, liderado por Kennedy. Esse incidente ficou conhecido como a Crise dos Mísseis em Cuba.

FIGURA 37 – ERNESTO CHE GUEVARA

FONTE: Almanaque Abril, 2002

Após ter ficado um tempo no governo cubano, Che retorna às suas raízes de guerrilheiro e passa a defender a extensão das ideias revolucionárias pela América Latina. Ao mesmo tempo, passa a condenar os rumos do socialismo cubano e a interferência do socialismo russo em Cuba. Che acreditava que Cuba estava progressivamente se tornando dependente da União Soviética. Estaria errado?

FIGURA 38 – CORPO DO LÍDER REVOLUCIONÁRIO ARGENTINO CHE GUEVARA

FONTE: Disponível em: <www1.folha.uol.com.br/folha/galeria/personagem/i_mundo_00001.shtml>. Acesso em: 4 dez. 2007.

TÓPICO 2 | A REVOLUÇÃO CUBANA

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NOTA

Figura 38 – Corpo do líder revolucionário argentino Che Guevara em Vallegrande, Bolívia. Che foi capturado pelo exército boliviano em 08 de outubro de 1967, com ajuda de agentes da CIA e executado no dia 09 de outubro.

Cuba viu-se em situação difícil, pois o preço do seu principal produto - o açúcar - despencou em todo o Leste Europeu. O país passou a enfrentar dificuldades que ameaçavam as conquistas revolucionárias. Os embargos internacionais foram muitos e Cuba ficou praticamente sem mercado internacional para exportar seus principais produtos.

Algumas medidas macroeconômicas para salvaguardar a economia foram adotadas por Fidel Castro. Vejamos algumas delas:

● Priorização do turismo com o objetivo de atrair moedas estrangeiras. O turismo é hoje a maior fonte de divisas para o Estado Cubano, que recebe milhões de turistas por ano.

● A abertura de investimento estrangeiro em pequenos negócios relacionados a serviços.

● Legalização de transações com moedas estrangeiras, entre outras.

Apesar de todas as dificuldades vividas pelo país, Cuba tem mostrado que sabe sobreviver às crises. Atualmente, 98% do povo cubano desfruta de energia elétrica e de água potável, um sistema de educação gratuito e um sistema de seguridade social singular, se comparável a muitos países ditos de Primeiro Mundo.

Na área da saúde, Cuba desenvolveu o chamado sistema de Médico da Família, também implantado em algumas localidades do Brasil.

4 CUBA HOJE: UM BREVE RETRATOConforme você deve ter percebido, Cuba, nos anos que se seguiram

à revolução, conseguiu um grande avanço nas questões sociais, políticas e econômicas, e você deve ter percebido também que grande parte desses avanços foi possível graças à parceria com a URSS. Porém, no início dos anos 90, essa relação de parcerias econômicas e políticas com a URSS mudou.

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UNIDADE 3 | A AMÉRICA NO SÉCULO XX

A União Soviética, principal parceira econômica de Cuba, entrou em dissolução logo no início dos anos 90.

Para ficar mais claro, vale registrar que em 1989 o então governante soviético Mikhail Gorbatchev visitou Cuba com o intuito de alertar Fidel Castro que eram tempos de abertura econômica, a chamada Perestroika, e que a União Soviética vivia uma crise econômica interna bastante acentuada. Portanto, não poderia continuar investindo os costumeiros milhões de dólares por ano (cerca de 5 milhões). Gorbatchev sugeriu a Fidel que liberasse gradualmente o país ao capital internacional, porém Fidel não se mostrou sensível às ideias reformistas.

Devido ao alto grau de avanço da medicina, Cuba tem registrado um dos mais baixos índices de mortalidade infantil e uma expectativa de vida de 75 anos para homens e 78 anos para mulheres.

NOTA

Portanto, caro(a) acadêmico(a), não pense que tudo “é um mar de rosas” em Cuba. Não podemos esquecer que Cuba é um país pobre e que convive há quatro décadas com um embargo econômico cruel. Por outro lado, não podemos deixar de lembrar que Cuba um dia teve mais de 30% de analfabetos e grande parte de sua população não possuía terras e tampouco expectativas de um dia tê-las. Cabe lembrar também que Cuba hoje é referência no turismo, nos esportes, na medicina, nas artes e em outras áreas.

UNI

Você pode estar se perguntando, caro(a) acadêmico(a), comoficaria Cuba após a morte de Fidel? É difícil ter uma resposta para essa pergunta. Talvez a única certeza que possamos ter é a de que o povo cubano não será facilmente submetido aos interesses econômicos, como ocorria antes da revolução.

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FIGURA 39 – FIDEL CASTRO

FONTE: Almanaque Abril, 2002

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LEITURA COMPLEMENTAR

O AÇÚCAR ERA O PUNHAL E O IMPÉRIO O ASSASSINO

Eduardo Galeano

“Edificar sobre o açúcar é melhor do que edificar sobre a areia?”, perguntava-se Jean-Paul Sartre em 1960, em Cuba.

No cais do porto de Guayabal, que exporta açúcar a granel, voam os alcatrazes sobre um galpão gigantesco. Entro e contemplo, atônito, uma pirâmide dourada de açúcar. À medida que as comportas se abrem, por baixo, para que as canaletas conduzam o carregamento, sem ensacar, até os navios, a rachadura do teto vai deixando cair novos jorros de ouro, açúcar recém-transportado dos moinhos dos engenhos. A luz do sol filtra-se e lhes arranca faíscas. Vale uns quatro milhões de dólares esta montanha macia que apalpo, e meu olhar não dá para enquadrá-la inteira. Penso que aqui se resume todo o drama e euforia da safra de 1970 que quis, mas não pôde, apesar do esforço sobre-humano, alcançar as dez milhões de toneladas. E uma história muito mais longa resvala, com o açúcar, ante o olhar. Penso no reino da Francisco Sugar Co., a empresa de Allen Dulles, onde passei uma semana escutando as histórias do passado e assistindo ao nascimento do futuro:

Josefina, filha de Claridad Rodríguez, que estuda numa sala onde seu pai foi preso e torturado antes de morrer; Antonio Bastidas, o negro de setenta anos que uma madrugada deste ano pendurou-se com ambos os punhos na alavanca da sirena porque o engenho tinha ultrapassado a meta e gritava: “Caralho! Cumprimos, caralho!”, e não houve quem tirasse a alavanca das mãos crispadas enquanto a sirena, que havia despertado o povoado, estava despertando toda Cuba; histórias de expulsões, de subornos, de assassinatos, a fome e os estranhos ofícios que o desemprego obrigava: caçador de grilos nas semeaduras, por exemplo. Penso que a desgraça tinha o ventre inchado, agora se sabe. Não morreram em vão os que morreram: Amâncio Rodríguez, por exemplo, alvejado a tiros pelos fura-greves numa assembleia, que havia rechaçado furioso um cheque em branco da empresa e quando seus companheiros foram enterrá-lo descobriram que não tinha cuecas nem meias para levar ao caixão; ou, por exemplo, Pedro Plaza, que aos vinte anos foi detido e conduziu o caminhão dos soldados às minas que ele mesmo tinha semeado e voou com o caminhão e os soldados. E tantos outros nesta localidade e nas demais: “Aqui as famílias amam os mártires - disse-me um velho canavieiro -, mas depois de mortos. Antes eram puras queixas.” Penso não ser casual que Fidel Castro recrutasse as três quartas partes de seus guerrilheiros entre os camponeses, homens do açúcar, nem que a província do Oriente fosse, ao mesmo tempo, a maior fonte de açúcar e sublevações de toda a história de Cuba. Explico-me o rancor acumulado: depois da grande

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safra de 1961, a Revolução optou por vingar-se do açúcar. O açúcar era a memória viva da humilhação. Era também, o açúcar, um destino? Converteu-se depois em penitência? Pode ser agora a alavanca, a catapulta do desenvolvimento econômico? Sob a influência de uma justa impaciência, a Revolução abateu numerosos canaviais e quis diversificar, num abrir e fechar de olhos, a produção agrícola: não caiu no tradicional erro de dividir os latifúndios em minufúndios improdutivos, porém cada fazenda socializada partiu de cara para culturas excessivamente variadas. Era preciso realizar importações em grande escala para industrializar o país, aumentar a produtividade agrícola e satisfazer muitas necessidades de consumo que a Revolução, ao redistribuir a riqueza, acrescentou enormemente. Sem as enormes grandes safras de açúcar, de onde obter as divisas necessárias para essas importações? O desenvolvimento da mineração, sobretudo do níquel, exige grande inversões, que estão sendo realizadas, e a produção pesqueira multiplicou-se por oito, graças ao crescimento da frota, o que também exigiu inversões gigantes; os grandes planos de produção de cítricos estão em execução, porém os anos que separam a semeadura da colheita exigem paciência. A Revolução descobriu, então, que havia confundido o punhal com o assassino. O açúcar, que tinha sido o fator de subdesenvolvimento, converteu-se num instrumento do desenvolvimento. Não houve mais remédio que utilizar os frutos da monocultura e a dependência, nascidos da incorporação de Cuba ao mercado mundial, para quebrar o espinhaço da monocultura e da dependência. Porque as rendas que o açúcar proporcionava já não são utilizadas para consolidar uma estrutura da submissão 34. As importações de maquinarias e de instalações industriais cresceram em 40% desde 1958 excedente que o açúcar gera é mobilizado para desenvolver as indústrias básicas e para que não fiquem ociosas as terras, nem os trabalhadores condenados ao desemprego. Quando caiu a ditadura de Batista, havia em Cuba cinco mil tratores e 300 mil automóveis. Hoje há 50 mil tratores, embora boa parte seja desperdiçada pelas graves deficiências de organização; daquela frota de automóveis, em sua maioria modelos de luxo, não sobram senão alguns exemplares dignos do museu da sucata. A indústria de cimento e as usinas de eletricidade ganharam um assombroso impulso; as grandes fábricas de fertilizantes criadas pela Revolução possibilitaram que hoje se utilizem cinco vezes mais adubos do que 1958,35 e avançaram com botas de sete léguas as áreas de irrigação. Novos caminhos, abertos por toda Cuba, quebraram a incomunicabilidade de muitas regiões que pareciam condenadas ao isolamento eterno. Para aumentar a magra produção de leite do gado zebu, trouxeram para Cuba touros da raça Holstein, com os quais, mediante a inseminação artificial, fizeram nascer 800 mil vacas de cruza. Grandes progressos foram realizados na mecanização do corte e levantamento da cana, em boa medida com base em investigações cubanas, embora ainda sejam insuficientes. Um novo sistema de trabalho se organiza, com dificuldades, para ocupar o lugar do velho sistema desorganizado pelas mudanças que a Revolução traz consigo. Os macheteros profissionais, presidiários do açúcar, são em Cuba uma espécie extinta: também para eles a Revolução implicou a liberdade de eleger outras profissões menos pesadas e, para seus filhos, a possibilidade de estudar, através de bolsas, nas

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cidades. A redenção dos trabalhadores da cana provocou, em consequência - preço inevitável - severos transtornos para a economia da ilha. Em 197O, Cuba teve de utilizar o triplo de trabalhadores para a safra, em sua maioria voluntários, soldados ou trabalhadores de outros setores, ficando prejudicadas as demais atividades do campo e da cidade: as colheitas de outros produtos, o ritmo de trabalho nas fábricas. E é preciso levar em conta que, neste sentido, em uma sociedade socialista, ao contrário da sociedade capitalista, os trabalhadores já não atuam tangidos pelo medo ao desemprego nem pela cobiça. Outros motores - a solidariedade, a responsabilidade coletiva, a tomada de consciência dos deveres e direitos que colocam os homens além do egoísmo - devem ser colocados em funcionamento. E não se muda a consciência de um povo inteiro num instante. Quando a Revolução conquistou o poder, segundo Fidel Castro, a maioria dos cubanos não era sequer antimperialista. Os cubanos foram-se radicalizando junto com sua Revolução, na medida em que se sucediam os desafios e as respostas, os golpes e os contragolpes entre Havana e Washington, e na medida em que a Revolução ia convertendo em fatos concretos suas promessas de justiça social. Construíram-se 170 novos hospitais e outras tantas policlínicas, e a assistência médica tomou-se gratuita; multiplicou-se por três a quantidade de estudantes matriculados em todos os níveis, e também a educação se fez gratuita; as bolsas de estudos beneficiaram mais de 300 mil crianças e jovens, e multiplicaram-se os internatos e creches infantis. Grande parte da população não paga aluguel e já são gratuitos os serviços de água, luz, telefone, funerais e espetáculos esportivos. Os gastos em serviços sociais cresce, em cinco vezes em poucos anos. Porém, agora que todos têm educação e sapatos, as necessidades vão-se multiplicando geometricamente e a produção só pode crescer aritmeticamente. A pressão do consumo, que é agora consumo de todos e não de uns poucos, também obriga Cuba a um aumento rápido das exportações, e o açúcar continua sendo a maior fonte de recursos. Na verdade, a Revolução está vivendo tempos duros, difíceis, de transição e sacrifício. Os próprios cubanos acabaram de confirmar que o socialismo se constrói com os dentes cerrados e que a Revolução não é nenhum passeio. Afinal, o futuro não seria desta terra, se chegasse como um presente. Há escassez, é certo, de diversos produtos: em 1970, faltam frutas e geladeiras, roupa; as filas, muito frequentes, não só resultam da desorganização da distribuição. A causa essencial da escassez é a nova abundância de consumidores: agora o país pertence a todos. Trata-se, portanto, de uma escassez de sinal invertido a que padecem os demais países latino-americanos. No mesmo sentido, operam os gastos com a defesa. A Revolução é obrigada a dormir com os olhos abertos, e isto também custa, em termos econômicos, muito caro. Esta Revolução acossada, que teve de suportar invasões e sabotagens sem trégua, não cai porque - estranha ditadura! - defende-a o povo em armas. Os expropriadores expropriados não se conformam. Em abril de 1961, a brigada que desembarcou em Playa Girón não estava formada somente pelos velhos militares e policiais de Batista, mas também pelos donos de mais de 370 mil hectares de terra, quase dez mil imóveis, setenta fábricas, dez centrais açucareiras, três bancos, cinco minas e doze cabarés. O ditador da Guatemala, Miguel Ydígoras, cedeu campos de treinamento aos

TÓPICO 2 | A REVOLUÇÃO CUBANA

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expedicionários em troca de promessas que os norte-americanos formularam, segundo ele mesmo confessou mais tarde: dinheiro sonante e cantante, que nunca lhe pagaram, e um aumento da quota guatemalteca de açúcar no mercado dos Estados Unidos. Em 1965, outro país açucareiro, a República Dominicana, sofreu a invasão de uns 40 mil marines dispostos a permanecerem “indefinidamente neste país, em vista da confusão reinante”, segundo declarou seu comandante, o general-Bruce Palmer. A queda vertical dos preços do açúcar foi um dos fatores que fizeram explodir a indignação popular; o povo levantou-se contra a ditadura militar e as tropas norte-americanas não demoraram em restabelecer a ordem. Deixaram quatro mil mortos nos combates que os patriotas sustentaram, corpo a corpo, entre rio Ozama e o Caribe, num bairro encurralado na cidade de Santo Domingo. A Organização dos Estados Americanos - que tem a memória da mula, pois não esquece nunca onde come - benzeu a invasão e a estimulou com novas forças. Era preciso matar o germe de outra Cuba.

FONTE: GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990. p. 52-55.

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No Tópico 2, você pôde:

● Compreender o quadro social, econômico e político de Cuba antes da revolução.

● Identificar os principais líderes da revolução.

● Compreender os interesses econômicos dos Estados Unidos em Cuba.

● Conhecer os avanços sociais e econômicos alcançados no período pós-revolucionário.

● Conhecer alguns aspectos que caracterizam Cuba hoje.

RESUMO DO TÓPICO 2

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AUTOATIVIDADE

Com base no Tópico 2, responda:

1 Descreva os motivos que levaram à revolução de 1959 e à consequente queda do governo de Fulgêncio Batista.

2 Após assistir ao filme Diários de Motocicleta, sugerido nesse tópico, faça um pequeno texto descrevendo os motivos que levaram Ernesto Che Guevara a se tornar um revolucionário socialista pela América Latina.

3 Fidel Castro assumiu o poder em 1959. Sua bandeira de luta era a justiça social e política. No entanto, desde a revolução, Fidel não deixou o poder e, nos anos de Guerra Fria, mesmo com a abertura do mundo soviético, não abriu o socialismo cubano. A doença que assolou recentemente Fidel Castro tem levado Cuba às manchetes de revistas e jornais do mundo. Baseado nessas notícias e no que você leu até aqui, responda:

a) Nesses anos de governo de Fidel, Cuba viveu uma democracia ou uma ditadura?

b) Como está a qualidade de vida do povo cubano nesses primeiros anos do século XXI? A saúde e a educação são ainda acessíveis a todos? Pesquise sobre isso.

c) Considerando a cultura política cubana, quais as perspectivas, orientações e tendências dos próximos governos desse país?

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TÓPICO 3

AS DITADURAS DA

AMÉRICA LATINA

UNIDADE 3

1 INTRODUÇÃOCaro(a) acadêmico(a), o assunto que trataremos aqui talvez possa lhe

trazer lembranças desagradáveis, ou até mesmo um certo sentimento de angústia, pois afinal iremos descrever um pouco as características de algumas ditaduras que se instalaram pela América Latina. Para muitos, esse período não deve ser lembrado, pois faz parte das páginas negras de nossa história. Porém, não podemos nos furtar de conhecer esse momento.

Este tópico está dividido em quatro partes. Na primeira estudaremos sobre como se instala uma ditadura, na segunda, sobre a ditadura na Argentina, depois a ditadura no Chile e, por último, a ditadura no Paraguai. Poderíamos falar das ditaduras de outros países, mas infelizmente nosso tempo não permite que nos estendamos demais.

2 CARACTERÍSTICASNão deve ser novidade para você que toda ditadura se estabelece em

nome “da Ordem Nacional”. A Ordem Nacional, na verdade, é uma desculpa para manter as instituições democráticas livres das ameaças de “totalitarismos de esquerda”.

IMPORTANTE

Você lembra o golpe militar deflagrado em 1964 no Brasil e que levou à queda de João Goulart? Pois bem, golpe foi uma articulação com o intuito de garantir a “ordem nacional”. Lembra também o que foi preciso para garantir essa ordem?

UNIDADE 3 | A AMÉRICA NO SÉCULO XX

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NOTA

Amigo(a) acadêmico(a)! Sugiro a você a leitura do livro “Brasil Nunca Mais”. Prefácio de D. Paulo Evaristo Arns. Petrópolis: Vozes, 1990. O livro faz um relato histórico dos terrores que ocorreram no Brasil nos tempos da ditadura. No restante da América Latina, o cenário não foi muito distinto. Por isso, sugiro a leitura.

São características de países que vivem uma ditadura:

● ausência de liberdade de expressão;

● censura à imprensa falada, escrita e televisada;

● os partidos de esquerda caem na clandestinidade e geralmente o pluripartidarismo é extinto.

Em alguns casos, estabelece-se o bipartidarismo e em governos mais radicais prevalece o unipartidarismo;

● repressão e perseguições políticas;

● fechamento de sindicatos e coibição de movimentos sociais.

Agora convido você a conhecer um pouco sobre as ditaduras na Argentina, Chile e Paraguai.

2.1 A ARGENTINA DE GALTIERI A ALFONSÍN

A ditadura militar da Argentina (1976-1983) foi, sem dúvida, uma das mais terríveis da história latino-americana. De acordo com dados oficiais, cerca 10.000 pessoas estão desaparecidas até hoje, provavelmente mortas em confrontos com tropas militares ou vítimas de torturas.

Os perseguidos políticos eram geralmente estudantes, sindicalistas, políticos de esquerda, artistas, entre outros. Note que o perfil dos perseguidos políticos na Argentina não era muito diferente do perfil dos perseguidos políticos no Brasil.

Estima-se também, segundo a literatura, que mais de cem bebês foram roubados das mães, presas políticas, e, às escondidas, foram doadas como órfãos. Outras atrocidades também eram cometidas, como queimar pessoas vivas.

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A ditadura argentina de Leopoldo Galtieri, ou até mesmo do seu antecessor Jorge Videla, não teve um caráter desenvolvimentista; ao contrário, o país mergulhou numa crise econômica profunda. A economia foi orientada pela exportação de matérias-primas. Os baixos salários e o desemprego passaram a fazer parte da rotina dos argentinos.

Na tentativa de ampliar e ganhar simpatia popular, Galtieri ordenou a invasão das Ilhas Malvinas (Falkland), que estavam sob o domínio dos ingleses. A Inglaterra reagiu e impôs à Argentina uma humilhante derrota.

FIGURA 40 – LOCALIZAÇÃO DAS ILHAS MALVINAS – FALKLAND ISLANDS

FONTE: Disponível em: <http://dnota.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Ilhas-Malvinas.jpg>. Acesso em: 19 nov. 2010.

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Enfim, a Guerra das Malvinas culminou no fim da ditadura Galtieri e na convocação de eleições para 1983.

FIGURA 41 – PLACA NUMA ESTRADA DA PROVÍNCIA ARGENTINA DE ENTRE RÍOS COM OS DIZERES : “AS MALVINAS SÃO ARGENTINAS ”. (A IMAGEM É DE 2005)

FONTE: Disponivel em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_das_Malvinas>. Acesso em: 15 ago. 2007.

Raul Afonsín foi o presidente eleito em 1983 e, logo no início de seu governo, tratou de apurar as irregularidades contra os direitos humanos, ocorridos durante a ditadura. Muitos militares foram presos, inclusive os ex-presidentes Jorge Videla e Leopoldo Galtieri.

Claro que tais apurações sacudiram as alas conservadoras do Exército,

sobretudo dos militares que participaram ativamente do regime.

Pressionado, Afonsín, em 1986, assinou a Lei do Ponto Final, fato que encerrou as investigações, livrando muitos militares da cadeia. Os constantes conflitos com os militares e a crescente crise econômica que assolavam o país levaram Afonsín a deixar a presidência desgastado do ponto de vista político.

O novo presidente eleito foi o peronista Carlos Menem.

2.2 O CHILE DE PINOCHET

Embora considerado por alguns um herói nacional, Pinochet, na verdade, é tido pela maioria do povo chileno como um dos ditadores mais cruéis e é lembrado pelo terror que implantou no Chile durante o tempo em que esteve no poder. Morreu no dia 10 de dezembro de 2006, aos 91 anos de idade, após sofrer um ataque cardíaco.

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FIGURA 42 – PINOCHET

FONTE: Disponível em: <http://api.ning.com/files/FN5g0M8DOvVitoVq1NcPsex76HzEC0fwv0zk8y*b27PXDonH2TJqGlZsJtqFDl1*6JdWKFNfvYQyaJJ9CfhsJXE71xqhqaj/pinochet.jpg?width=

420&height=306>. Acesso em: 19 nov. 2010.

UNI

Mas, qual a origem da ditadura Pinochet?

Em 1970, foi eleito Salvador Allende primeiro presidente socialista a subir ao poder eleito pelo voto. Seu programa de reformas sociais era bem amplo, e ele foi colocado em prática, onde podemos citar:

● A nacionalização das minas de cobre.

● O aumento dos salários e a redução do analfabetismo.

● Dinamizou a reforma agrária.

● Estatizou bancos, entre outras coisas.

Essas medidas descontentaram as elites nacionais e estrangeiras, que inteligentemente trataram de desorganizar seu governo. Os Estados Unidos, por exemplo, bloquearam créditos externos e sabotaram a economia do país.

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FIGURA 43 – SALVADOR ALLENDE

FONTE: Disponível em: < http://www.salvador-allende.cl/>. Acesso em: 12 abr. 2011.

A solução encontrada foi a de colocar no poder alguém que governasse para o grande capital.

Em 1973, sob o comando de Augusto Pinochet, o Palácio de La Moneda foi bombardeado e Allende morto.

FIGURA 44 – O PALÁCIO DE LA MONEDA FOI BOMBARDEADO E ALLENDE MORTO

FONTE: Disponível em:<historia.abril.com.br/politica/outros-11-setembro-434832.shtml>. Acesso em: 12 abr. 2011.

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O Governo de Pinochet (1973-1990) foi marcado por massacres a milhares de oposicionistas, reverteu as reformas de Allende e permitiu a entrada desenfreada de capital no país.

Existem inúmeros relatos, inclusive de ex-oficiais, sobre a Caravana da Morte, o comando militar que executou 72 militantes esquerdistas no norte do Chile em 1973, logo depois do golpe militar de Pinochet. Sob a liderança do general Sérgio Arellano, o grupo deslocava-se num helicóptero, de cidade em cidade, eliminando os inimigos políticos do novo regime (Adaptado do artigo publicado na revista Isto É, de 29/04/1987, p. 60 – Citado por Pazzinato e Senise, 1994, p. 400).

FIGURA 45 – PINOCHET DESFILANDO EM CARRO ABERTO

FONTE: Disponível em: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/51/Pinochet_11-09-1982.JPG>. Acesso em: 4 dez. 2007.

Em 1987, os militares permitem uma reorganização no sistema partidário chileno. Vários partidos retornam ao cenário político, com exceção dos partidos marxistas. Não vá pensar que Pinochet estava disposto a entregar o poder.

Para Pazzinato e Senise (2002), o regime militar oprimiu o povo chileno até 1988, quando Pinochet foi derrotado num plebiscito popular, convocado para decidir sobre a permanência ou não do ditador por mais oito anos no poder.

Pinochet, derrotado pelo plebiscito, foi obrigado a convocar eleições e entregar o poder ao presidente eleito, porém manteve sua condição de comandante do Exército até 1998 e tornou-se senador vitalício.

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NOTA

O ex-ditador Augusto Pinochet morreu aos 91 anos, no dia 10 de dezembro de 2006. Sua morte ocorreu no Hospital Militar de Santiago do Chile, vítima de um enfarte do miocárdio e um edema pulmonar.

O novo presidente eleito, o democrata Patrício Aylwin, assim como fez Afonsín na Argentina, ordenou a investigação para apurar as violações contra os direitos humanos nos tempos da ditadura Pinochet. Os efeitos das investigações, da mesma forma que na Argentina, não atingiram a plenitude dos objetivos.

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LEITURA COMPLEMENTAR 1

AS VEIAS ABERTAS DA AMÉRICA LATINA

Eduardo Galeano

Em agosto de 76, Orlando Letelier publicou um artigo denunciando que o terror da ditadura de Pinochet e a “liberdade econômica” de pequenos grupos privilegiados, são as duas faces de uma mesma moeda. Letelier, que havia sido ministro no governo de Salvador Allende, estava exilado nos Estados Unidos. Foi lá que, pouco tempo depois, voou em pedaços. Em seu artigo, afirmava que é absurdo falar em livre concorrência numa economia como a chilena, submetida aos monopólios que jogam com os preços como querem, e que é ridículo mencionar os direitos dos trabalhadores num país onde os sindicatos autênticos estão fora da lei e os salários são fixados por decretos da junta militar.

Letelier descrevia o esmero com que se desmontavam as conquistas realizadas pelo povo chileno durante o governo da Unidade Popular. Dos monopólios e oligopólios industriais nacionalizados por Salvador Allende, metade foi devolvida, pela ditadura, a seus antigos proprietários e a outra metade foi posta à venda. A Firestone comprou a fábrica nacional de pneumáticos; Parsons and Whittemore uma grande plantação para extração de polpa de papel. A economia chilena, dizia Letelier, agora está mais concentrada e monopolizada do que na véspera do governo de Allende.

Negócios livres como nunca, gente presa como nunca: na América Latina, a liberdade empresarial e incompatível com as liberdades públicas. Liberdade de mercado? Desde o princípio de 1975 o preço do leite, no Chile, é livre. O resultado não se fez por esperar. Duas empresas dominam o mercado. O preço do leite aumentou imediatamente (para os consumidores) em quarenta por cento, enquanto o preço para os produtores baixava em vinte e dois por cento.

A mortalidade infantil, que havia sido bastante reduzida durante o governo da Unidade Popular deu um salto dramático a partir de Pinochet. Quando Letelier foi assassinado numa rua de Washington, um quarto da população do Chile, não recebia nenhum salário e sobrevivia graças à caridade alheia ou à própria obstinação e esperteza.

Na América Latina, o abismo que se abre entre o bem-estar de poucos e a desgraça de muitos, é infinitamente maior que nos Estados Unidos ou na Europa. São muito mais ferozes, portanto, os métodos necessários para salvaguardar esta distância. O Brasil tem um exército enorme e muito bem equipado, mas destina cinco por cento do orçamento nacional para gastos de educação. No Uruguai, a metade do orçamento é absorvida, atualmente, pelas forças armadas e pela polícia: um quinto da população ativa tem a função de vigiar, perseguir ou castigar os quintos restantes.

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Um dos fatos mais importantes destes anos da década de 70 foi, sem dúvida, uma tragédia: a insurreição militar que em 11 de setembro de 1973 derrubou o governo democrático de Salvador Allende e mergulhou o Chile num banho de sangue.

Pouco antes, em junho, um golpe de Estado no Uruguai, dissolveu o Parlamento, pôs os sindicatos fora da lei e proibiu toda e qualquer atividade política.

Em março de 1976, os generais argentinos voltaram ao poder: o governo da viúva de Juan Domingo Perón, completamente putrefato, desabou sem consolo nem glória.

Os três países do sul são agora uma chaga do mundo, uma má notícia ininterrupta. Torturas, sequestros, assassinatos e exílios converteram-se em fatos cotidianos. Estas ditaduras são tumores a serem extirpados de organismos sãos ou são o pus que revela a infecção do sistema?

Creio que sempre existe uma relação íntima entre a intensidade da ameaça e a brutalidade da resposta. Creio que não se pode entender o que ocorre hoje no Brasil e na Bolívia sem se levar em conta a experiência dos regimes de Jango Goulart e Juan José Torres. Antes de cair, estes governos haviam posto em prática uma série de reformas sociais e haviam levado adiante uma política econômica nacionalista, ao longo de um processo (interrompido) em 1964 no Brasil, e em 1971 na Bolívia.

Da mesma forma, bem que se poderia dizer que o Chile, a Argentina e o Uruguai estão expiando o pecado da esperança. O ciclo de profundas modificações durante o governo de Allende, as bandeiras de justiça que mobilizaram as massas obreiras argentinas e drapearam alto durante o fugaz governo de Héctor Campora em 1973 e a politização acelerada da juventude uruguaia, foram todos desafios que um sistema impotente e em crise não podia suportar.

O violento oxigênio da liberdade foi fulminante para os espectros, e a guarda pretoriana foi convocada para salvar a ordem. O plano de limpeza é um plano de extermínio.

FONTE: GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990. p. 189-191.

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2.3 O PARAGUAI DE STROESSNER

A ditadura de Alfredo Stroessner foi a mais longa da América Latina. Sua origem remonta ao início dos anos de Guerra Fria. Stroessner assumiu o poder por meio de um golpe de Estado em 1954 e só caiu em fevereiro de 1989. Foram 35 anos governando o Paraguai com “mão de ferro”.

FIGURA 46 – O EX-DITADOR ALFREDO STROESSNER (À ESQUERDA) AO LADO DO EX-DITADOR CHILENO AUGUSTO PINOCHET (1973-90)

FONTE: Disponível em: <www1.folha.uol.com.br/folha/galeria/personagem/i_mundo_ 00001.shtml>. Acesso em: 4 dez. 2007.

Os grandes latifundiários e os setores mais conservadores da sociedade paraguaia apoiaram o seu regime, calcado na violência, na perseguição e na prisão de seus opositores.

NOTA

Não é novidade para você que o Paraguai é um país atravessador de produtos orientais, não é mesmo? Talvez não saiba é que foi na época de Stroessner que o Paraguai começou a “gozar” desse perfil econômico nada agradável para os paraguaios.

Stroessner desenvolveu uma política voltada para a construção de um Paraguai essencialmente agrícola e uma espécie de paraíso latino-americano do contrabando.

Caro(a) acadêmico(a), para você ter uma ideia, já na metade da década de 80, 60% de todo o comércio externo do país era ilegal.

UNIDADE 3 | A AMÉRICA NO SÉCULO XX

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Vale destacar que no governo de Stroessner foi construída, em parceria com o Brasil, a Usina Hidrelétrica de Itaipu. Na época, o Brasil vivia a ditadura do general Ernesto Geisel.

Ao cair do poder em 1989, o general Stroessner pediu asilo político ao Brasil. Que foi concedido. Ao que se sabe, inicialmente viveu em Brasília e, mais tarde, de forma tranquila e muito confortável, foi viver no litoral paranaense.

Stroessner viveu o resto de sua vida no Brasil e morreu aos 93 anos de idade no Hospital Santa Luzia, em Brasília, onde se encontrava internado. Seu corpo foi velado em Brasília.

Os paraguaios receberam com indiferença a notícia de sua morte.

FIGURA 47 – ALFREDO STROESSNER EM BRASÍLIA, EM 2001

FONTE: Disponível em: <www1.folha.uol.com.br/folha/galeria/personagem/i_mundo_00001.shtml>. Acesso em: 4 dez. 2007.

TÓPICO 3 | AS DITADURAS DA AMÉRICA LATINA

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LEITURA COMPLEMENTAR 2

A GUERRA DA TRÍPLICE ALIANÇA CONTRA O PARAGUAI ANIQUILOU A ÚNICA EXPERIÊNCIA, COM ÊXITO, DE DESENVOLVIMENTO

INDEPENDENTE

Eduardo Galeano

O partido Colorado, que hoje governa o Paraguai, especula alegremente com a memória dos heróis, porém ostenta ao pé de sua ata de fundação a assinatura de vinte e dois traidores do marechal Solano López, “legionários” a serviço das tropas brasileiras de ocupação.

O ditador Alfredo Stroessner, que há vinte anos, converteu o Paraguai num grande campo de concentração, fez sua especialização militar no Brasil, e os generais brasileiros o devolveram a seu país com altas qualificações e calorosos elogios: “É digno de grande futuro...”. Durante seu reinado, Stroessner deslocou os interesses anglo-argentinos em beneficio do Brasil e dos norte-americanos. Desde 1870, o Brasil e a Argentina, que libertaram o Paraguai para comê-lo com duas bocas, se alternam no usufruto dos despojos do país derrotado, porém sofrem, por seu turno, o imperialismo da grande potência do momento.

O Paraguai padece, ao mesmo tempo, o imperialismo e o subimperialismo. Antes, o Império britânico constituía o elo maior da cadeia das dependências sucessivas. Atualmente, os Estados Unidos, que não ignoram a importância geopolítica deste país enervado no centro da América do Sul, mantêm em solo paraguaio assessores inumeráveis, cozinham os planos econômicos, reestruturam a universidade como querem, inventam um novo esquema político democrático para o país e retribuem com empréstimos onerosos os bons serviços do regime. Porém, o Paraguai é também colônia de colônias.

Utilizando a reforma agrária como pretexto, o governo de Stroessner derrogou, fazendo-se de distraído, a disposição legal que proibia a venda a estrangeiros de terras em zonas de fronteira seca, e hoje até os territórios fiscais caíram em mãos de latifundiários brasileiros do café. A onda invasora atravessa o rio Paraná com a cumplicidade do presidente, associado aos fazendeiros que falam português.

Cheguei à movediça fronteira do nordeste do Paraguai com notas que tinham estampado o rosto do vencido marechal Solano López, porém ali descobri que só têm valor as que luzem a efígie do imperador vencedor Pedro. O resultado da Guerra da Tríplice Aliança ganha, transcorrido um século, ardente atualidade. Os guardas brasileiros exigem passaporte aos cidadãos paraguaios para circularem em seu próprio país; são brasileiras as bandeiras e as igrejas. A pirataria de terra abarca também os saltos do Guayrá, a maior fonte potencial de energia de toda América Latina, que hoje se chamam, em português, Sete Quedas, e a zona de Itaipu, onde o Brasil constrói a maior central hidrelétrica do mundo.

UNIDADE 3 | A AMÉRICA NO SÉCULO XX

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O subimperialismo, ou imperialismo de segundo grau, se expressa de mil maneiras. Quando o presidente Johnson decidiu submergir em sangue os dominicanos, em 1965, Stroessner enviou soldados paraguaios a São Domingos, para que colaborassem na faina.

O batalhão se chamou, piada sinistra, “Marechal Solano López”. Os paraguaios atuaram sob as ordens de um general brasileiro, porque foi o Brasil quem recebeu as honras da traição: o general Panasco Alvim encabeçou as tropas latino-americanas cúmplices da matança. Da mesma maneira, poder-se-iam citar outros exemplos.

O Paraguai outorgou ao Brasil uma concessão petrolífera em seu território, mas o negócio da distribuição de combustíveis e da petroquímica está no Brasil, em mãos norte-americanas. A Missão Cultural Brasileira é dona da Faculdade de Filosofia e Pedagogia da universidade paraguaia, porém os norte-americanos influem na universidade do Brasil.

O Estado-Maior do exército paraguaio não só recebe assessoria dos técnicos do Pentágono, mas também dos generais brasileiros, que por sua vez estudaram em escolas militares nos EUA. Pela via aberta do contrabando, os produtos industriais do Brasil invadem o mercado paraguaio, porém muitas das fábricas que produzem em São Paulo são, desde a avalancha desnacionalizadora destes últimos anos, multinacionais.

Stroessner se considera herdeiro dos López. O Paraguai de um século atrás pode ser impunemente cotejado com o Paraguai de agora, empório do contrabando na bacia do Prata e reino da corrupção institucionalizada? Num ato político onde o partido do governo reivindicava ao mesmo tempo, entre vivas e aplausos, a um e outro Paraguai, um rapazola vendia, bandeja no peito, cigarros de contrabando: a fervorosa audiência pitava nervosamente Kent, MarIboro, Camel e Benson & Hedges.

Em Assunção, a escassa classe média bebe uísque Ballantine’s em vez de tomar cachaça paraguaia. Descobrem-se os últimos modelos dos mais luxuosos automóveis fabricados nos Estados Unidos ou Europa, trazidos ao país de contrabando ou pagamento prévio de minguados impostos, ao mesmo tempo em que se veem, pelas ruas, carros puxados por bois que levam lentamente frutos ao mercado; a terra é trabalhada com arados de madeira e os táxis são impalas.

Stroessner diz que o contrabando é “o preço da paz”. A indústria, logicamente, agoniza antes de crescer. O Estado nem sequer cumpre o decreto que manda preferir os produtos das fábricas nacionais nas aquisições públicas. Os únicos triunfos que o governo exibe, orgulhoso, na matéria, são as fábricas de Coca Cola, Crush e Pepsi Cola, instaladas desde fins de 1966 como contribuição norte-americana ao progresso do povo paraguaio.

TÓPICO 3 | AS DITADURAS DA AMÉRICA LATINA

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O Estado manifesta que só intervirá diretamente na criação de empresas “quando o setor privado não demonstrar interesse”, e o Banco Central comunica ao Fundo Monetário Internacional que decidiu implantar um regime de mercado livre de moedas e abolir as restrições ao comércio e às transações de divisas; um folheto editado pelo Ministério da Indústria e Comércio adverte os investidores que o país outorga concessões especiais para o capital estrangeiro. Eximem-se as empresas estrangeiras do pagamento de impostos e de direitos alfandegários, para criar um clima propício para os investimentos. Um ano depois de se instalar em Assunção, o National City Bank de Nova Iorque recupera integralmente o capital investido.

O sistema bancário estrangeiro, dono da poupança interna, proporciona ao Paraguai créditos externos que acentuam sua deformação econômica e hipotecam ainda mais sua soberania. No campo, 1,5% dos proprietários dispõe de 90% das terras exploradas, e se cultiva menos dos 2% da superfície total do país. O plano oficial de colonização no triângulo de Caaguazú oferece aos camponeses famintos mais tumbas do que prosperidade. A pátria nega a seus filhos o direito ao trabalho e ao pão de cada dia: os paraguaios emigram em massa.

FONTE: GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990. p. 137-139.

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No Tópico 3, você pôde:

● Identificar as características políticas de um país marcado por um regime militar.

● Conhecer as origens do regime militar na Argentina.

● Conhecer as razões que levaram à queda de Salvador Allende no Chile e à consequente ascensão política de Pinochet.

● Perceber que a atual situação econômica do Paraguai encontra raízes no longo governo de Alfredo Stroessner.

● Perceber que as ditaduras latino-americanas, incluindo a do Brasil, encontram origens externas.

RESUMO DO TÓPICO 3

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AUTOATIVIDADE

Com base no Tópico 3, responda às seguintes atividades:

1 A ditadura de Leopoldo Galtieri não teve caráter desenvolvimentista. Explique essa afirmativa.

2 Qual a relação existente entre a política adotada por Salvador Allende e o surgimento da ditadura Pinochet?

3 Existe alguma relação entre o governo de Alfredo Stroessner e a atual situação econômica do Paraguai hoje? Explique sua resposta. Se necessário, pesquise mais sobre o tema para melhor responder essa pergunta.

4 As Ilhas Malvinas foram ocupadas pela Grã-Bretanha em 1833 e, desde então, são reivindicadas pelos argentinos. Você estudou nesse tópico que Galtieri, na tentativa de ampliar seu respaldo popular, ordenou a invasão das ilhas, o que resultou num total fracasso para o Exército Argentino.

Caro(a) acadêmico(a), convido você a pesquisar os motivos que levaram a esse conflito, bem como conhecer o massacre promovido pelo exército inglês contra os jovens soldados argentinos. Tenho certeza de que você vai se emocionar ao realizar essa pesquisa. Bom trabalho!

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TÓPICO 4

OS BLOCOS ECONÔMICOS AMERICANOS

UNIDADE 3

1 INTRODUÇÃOOs blocos econômicos existentes atualmente traduzem uma tendência

crescente rumo à regionalização das economias. Na sua essência, os blocos surgiram com a finalidade de atender às constantes transformações do sistema capitalista, isto é, atender aos interesses econômicos correspondentes aos países-membros dos blocos frente a uma economia globalizada e competitiva. O Mercado Comum do Sul (MERCOSUL), o NAFTA, a União Europeia e a ALCA surgiram com essa finalidade.

Nesse sentido, nossa intenção será a de levá-lo a conhecer, compreender e refletir sobre as razões que levaram à criação do NAFTA, da ALCA e do MERCOSUL e de outros blocos econômicos na América.

NOTA

Caro(a) acadêmico(a)! Para aprofundar os assuntos referentes à ALCA e ao MERCOSUL, sugerimos que leia o livro “O projeto da ALCA: hemisfério americano e o MERCOSUL na ótica do Brasil”, citado nas referências no final desse Caderno de Estudos.

Então, vamos conhecer um pouco sobre os blocos econômicos?

UNIDADE 3 | A AMÉRICA NO SÉCULO XX

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2 BLOCOS ECONÔMICOS

2.1 O NASCIMENTO

Você já deve ter ouvido falar do NAFTA (Acordo Norte-Americano de Livre Comércio), ou North American Free Trade Agreement. Esse acordo de livre comércio foi assinado antes da ALCA e seu objetivo era romper as barreiras alfandegárias entre os países membros, nesse caso, o México, o Canadá e os Estados Unidos.

O centro polarizador da economia desse bloco são os Estados Unidos e a gradativa redução das barreiras está acontecendo entre os países membros.

NOTA

Lembra da Doutrina Monroe? “Uma América para os americanos”. Pois é, o Nafta é uma espécie de retomada da Doutrina Monroe, porém integrando inicialmente os três países da América do Norte.

A ALCA teve seu acordo assinado em 1994 e seus objetivos econômicos transgridem as barreiras norte-americanas. A ALCA traz em seu bojo a criação de uma área de livre comércio para toda a América, com exceção de Cuba.

As negociações para o funcionamento desse bloco foram realizadas em Miami, em dezembro de 1994, e a previsão de sua implantação seria até dezembro de 2006. Através da ALCA, os Estados Unidos pretendem reafirmar a sua hegemonia econômica, política e cultural em todo o Continente americano.

2.2 OBJETIVOS

Como foi dito anteriormente, a ideia de criar a Área de Livre Comércio das Américas surgiu em 1994, e entre os principais objetivos podemos citar:

● a eliminação das barreiras comerciais entre os 34 países americanos, exceto Cuba;

● a circulação de produtos e serviços pelo continente sem restrições nem impostos, baixando os preços internos, o que contribuiria para o crescimento de economias frágeis, como a do Paraguai, que teriam a oportunidade de sair da estagnação;

TÓPICO 4 | OS BLOCOS ECONÔMICOS AMERICANOS

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● fazer da ALCA um bloco com Produto Interno Bruto (PIB) de quase 11 trilhões de dólares, e uma população de 823 milhões de habitantes. Tornar-se-ia maior que a União Europeia (UE).

É claro que os Estados Unidos são o maior interessado no sucesso desse bloco, pois seu parque industrial, além de ser diversificado, é altamente produtivo, logo precisa de um farto mercado consumidor. Nesse caso, a América realizaria este feito.

Mas o Brasil e os outros países latinos precisam ter cautela antes de entrar de “cabeça” na ALCA. Afinal, ela pode representar uma ameaça para a consolidação do MERCOSUL.

Para Magnoli e Araújo (2003, p. 40), “ALCA (Área de Livre Comércio

das Américas), liderada pelos Estados Unidos, numa perspectiva econômica, pode representar a consolidação de uma nova forma de hegemonia dos Estados Unidos sobre o continente, dada a imensa assimetria entre a potência americana e o conjunto dos países da região”.

Observe o mapa a seguir:

FIGURA 48 – MAPA REPRESENTANDO OS PAÍSES MEMBROS DO NAFTA – MÉXICO , CANADÁ E ESTADOS UNIDOS

FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/NAFTA#Pa.C3.ADses_Membros>. Acesso em: 16 abr. 2007.

UNIDADE 3 | A AMÉRICA NO SÉCULO XX

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3 O MERCOSUL

3.1 O NASCIMENTO

Com frequência, ouvimos comentários negativos a respeito do MERCOSUL: “Ah, esse bloco não vai dar certo... os países são muito fracos”, ou “O MERCOSUL é uma criança que já nasceu morta!”. Na verdade, tais comentários não estão, no seu todo, desprovidos de verdade, pois as economias dos países-membros, pelo menos até o momento, não são suficientemente fortes para fazerem do MERCOSUL um bloco sólido a ponto de competir por igual com blocos mais hegemônicos.

O MERCOSUL vigora desde 1991, época do governo Collor no Brasil. Lembra dele? Foi constituído em março do mesmo ano, através do Tratado de Assunção. Seus países-membros eram Uruguai, Argentina, Brasil e Paraguai.

FIGURA 49 – MAPA DA ATUAL ESTRUTURA DO MERCOSUL

FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Mercosul#Antecedentes>. Acesso em: 16 abr. 2007.

Atualmente o MERCOSUL conta com cinco países associados: o Chile, a Bolívia, o Peru, a Colômbia e o Equador. Possivelmente, no futuro, teremos o ingresso do México, que no momento é apenas um observador no bloco.

TÓPICO 4 | OS BLOCOS ECONÔMICOS AMERICANOS

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3.2 OBJETIVOS

Convido você a conhecer os objetivos que norteiam o MERCOSUL, e ao mesmo tempo convido-o também a refletir sobre eles.

Entre os vários objetivos, podemos destacar:

● permitir a livre circulação de bens (serviços, produtos e mercadorias), bem como de capitais e pessoas, através da eliminação das tarifas alfandegárias;

● desenvolver uma harmonia entre as legislações que vigoram entre os países-membros e associados;

● estabelecer critérios que permitam uma adequada concorrência entre os países-membros, evitando que alguns países vendam mais e outros menos;

● desenvolver um espírito de união entre os países-membros, sobretudo no momento de tomadas de decisões junto a órgãos como a ONU, a ALCA, o NAFTA e a ALADI.

Você deve ter percebido que o MERCOSUL transcende as questões de ordem puramente econômica, pois existe a preocupação com a harmonização das leis e com a livre circulação de pessoas e, isso, em si, permite um processo de aculturação significativo, o que de certa forma permite retomada dos valores culturais da América Latina. Talvez aí resida a alma do MERCOSUL.

ATENCAO

4 OUTROS BLOCOS ECONÔMICOSO MERCOSUL, o NAFTA e a ALCA são os blocos econômicos americanos

mais comentados pela mídia, porém outros blocos econômicos já existiram ou existem na América. Vamos conhecê-los?

● ALALC (Associação Latino-Americana de Livre Comércio): foi criada em 1960 pelo Tratado de Montevidéu. Seu objetivo era implantar num prazo máximo de doze anos uma zona de livre comércio em toda a América Latina. O grande desnível econômico entre os países membros levou o bloco a um progressivo fracasso.

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● Pacto Andino: bloco econômico criado em 1969 através do Acordo de Cartagena. Não diferente dos demais blocos, o Pacto Andino tinha o objetivo de expandir e consolidar a integração comercial, política e econômica entre seus membros. Devido às pressões por parte dos Estados Unidos em implantar a ALCA, o Pacto Andino perdeu força logo no seu início. Seus membros eram a Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Venezuela e o Chile. O Panamá participava como observador.

● ALADI (Associação Latino-americana de Desenvolvimento e Integração): nasceu no início dos anos 80, como um novo Tratado de Montevidéu. Apresentava objetivos menos pretensiosos que a ALALC, não determinando prazos para a consolidação da integração regional. Não logrou sucesso, pois viveu o período das ditaduras latino-americanas, quando os países, preocupados em gerar divisas para saldar suas dívidas externas, relegaram a integração regional a segundo plano.

TÓPICO 4 | OS BLOCOS ECONÔMICOS AMERICANOS

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LEITURA COMPLEMENTAR

O NAFTA

Eduardo de Freitas

O NAFTA (North America Free Trade Agreement), ou Tratado Norte-Americano de Livre Comércio, foi criado em 1993, teve início a partir de um acordo estabelecido entre três países da América do Norte: Estados Unidos, México e Canadá. A partir desse acordo foi implantado o livre comércio entre as nações integrantes. Um dos principais motivos da criação desse bloco econômico foi fazer frente à União Europeia, tendo em vista que essa tem alcançado um grande êxito no cenário mundial.

O NAFTA é composto por apenas três países. Há um grande desnível entre as economias de seus membros, tendo em vista que os Estados Unidos é a maior economia mundial. O Canadá, mesmo aparecendo como um dos principais países do mundo em economia, qualidade de vida, entre outros quesitos, é uma nação que depende muito dos recursos financeiros oriundos dos Estados Unidos. Já o México, considerado uma economia emergente, foi convidado para fazer parte desse bloco econômico pelo fato de seus habitantes serem consumidores assíduos dos produtos canadenses e norte-americanos. Desse modo, o México foi inserido nesse bloco simplesmente porque possui um enorme mercado consumidor, é detentor de uma grande jazida de petróleo, recurso indispensável para Estados Unidos e Canadá, além de ser fornecedor de mão de obra barata.

Estados Unidos e México estabeleceram uma parceria, e os norte-americanos realizaram investimentos em território mexicano almejando aumento de postos de trabalho no país. A partir disso, pretende-se que a incidência de entrada de mexicanos nos Estados Unidos de maneira ilegal diminua. Embora pareça ser uma preocupação unicamente social, essa iniciativa visa também produzir mercadorias em território mexicano com baixos custos, com o objetivo de abastecer o mercado norte-americano, especialmente no setor têxtil.

Os Estados Unidos têm um grande desejo de expandir a atuação desse bloco econômico e superar a União Europeia, diante disso, o Chile foi convidado a fazer parte do NAFTA em 1994. Apesar da vontade de expandi-lo, existem barreiras dentro do governo norte-americano e fora dele também. O Congresso norte-americano teme que com a entrada de outros países, os Estados Unidos se tornem “responsáveis” por eles em caso de uma crise, por exemplo.

O fluxo de mercadorias dentro do NAFTA teve um aumento superior a 150% na última década, fazendo com que o México elevasse o seu crescimento econômico. Atualmente o país se encontra entre as quinze maiores economias do planeta.

UNIDADE 3 | A AMÉRICA NO SÉCULO XX

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As pretensões dos Estados Unidos são ainda maiores, na verdade, o que essa potência mundial quer é a implantação de um megabloco, estabelecendo o livre comércio entre os países da América do Norte, América Central e do Sul (exceto Cuba), intitulado de ALCA – Área de Livre Comércio das Américas. Porém, a criação desse bloco serviria preferencialmente os interesses norte-americanos que possuem uma economia forte, principalmente em relação aos países subdesenvolvidos e em desenvolvimento das outras Américas.

FONTE: Disponível em: <http://www.brasilescola.com/geografia/nafta.htm>. Acesso em: 18 nov. 2010.

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No Tópico 4, você pôde:

● Compreender o porquê da criação dos blocos regionais.

● Identificar as razões que levaram à criação do NAFTA e ALCA.

● Identificar as razões que levaram à criação do MERCOSUL.

● Refletir sobre os interesses econômicos dos Estados Unidos na América Latina, bem como o desejo de implantá-los com urgência.

● Conhecer blocos econômicos criados na América Latina nos anos 60 e 80 e as razões que levaram aos seus insucessos.

RESUMO DO TÓPICO 4

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AUTOATIVIDADE

Considerando o que você estudou, somado à leitura complementar sugerida no início desse tópico, elabore um texto que tenha como objetivo:

a) O Brasil deve se preocupar com a ALCA ou priorizar a consolidação do MERCOSUL?

b) Reflita sobre a necessidade do fortalecimento do MERCOSUL como mecanismo de desenvolvimento econômico, cultural e político da América do Sul.

c) Aprofunde as causas que levaram ao insucesso da ALADI, ALALC e Pacto Andino.

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REFERÊNCIAS

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ANOTAÇÕES

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