Para Ler Che Guevara

download Para Ler Che Guevara

of 128

  • date post

    15-Apr-2017
  • Category

    Documents

  • view

    217
  • download

    2

Embed Size (px)

Transcript of Para Ler Che Guevara

  • CHE GUEVARA: CONTRIBUIOAO PENSAMENTO REVOLUCIONRIO

  • Manolo Monereo Prez

    CHE GUEVARA: CONTRIBUIOAO PENSAMENTO REVOLUCIONRIO

    EXPRESSOPOPULAR

  • Copyright 2001, by Editora Expresso Popular

    Projeto grfico, diagramao e capaZAP Design

    Foto da capaOsvaldo Salas e Roberto Salas

    TraduoAna Corbisier

    ImpressoCromosete

    Todos os direitos reservados.Nenhuma parte deste livro pode ser utilizadaou reproduzida sem a autorizao da editora.

    4 edio: agosto de 2002

    EDITORA EXPRESSO POPULAR LTDARua Bernardo da Veiga, 14CEP 01252-020 - So Paulo-SPFone/Fax: (11) 3105-9500Correio eletrnico: vendas@expressopopular.com.br

    Dados Internacionais de Catalogao-na-Publicao (CIP)

    Biblioteca Central da UEM. Maring - PR.

    Che Guevara: Contribuio ao pensamento revolucionrio /

    Manolo Monereo Pres. - So Paulo : Expresso Popular, 2001.

    128 p.: il.

    Livro indexado em GeoDados http://www.geodados.uem.br

    ISBN 85-87394-43-3

    1. Teoria Poltica (Che Guevara). 2. Guevara, Ernestode la Serna, 1928-1967. 3. Pensamento Revolucionrio. 4.

    Ideologia Poltica. I. Ttulo.

    CDD 21.ed. 320.5

    CIP-NBR 12899

    M742c

  • Breve Meditao sobre um Retrato de Che Guevara .........7Jos Saramago

    O legado de Che Guevara .......................................................11Joo Pedro Stedile

    Agradecimentos ........................................................................23

    Para ler o Che ............................................................................25

    O marxismo do Che: o comunismo como concepo domundo, movimento e finalidade............................................29

    Che Guevara e a Revoluo Cubana .....................................41

    Uma nova fase na luta pela libertao: dasolidariedade internacional dos proletrios ecamponeses contra o inimigo comum ................................55

    Que transio? Transio e transies ...................................65

    Duas formas de organizar a economia:os fins esto nos meios ............................................................75

    Sumrio

  • Manolo Monereo Prez

    6

    Planejamento, mercado, socialismo ......................................85

    O modelo sovitico:Elementos para uma crtica ....................................................103

    A Transio Socialista: Transformar aSociedade, Emancipar as Pessoas. .........................................111

    CONCLUSES ..........................................................................119

    Bibliografia .................................................................................124

  • Che Guevara: contribuio ao pensamento revolucionrio

    7

    Breve Meditao sobre um Retratode Che Guevara

    Jos Saramago

    No importa que retrato.Um qualquer: srio, sorrindo, de arma na mo, com Fidel ou semFidel, discursando nas Naes Unidas, ou morto, de tronco nu eolhos entreabertos, como se do outro lado da vida ainda quises-se acompanhar o rasto do mundo que teve de deixar, como se nose resignasse a ignorar para sempre os caminhos das infinitascrianas que estavam por nascer. Sobre cada uma destas imagenspoder-se-ia discorrer profusamente, de um modo lrico ou de ummodo dramtico, com a objectividade prosaica do historiador ousimplesmente como quem se disps a falar do amigo que perce-be ter perdido porque o no chegou a conhecer...

    Ao Portugal infeliz e amordaado de Salazar e de Caetanochegou um dia o retrato clandestino de Ernesto Che Guevara, omais clebre de todos, aquele feito com manchas fortes de ne-

  • Manolo Monereo Prez

    8

    gro e de vermelho, que se tornou em imagem universal dos so-nhos revolucionrios do mundo, promessa de vitrias a tal pon-to frteis que nunca antes haveriam de murchar em rotinas ecepticismos, antes dariam lugar a outros muitos triunfos, o dobem sobre o mal, o do justo sobre o injusto, o da liberdade sobrea necessidade, emoldurado ou seguro parede por meios pre-crios, esse retrato assistiu a debates polticos apaixonados naterra portuguesa, exaltou argumentos, minorou desnimos, aca-lentou esperanas. Foi olhado como um Cristo que tivesse des-cido da cruz para descrucificar a humanidade, como um serdotado de poderes absolutos que fosse capaz de extrair de umapedra a gua com que se matariam todas as sedes e transformaressa mesma gua no vinho com que se beberia ao esplendor davida. E tudo isto era certo porque o retrato de Che Guevara foi,aos olhos de milhes de pessoas, o retrato da dignidade supre-ma do ser humano.

    Mas foi tambm usado como adorno incongruente em mui-tas casas da pequena e da mdia burguesia intelectual portugue-sa, para cujos habitantes as ideologias polticas de afirmao socia-lista no passavam de um mero capricho conjuntural, forma su-postamente arriscada de ocupar cios mentais, frivolidade mun-dana que no pde resistir ao primeiro choque da realidade, quan-do os factos vieram exigir o cumprimento das palavras. Ento, oretrato de Che Guevara, testemunha, primeiro, de tantos infla-mados anncios de compromisso e de aco futura, juiz, agora,do medo encoberto, da renncia cobarde ou da traio aberta, foiretirado das paredes, escondido, na melhor hiptese, no fundode um armrio, ou radicalmente destrudo, como se gostaria defazer a algo que tivesse sido motivo de vergonha.

    Uma das lies polticas mais instrutivas, nos tempos dehoje, seria saber o que pensam de si prprios esses milhares e

  • Che Guevara: contribuio ao pensamento revolucionrio

    9

    milhares de homens e mulheres que em todo o mundo tive-ram algum dia o retrato de Che Guevara cabeceira da cama,ou em frente da mesa de trabalho, ou na sala onde recebiam osamigos, e que agora sorriem de terem acreditado ou fingidoacreditar. Alguns diriam que a vida mudou, que Che Guevara,ao perder a sua guerra, nos fez perder a nossa, e portanto eraintil ficar a chorar, como uma criana, o leite derramado. Ou-tros confessariam que se deixaram envolver por uma moda dotempo, a mesma que fez crescer barbas e alargar as melenas,como se a revoluo fosse uma questo de cabeleireiro. Osmais honestos reconheceriam que o corao lhes di, que sen-tem nele o movimento perptuo de um remorso, como se asua verdadeira vida tivesse suspendido o curso e agora lhesperguntasse, obsessivamente, aonde pensam ir sem ideais nemesperana, sem uma idia de futuro que d algum sentido aopresente.

    Che Guevara, se tal se pode dizer, j existia antes de ternascido, Che Guevara, se tal se pode afirmar, continuou a existirdepois de ter morrido. Porque Che Guevara s o outro nomedo que h de mais justo e digno no esprito humano. O que tan-tas vezes vive adormecido dentro de ns. O que devemos acor-dar para conhecer e conhecer-nos, para acrescentar o passo hu-milde de cada um ao caminho de todos.

    userResaltar

  • Manolo Monereo Prez

    10

  • Che Guevara: contribuio ao pensamento revolucionrio

    11

    O legado de Che GuevaraJoo Pedro Stedile

    Este ano celebra-se o 30 ani-versrio do assassinato de Che Guevara nas montanhas da Bol-via, pelas foras militares daquele pas, orientadas pela CIA.Apesar de preso, manter Che Guevara vivo, naqueles idos deoutubro de 1967, era uma temeridade para o imperialismo; ain-da mais na conjuntura que estava criando, com os novos planosde contra-insurgncia e de segurana nacional, que resultariamem golpes de estado e na instalao de ditaduras militares, nasdcadas de 60 e 70, em quase todos os pases da Amrica Latina.

    A figura de Che Guevara sempre foi muito controvertida:odiada pela direita e pelas foras reacionrias em todo o conti-nente; e polmica, mesmo para os setores progressistas e de es-querda.

    Naqueles idos, a esquerda andava muito dogmatizada e acada tese, formava-se um novo grupo. Cada grupo rotulava Chede acordo com seus manuais, e alguns o classificavam apenas

  • Manolo Monereo Prez

    12

    de aventureiro, de idealista. Afinal, era mais cmodo seguir atradio burocrtica e pacfica de alguns partidos que se auto-definiam como comunistas. Havia os que se assustavam comsua prtica. Era pedir demais para um militante comum seguirtamanha ousadia. Outros chegaram a deturpar suas idias, trans-formando seu exemplo em mero estmulo a um falso herosmodesvinculado das massas; esse raciocnio foi resumido nas te-ses de Rgis Debray, intelectual francs que defendia a idia deque bastava um pequeno grupo de homens bem armados ecom disposio para subir as montanhas, criando um foco revo-lucionrio, para que as massas exploradas os seguissem. Era ofoquismo.

    Decididamente no eram essas as idias de Che, nem mesmosobre estratgia militar para a tomada do poder. Em seu manualGuerra de guerrilhas, escrito a partir da experincia concretada revoluo cubana, esto presentes claramente os princpios deque a guerrilha s tem sentido como parte da luta de massas, comoum meio, e no um fim. Nele, discorre ainda sobre a necessidadede condies subjetivas, objetivas e da correlao de foras, parao desencadeamento daquele tipo de guerra.

    Mas, sendo Che to polmico e to mal interpretado quantoa estratgia e tticas, e tendo sido vitorioso em Cuba, mas der-rotado no Congo e na Bolvia, qual o seu legado?

    No se pode idealizar sua figura como se fosse um super-homem. Nem dogmatiz-lo como exemplo nico e absoluto.Nem tampouco exorciz-lo, reduzindo-o a um mito. Che repre-senta a sntese de um perodo revolucionrio em nosso conti-nente. Suas idias, seus ideais, sua prtica, formaram asimbologia dos sentimentos e da prtica de todo um movimen-to revolucionrio, de vrias organizaes populares, em Cuba ena Amrica Latina.

  • Che Guevara: contribuio ao pensamento revolucionrio

    13

    Portanto, deve-se ter em mente que se tornou refernciapoltica porque representa uma sntese da experincia